Ordenado pelos ianques e seus sócios nacionais, o golpe de ’76 e seu genocídio, tiveram como objetivo derrotar o movimento operário, para acelerar a entrega do país ao imperialismo. Reconhecer que esse plano econômico de submissão e ataque às conquistas operárias foi a orientação de todos os governos desde 1983, é fundamental para unir as lutas por memoria, verdade e justiça com as lutas cotidianas: duas faces de uma mesma luta contra o imperialismo, a patronal e seus governos.

Por: Nepo

Em meados dos anos ’70, a crise econômica e política levou o imperialismo ianque a recrudescer o saque de países como o nosso, introduzindo através de assessores e da ação do FMI, o que hoje se conhece como neoliberalismo. Mas na Argentina, esses planos se chocavam com um enorme obstáculo: um movimento operário que desde o Cordobazo de 1969 foi se tornando cada vez mais combativo, ultrapassando seus dirigentes. E um povo que acompanhava essas lutas.

Esse ascenso operário, estudantil e popular voltou-se contra o ditador Onganía e ameaçava derrubar o governo militar. Seu último representante, o Gal. Lanuse, faz um acordo com Perón para seu retorno com a esperança de domar essa força social ingovernável. Perón e Isabelita tentam uma política dupla. Por um lado, apelando ao “pacto social” para frear as lutas. Por outro,  colocando nas ruas os bandos fascistas da triple A para assassinar lutadores operários e populares. Depois da morte de Perón, o “Rodrigazo”, a primeira grande greve geral contra um governo peronista, mostrou que o governo de Isabel era incapaz de derrotar o ascenso.

Assim a patronal e o imperialismo deram sua última cartada ordenando o golpe, mas com uma diferença qualitativa dos golpes anteriores: desta vez não só vieram reprimir, mas exterminar setores inteiros da classe operária e da juventude. Especialmente os novos lutadores operários e populares, dos quais começavam a surgir embriões de uma alternativa política e sindical revolucionária que significava uma ameaça para o domínio da patronal e seus lacaios.

Extermínio e entrega

Por isso, com a ajuda inestimável das patronais e certos chefes da Central Geral do Trabalhadores (CGT) e dos sindicatos (como Rodríguez do SMATA)  que se dedicavam a entregar ativistas; a ação genocida centralizou seu ataque nas principais concentrações operárias, em especial em seus melhores lutadores e suas organizações, fazendo desaparecer comissões internas e grupos inteiros de delegados sindicais. Para isto também contou com a cumplicidade e colaboração da Igreja.

Paralelamente a este extermínio, ocorria o desmantelamento de importantes setores industriais e econômicos a serviço dos planos empresariais imperialistas: fechamento de fábricas, sucateamento da rede ferroviária, fuga de cérebros…tudo o que Menem levou ao seu ponto mais alto, foi iniciado pela ditadura; que deixou o país em uma situação de atraso da qual nunca se recuperou.

A isso há que se somar o aumento pavoroso da dívida externa (com estatização de dívidas privadas incluída); que inflou a especulação financeira até provocar a quebra de vários bancos: essa dívida externa e esse parasitismo financeiro continuam rapinando nosso país até hoje.

A ditadura e a resistência

Entretanto, apesar do extermínio de uma geração inteira de lutadoras e lutadores os militares não puderam fazer com que a classe operária e o povo deixassem de lutar. Nas fábricas e escritórios, no metrô, etc, houve paralisações e medidas que expressaram a vontade de luta frente à ocupação militar. Nas ruas, o heroísmo das Madres  e outros organismos de direitos humanos desafiavam os genocidas dia a dia.

Esta crescente resistência, somada à crise econômica, agravaram a crise do regime militar. As tensões internas deslocaram Videla, depois Viola e finalmente colocaram Galtieri, em um país quase em chamas, que presenciou em 30 de março de 1982 como a classe operária voltava a ocupar as ruas. E Galtieri, acreditando que com uma ação nas Malvinas recuperaria o apoio à ditadura, detonou uma mobilização revolucionária anti-imperialista que acabou varrendo aquela direção traidora da guerra e provocando a derrota mais profunda do golpismo na Argentina. O triunfo britânico na guerra, entretanto, submeteu nosso país a novos grilhões: uma base militar inglesa foi instalada nas Malvinas e o controle imperialista avançou sobre nossa economia e recursos naturais.

Depois da queda da ditadura, as Forças Armadas não puderam recuperar sua imagem junto ao povo trabalhador argentino, por mais tentativas que fizessem e ainda fazem os governos no poder. O repúdio ao genocídio é transmitido de geração para geração, e assim tem que continuar sendo. Não esquecemos, não perdoamos e não nos reconciliamos, estas também são razões para se manifestar.

Tradução: Lilian Enck