O 28S (28 de setembro) foi o Dia pela Descriminalização e Legalização do Aborto na América Latina e no Caribe. E não vimos grandes mobilizações por causa da pandemia, mas principalmente pela responsabilidade de quem se jogou para não mobilizar nem reivindicar nada, depositando uma confiança cega no governo de Alberto Fernández e suas promessas.

Por: Lucha Mujer-PSTU (Argentina)

Apesar de que todos os governos querem nos fazer pensar que o pior já passou, para as mulheres dos setores populares, o pior ainda está acontecendo: a falta de moradias dignas e emprego, a saúde totalmente em colapso, estupros e mais feminicídios, a impossibilidade ter acesso à ILE (sigla em espanhol para Interrupção Legal da Gravidez). E assim, cada vez mais meninas mães, e claro, abortos clandestinos sem cifras oficiais, nem de sua realização nem das vidas que levam embora. Apesar da urgência, Alberto Fernández continua adiando o envio do projeto de lei para legalizar o aborto ao Congresso.

Confiança cega a troco de que?

Nenhuma das organizações de mulheres que afirmam ser representantes da Maré Verde desencadeada em 2018 levantou a voz ou convocou a mobilização no dia 28. Apenas um morno protesto e reivindicação da Campanha Nacional pelo Aborto Legal, Seguro e Gratuito (com um pé no Governo através de Estela Díaz, Ministra de Mulheres, Gênero e Diversidade Sexual de Buenos Aires), exigindo nas redes sociais que seu projeto seja aprovado porque “é urgente, é essencial”. [1] Isso não impede que continuem compactuando com o Governo e baixando suas próprias bandeiras, ou ao menos que as levem para as ruas.

Por sua vez, o coletivo Nem Una Menos (NUM) nos chama a confiar quase que cegamente neste Governo e em suas políticas para as mulheres. Apesar das terríveis condições de vida de vastos setores devido à crise econômica combinada com a falta de respostas de fundo do Governo, nenhuma ação foi convocada desde o 8M, quando se mobilizaram apoiando a gestão de Alberto Fernández, em vez de ocupar as ruas exigindo que se cumprisse o prometido.

Não há outra explicação para sua inação que, novamente e como a Campanha, que não seja por sua incorporação ao Governo através de deputados como Dora Barrancos, ou do Ministério de Mulheres, com Gómez Alcorta. As medidas “culturais” como conversas, imagens nas redes sociais ou notas de repúdio contra os feminicídios não estão à altura da tragédia das mulheres pobres na Argentina. E muito atrás estão seus leves lembretes de que em algum momento o aborto será lei. Apenas uma proclamação para um futuro desconhecido.

Explicamos recentemente no jornal Avanzada Socialista que ´Mulheres como Barrancos, Peker ou Galmarini lutam por lugares de poder em um sistema machista, mas seu “empoderamento” está apenas a serviço de continuar sustentando um sistema cruel e injusto, que funciona à custa do suor das e dos trabalhadores e das desgraças de milhões de mulheres em todo o mundo’ [2]. Um sistema que hoje na Argentina se sustenta graças à incorporação de todas as direções sociais, sindicais e do movimento de mulheres juntas no Pacto Social com o Governo de Fernández e as patronais, e contra o povo pobre.

A confiança cega no governo de Fernández leva o NUM a se afastar das necessidades das mulheres que lutam para sobreviver nos bairros. Das mães de Guernica que ocupam terras, empurradas pela necessidade de defender suas famílias, ou das operárias da Felfort que lutam contra a patronal escravista que as obriga a se infectar com Covid-19, apenas para manter seus próprios lucros. Não existem oficinas ou conversações feministas que solucionem esses graves problemas, ou que salvem a vida de milhares de mulheres que não podem esperar nem mais um minuto pela legalização do aborto.

A esquerda feminista: a “sororidade” não é a saída

Por sua vez, as organizações de mulheres de esquerda, fundamentalmente a Frente de Esquerda (FIT-U), continuam levantando a palavra de ordem “Nosso projeto é o da Campanha” e chamando a confiar em um projeto insuficiente e que não se sabe como ou com que orçamento poderia ser aplicado. Um projeto acertado com setores que representam os interesses patronais, como se reflete na vergonhosa foto de 2018 das deputadas de esquerda junto com dirigentes do partido Proposta Republicana (PRO). As “feministas de esquerda” chamam a mobilização, mas com o objetivo de obter mais deputados e ganhar força dentro daquele covil de bandidos que é o Parlamento, com ampla maioria burguesa, e continuar defendendo a unidade do movimento de mulheres por trás de um projeto que nitidamente não pode ser o nosso.

É por isso que convocaram uma pobre ação perante o Congresso no dia 28 de setembro, onde não disseram nem uma palavra denunciando a cumplicidade do NUM ou da Campanha com o Governo, e onde não apresentaram uma perspectiva de luta nem de auto-organização para superar essas direções que nos deixam sozinhas na luta urgente e necessária que é legalizar o aborto já.

Aborto legal por DNU[1] já! As trabalhadoras e trabalhadores devem dirigir a luta

De mãos dadas com as mulheres de Guernica ou de Los Ceibos, daquelas que se organizam em cada bairro nas lutas populares, ou que continuam lutando contra os patrões para não se contagiar de Covid-19 nas fábricas, devemos colocar em pé novas organizações que tomem em suas mãos a tarefa de conseguir a legalização do aborto na Argentina por meio de um decreto já. E com todas elas à frente, conseguir que nossos companheiros trabalhadores lutem a nosso lado.

Evidente que caminhamos nessa luta de maneira unificada com quem quiser levá-la adiante, mas precisamos fazer isso com um programa que tenha em conta as necessidades urgentes das trabalhadoras e das mulheres pobres de cada bairro e que só conseguiremos com a mobilização permanente e unificada nas ruas. .

Não há como gritar “Nem uma morta mais por aborto clandestino”, e que seja sincero, se não transformarmos aquela enorme “maré verde” em uma maré trabalhadora que ocupe as ruas pelo nosso direito ao aborto legal para não morrer.

Referências:

[1] https://www.facebook.com/watch/?v=2749245005351531

[2] https://www.pstu.com.ar/pelear-por-un-lugar-en-el-pacto-social-para-derrotarlo/

[1] Decreto de Necessidade e Urgência

Tradução: Tae Amaru