Detivemo-nos na análise histórica relativamente ao tema dos “Descobrimentos” socializada pelo órgão “O Militante” e não pudemos deixar de refletir sobre as consequências do raciocínio e conclusões que resultam de tal análise.

Por: António Tonga – Em Luta/Portugal

Para nós é difícil admitir que um partido de um país com o passado e legado colonial imperialista de Portugal se assuma como patriótico de esquerda, e, para além de tudo, tente somar a isso ser antirracista!

Mas dirão eles: Portugal fez a revolução! E dizemos nós: a Revolução foi derrotada!
Derrotada?! O duplo poder das comissões de trabalhadores, das ocupações agrárias, da mobilização permanente da classe explorada foi substituído pelos governos da democracia PS-PSD, do FMI, do Euro e da União Europeia (UE). Mas o que tem isso que ver com o antirracismo?!

Talvez pudéssemos ali ter conquistado também mais direitos para os negros e negras em Portugal. Tampouco as liberdades democráticas conquistadas pela revolução discutiram a fundo o papel colonialista português e suas ideologias racistas. A identidade portuguesa continua a glorificar as descobertas e o Império, logo, o patriotismo que subsiste num Portugal que não se enfrenta com a subalternização que tem significado a UE é um patriotismo chauvinista.

O patriotismo nesses marcos significa aliança povo-patrões, receita mor para, nos países imperialistas e/ou Ex colonialistas, impedir a tomada de consciência sobre quem destrói os nossos empregos, quem recorre à inflação para enfrentar as crises, deixando-nos a nós, negros, uma fatura ainda mais dura do que ao conjunto da classe.

Num país como Portugal, ser antirracista é levar à classe trabalhadora portuguesa branca a necessidade de romper com o racismo secular impregnado na identidade portuguesa, para que esta rompa com as ideias da classe dominante, que as usa para nos dividir. O nosso princípio é outro, é o da unidade da nossa classe contra as ideologias que a dividem!

Não é possível olhar para a realidade da exploração e desvalorizar o peso da opressão racista, ou machista, ou LGBTI, ou nacional, na luta de classes. É desconsiderar que na realidade geral da classe, mas também na realidade dos sectores oprimidos, a tarefa da luta conjunta sem o combate às opressões é uma miragem, assunto para dias de festa ou propagandismo estéril.

Como pode o PCP (Partido Comunista Português) resolver os problemas da classe trabalhadora se não vê o quão profundamente a opressão a dividiu? Será que a luta contra essa desigualdade não é condição importante na luta contra o capital? Ou travamos a luta contra o capital só com os nacionais e os patriotas brancos?

Rejeitamos essa lógica, não esperamos que a revolução surja se a classe, em toda a sua diversidade, não for dirigente da luta contra o capital, mas também da sua luta contra as opressões.

Por isso temos de ver como a exploração capitalista utiliza a opressão, lembrando que a solução de fundo é a destruição do sistema, mas também que essa destruição dificilmente virá se não lutarmos contra as ideologias que unem explorados aos seus exploradores contra explorados – isso também é luta de classes caríssimos!

“Não vale a pena negar a existência de racismo, há muito o PCP o denuncia, mas não quer dizer que se possa afirmar que Portugal é um país racista.” Qualquer semelhança com o discurso do Chega, não é mera coincidência. O patriotismo de esquerda não apoiou e continua a não apoiar:

  • Nacionalidade para toda(os) nascidos em território português!
    ● Recolha de dados étnico-raciais;
    ● Reparações históricas aos países africanos e às populações afrodescendentes (perdão das dívidas externas, cotas raciais no ensino, na Função Pública, etc.).
    ● Avenida Ator Bruno Candé Marques em memória desse ator negro assassinado em 2020.