A derrota dos EUA e a tomada do poder pelo Talibã geraram um debate na esquerda internacional. Seu significado é positivo ou negativo para os trabalhadores e as massas do mundo?

Por: Alejandro Iturbe

Existe todo um setor da esquerda que toma como elemento central de sua definição, o caráter ideológico e político do Talibã. A partir daí, tira a conclusão que, dado que é o Talibã quem ganha a guerra e toma o poder, o significado do ocorrido é negativo. Em um marco de diálogo com este setor, começaremos expressando que temos muito definido o caráter ideológico e político do Talibã, desde o próprio início da guerra (2001), o definíamos como uma organização de programa burguês, “profundamente reacionária e inclusive com muitos traços fascistas”[1].

Entretanto, não é correto considerar esse como o único elemento da realidade porque leva a conclusões equivocadas. Para nós, para responder a esta pergunta, é necessário começar considerando o caráter desta guerra. Para fazer essa caracterização, iremos utilizar os critérios que foram elaborados pelo marxismo sobre este ponto. A referência mais evidente neste sentido é o trabalho O socialismo e a guerra (1915), escrito por Lenin com o objetivo de orientar o partido bolchevique russo e a ala revolucionária da II Internacional frente à Primeira Guerra Mundial[2].

Nesse trabalho, Lenin reivindica o conceito elaborado pelo general prussiano Carl von Clausewitz, em 1832: “A guerra é a prolongação da política por outros meios”[3]. Ou seja, para caracterizar qualquer guerra e fixar uma posição frente a ela, nós marxistas devemos primeiro estudar e compreender o caráter político de tal guerra.

Lenin caracterizou corretamente que a Primeira Guerra Mundial era essencialmente uma guerra interimperialista e nela os socialistas “não tinham pátria”. A partir daí, realizou uma crítica feroz aos principais partidos da II Internacional (o alemão e o francês) que apoiavam suas respectivas burguesias.  Para ele, a única linha possível frente a este tipo de guerra era o derrotismo revolucionário (“a derrota do próprio imperialismo é o mal menor”.) e orientou o partido bolchevique a “transformar a guerra interimperialista em guerra revolucionária de classes”, algo que foi concretizado na Revolução de Outubro de 1917.

Ao mesmo tempo, analisou que há outro tipo de guerras, às quais chamava de necessárias e justas: “A história conheceu muitas guerras que, apesar dos horrores, das ferocidades, das calamidades e dos sofrimentos que toda guerra acarreta inevitavelmente, foram progressistas, isto é, úteis para o progresso da humanidade…”

Dentro deste último tipo de guerra, definia uma em especial: “Os socialistas admitiam e continuam admitindo o caráter legítimo, progressista e justo da ‘defesa da pátria’ ou de uma guerra ‘defensiva’. Se, por exemplo, amanhã o Marrocos declarar guerra à França; a Índia à Inglaterra; a Pérsia ou a China à Rússia, etc, essas guerras seriam guerras ‘justas’, ‘defensivas’, independentemente de quem atacasse primeiro, e todo socialista simpatizaria com a vitória dos Estados oprimidos, dependentes, menosprezados em seus direitos, sobre as ‘grandes’ potências opressoras, escravistas e espoliadoras”. Ou seja, para Lenin a posição, frente à guerra e seu resultado, não dependia do tipo de direção que a luta imperialista tivesse no país oprimido, mas do caráter dos países em conflito. Neste caso, os socialistas “deviam defender a pátria” do país oprimido e localizar-se em seu campo militar.

Este posicionamento de Lenin obedecia a razões muito profundas: a partir do início do que ele chamou de a “época imperialista”, o principal inimigo a ser combatido e derrotado no mundo por parte dos trabalhadores e das massas era precisamente o imperialismo (ou se preferir, as burguesias imperialistas de um pequeno punhado de países). Esse era, para ele, o parâmetro central e um fio condutor para a revolução socialista: “Os socialistas não podem alcançar seu elevado objetivo sem lutar contra toda a opressão das nações”.

Trotsky e uma hipotética guerra entre a Inglaterra e o Brasil

Esse critério de Lenin frente a este tipo de guerras (nosso apoio ao país oprimido não depende do caráter da direção desse campo militar) surge de modo implícito no seu trabalho.  Duas décadas mais tarde, Trotsky o formularia de modo explícito em uma entrevista que manteve com o dirigente operário argentino Mateo Fossa, em 1938, no México[4]. Nela, na perspectiva da Segunda Guerra Mundial que se aproximava, ele considera a hipótese de uma guerra entre a Inglaterra e o Brasil.

“Tomemos o exemplo mais simples e óbvio. No Brasil reina atualmente um regime semifascista ao qual qualquer revolucionário só pode considerar com ódio. Suponhamos, contudo, que no dia de amanhã a Inglaterra entre em um conflito militar com o Brasil. De que lado a classe operária se localizaria neste conflito? Neste caso, eu pessoalmente estaria junto ao Brasil “fascista” contra a “democrática” Grã Bretanha. Por quê? Porque não se trataria de um conflito entre a democracia e o fascismo. Se a Inglaterra ganhasse, colocaria outro fascista no Rio de Janeiro e prenderia o Brasil com correntes duplas. Se, pelo contrário, o Brasil saísse triunfante, a consciência nacional e democrática deste país teria um poderoso impulso que levaria à derrubada da ditadura de [Getúlio] Vargas. Ao mesmo tempo, a derrota da Inglaterra, desfecharia um bom golpe no imperialismo britânico e daria um impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês. Realmente, tem que ser muito cabeça oca para reduzir os antagonismos e conflitos militares mundiais à luta entre fascismo e democracia. É preciso saber descobrir todos os exploradores, escravistas e ladrões sob as máscaras com as quais se ocultam! Em todos os países latino-americanos os problemas da revolução estão intimamente ligados à luta anti-imperialista”.

Décadas mais tarde, esta “hipótese de conflito” se fez realidade, embora em um contexto mundial diferente, durante a guerra das Malvinas entre a Inglaterra e a Argentina (1982). Neste último país, existia uma sangrenta ditadura militar pró-imperialista que havia sequestrado e assassinado milhares de lutadores operários e populares. Esta ditadura, então presidida pelo general Leopoldo Galtieri, invadiu e recuperou as Ilhas Malvinas, uma velha aspiração nacional já que estas ilhas estavam em poder da Inglaterra desde 1833.  Analisar como se originou essa guerra e seu desenvolvimento excede o objetivo deste artigo. Quem tiver interesse, pode ver vários artigos publicados neste site[5].

O que queremos analisar é que a posição adotada frente a essa guerra dividiu profundamente a esquerda argentina e de outras partes do mundo. De modo vergonhoso, um setor apostou no triunfo da Inglaterra; outro teve uma política centrista de “Nem Inglaterra nem ditadura argentina”. A organização morenista argentina daqueles anos, o PST (Partido Socialista dos Trabalhadores), e a recém-fundada LIT-QI, não tiveram dúvidas em seguir os ensinamentos de Lenin e Trotsky.

Apesar do PST estar sob a mais dura clandestinidade, combatia heroicamente contra a ditadura e apesar de ter tido mais de 100 mortos pela repressão, ocupou seu lugar no campo militar anti-imperialista e, junto com a grande maioria do povo argentino, colocou todas suas forças pelo triunfo nessa guerra. Cabe agregar que, depois da derrota argentina, esteve nas ruas do país impulsionando as mobilizações que derrubaram a ditadura.

Um debate que se repete

Este debate que se dá agora sobre o caráter progressivo ou reacionário do triunfo do Talibã, na realidade repete aquele que se deu na esquerda mundial no início da guerra (2001). Do lado do imperialismo estadunidense, o governo do republicano George Bush filho, aproveitou o efeito político que os atentados contra as Torres Gêmeas de Nova York produziram em 11 de setembro, para começar a “guerra contra o terror”, dirigida ao que chamou de “o eixo do mal” (entre outros, os governos do Afeganistão, Iraque, Síria, Coréia do Norte e Irã). A invasão ao Afeganistão e a derrubada do regime do Talibã foi o primeiro episódio dessa guerra.

No caso do Afeganistão, havíamos caracterizado o regime do Talibã como uma “ditadura teocrática”, com leis baseadas em uma interpretação extrema e intolerante da sharia islâmica.  Estas leis são duramente opressivas e repressivas, especialmente contra as mulheres e os homossexuais, e contra diversas minorias étnicas, religiosas e linguísticas. Era precisamente o caráter deste regime o que levava muitos a duvidar sobre apoiar a guerra “defensiva” que se iniciou contra o invasor e que o Talibã encabeçava.

É neste marco que, para expressar a posição da LIT-QI, foi publicado o artigo “Que guerra é esta?” de Martín Hernández[6]. Nesse artigo, se tomam os critérios de Lenin e Trotsky para analisar o caráter da guerra e a posição que os revolucionários deviam tomar frente a ela. Diante da pergunta de que lado devem estar os socialistas? o artigo responde:

“Se deixarmos de lado o que ambos os lados dizem; ‘defendemos a liberdade (Bush) ou ‘guerra aos infiéis’ (Talibã), o perfil desta guerra nos aparece [de modo] quase caricaturesco. De um lado, os EUA respaldados por todas as potências militares do mundo. Do outro, um país com um atraso milenar…dirigido por uma corrente (o Talibã) que, depois de ter sido formado pela CIA hoje se nega a aceitar as ordens do imperialismo. Se fizermos este exercício… estaremos nos encontrando com o mais típico conflito de nossa época: uma guerra pela conquista de uma nova colônia em uma região estratégica do planeta”.

O artigo assinala que a discussão sobre as “novas colônias” não era anacrônica, já que as tendências mais profundas do imperialismo levam à colonização ou à recolonização dos países não imperialistas. Esse era o conteúdo do projeto do “Novo Século Americano” promovido por Bush. Frente a essa ofensiva recolonizadora:

“No momento atual, a maioria das burguesias dos países dependentes estão tão submetidas e integradas ao imperialismo que não ensaiam a menor resistência.[Entretanto,] existem governos e/ou setores burgueses que, de uma forma ou outra, quase sempre desesperada, tentam resistir à ofensiva recolonizadora e para isso também buscam se apoiar no movimento de massas. Este enfrentamento entre as massas dos países dependentes e o imperialismo, enfrentamento do qual participam setores burgueses de variados tipos[e muitas vezes dirigem, acrescentaríamos] é o que está por detrás desta guerra”.

O artigo concluía que, quando se trata da luta de um país dependente e agredido pelo imperialismo, sim “temos pátria”, como dizia Lenin. Ou seja, tínhamos um campo militar claro, o que implicava que, na medida de nossas possibilidades, promovíamos essa unidade de ação militar com o Talibã.

É possível fazer unidade de ação com uma corrente como o Talibã?

A partir dessa orientação, se apresentava um risco muito concreto: “Existe a possibilidade de que o Talibã em um determinado momento persiga os revolucionários e tente matá-los. Eles são uma corrente profundamente reacionária e inclusive com muitos traços fascistas”.

Este risco, evidentemente existia. Mas essa possibilidade (o ataque da direção militar de uma luta progressiva aos dissidentes ou opositores de seu próprio campo militar) se apresentou não apenas com o Talibã, mas também com diversas direções burguesas ou estalinistas.

Por exemplo, na China, no contexto da unidade de ação contra a invasão japonesa, as forças do exército burguês de Chiang Kai-shek atacavam, toda vez que podiam, o exército camponês comunista liderado por Mao. Na Guerra Civil Espanhola, no marco da luta comum contra Franco, os estalinistas mataram muitos militantes do POUM, anarquistas e trotskistas. No Vietnã, no período de resistência contra o imperialismo japonês, os trotskistas sofreram tanto a repressão japonesa como a da direção estalinista. Por exemplo, o dirigente trotskista Ta Thu Thau esteve detido primeiro em um campo de concentração japonês e depois foi assassinado por ordem de Ho Chi Minh, em1945[7].

São apenas alguns exemplos históricos. Ou seja, desenvolvemos essa unidade em condições muito difíceis, enfrentando um duplo perigo: o do combate contra o inimigo imperialista ou fascista, por um lado, e a possível repressão da direção de nosso campo militar.

No entanto, inclusive nestas condições muito difíceis é imprescindível que levemos adiante essa unidade de ação militar, por duas razões. A primeira é que essas são as condições concretas nas quais se desenvolve a luta contra o inimigo principal (o imperialismo ou o fascismo). Nós revolucionários não somos “declamadores” que nos contentamos em ter uma posição correta frente à luta de classes: uma vez que fixamos essa posição, tentamos (na medida de nossas possibilidades) levá-la à prática.

A segunda razão é que essa participação nesta ação unitária é a única que nos dá a possibilidade real de impulsionar nosso programa e disputar a direção do processo. Por exemplo, Trotsky, durante a Guerra Civil Espanhola orientava desta forma os trotskistas desse país a intervir no campo republicano, com uma direção de setores burgueses que sustentava o estalinismo: “Participamos na luta contra Franco como os melhores soldados…”[8]. Em outro artigo, acrescentava: “Enquanto não formos suficientemente fortes…combateremos sob sua bandeira [a do governo republicano]. Porém em todas as ocasiões manisfestaremos nossa desconfiança nele…”[9].

Ou seja, nessas condições concretas, a tática de unidade de ação militar é uma necessidade que muitas vezes a realidade nos impõe para levar adiante duas questões de princípios: a participação na luta contra o imperialismo (ou o fascismo) e a apresentação de nosso programa para disputar e tentar ganhar a direção do processo de luta. Dito em outras palavras, estamos no mesmo campo militar que essas direções burguesas ou burocráticas que encabeçam a luta (neste sentido, devemos muitas vezes aceitar sua direção militar) enquanto as condições objetivas nos impuserem. Mas não estamos no mesmo campo político que elas e, de modo permanente, as combatemos politicamente.

É o que o marxismo chamou de tática de unidade e enfrentamento. Porque uma parte da tática é a unidade na luta contra o imperialismo e o fascismo, mas a outra é que, no marco dessa unidade, permanentemente combatemos politicamente contra o programa dessas direções, exigimos deles e impulsionamos as medidas que sejam necessárias para ganhar a luta e, finalmente, lutamos contra o fato que, sob a desculpa da necessária disciplina militar, buscam impor essa disciplina no terreno político e impedem (e inclusive reprimem) a democracia dos trabalhadores e das massas. Ou seja, neste caso concreto, no contexto da ação unitária, nunca deixamos de denunciar o caráter do Talibã.

 

 É bom ou ruim que o imperialismo tenha sido derrotado?

Depois de percorrer pelos critérios que o marxismo revolucionário elaborou ante as guerras deste tipo e de recordar como os aplicamos frente ao caso concreto da guerra do Afeganistão, voltemos à pregunta inicial: é bom ou ruim que o imperialismo tenha sido derrotado?

Para nós, por tudo o que já analisamos, é muito positivo. Por duas razões, a primeira é que o imperialismo sai debilitado, muito mais na defensiva do que se tivesse triunfado, com crises e profundas contradições sobre como defender seus interesses no mundo e levar adiante a política de recolonização à qual nos referimos.

Aqui não entraremos no debate sobre se esta derrota é equivalente à do Vietnã na década de 1970 ou é menor.  Ambas foram derrotas e têm, nesse sentido, um impacto na mesma direção. Não casualmente, naquela época, os analistas políticos do imperialismo cunharam o termo “síndrome do Vietnã” para referirem-se ao giro político que representou deixar de lado (pelo menos, por todo um período) a política agressiva e intervencionista contra os trabalhadores e os povos, que se aplicava desde inícios dos anos 1950, e que se encobria sob o manto da “guerra ao comunismo”.

A partir do governo de Jimmy Carter (1977), passaram a aplicar a tática que denominamos de “reação democrática”, elaborada pelo seu conselheiro de Segurança, Zbigniew Brzezinski (de origem polaca). Ele era muito consciente das condições mais desfavoráveis no mundo depois do Vietnã e que, por isso, o aspecto militar devia passar para um segundo plano e colocar-se a serviço de uma nova tática central. Segundo sua visão: “Vencer não significa mais a capacidade de derrotar militarmente um adversário…mas sim a capacidade de prevalecer contra esse adversário em uma paciente luta de longo prazo”[10].

Bush, com sua “guerra contra o terror” vira o leme e retorna à política iniciada na década de 1950. Porém seu projeto é derrotado no Iraque e no Afeganistão. Não casualmente, algumas décadas depois, quando a dinâmica desta derrota em ambas “guerras paralelas” já se mostrava objetivamente inevitável, os analistas políticos começaram a utilizar o conceito de “síndrome do Iraque”. O que foi expresso no giro da política internacional aplicada por Barack Obama[11].

Inclusive o próprio Donald Trump, que por vocação e personalidade teria querido “sair atropelando”, ficou aprisionado nessa realidade. Não pode bombardear a Coreia do Norte e teve que optar pelo “caminho chinês” da negociação; fracassou notoriamente em suas ameaças de invadir a Venezuela e, no final de seu governo, foi ele que começou a promover a saída definitiva dos soldados estadunidenses, expressando: “Depois de todos estes anos, é hora de trazer nossa gente de volta para casa”[12]. Uma política que o governo de Joe Biden acabaria por concretizar.

A crise derivada da síndrome Iraque-Afeganistão se reaviva com a culminação da derrota (embora possivelmente atenuada pelos anos transcorridos desde que seu curso já era objetivamente inevitável). Basta ver o profundo debate que se dá na mídia imperialista e nos núcleos de inteligência e elaboração de política como o Atlantic Council[13]. Um debate que se estende à mídia de outros países imperialistas que também sofreram com a derrota, como a BBC britânica ou El País da Espanha. Nesses artigos se misturam tentativas sérias de fazer um balanço sobre as causas da derrota com “repasses de fatura” sobre as responsabilidades[14].

O próprio governo Biden sai debilitado embora, como dissemos, de modo atenuado porque, em última instância, só “colocou a cereja no bolo”. Inclusive declarou “a responsabilidade é minha” sobre a volta do Talibã ao poder, ainda que tenha defendido a retirada das tropas[15].

Existe outro aspecto de enfraquecimento do imperialismo: a desmoralização da base de suas forças armadas, em especial daqueles soldados que acreditaram realmente que lutavam pela “liberdade e democracia”. Por exemplo, Jack Cumming (um ex – integrante das forças britânicas no Afeganistão que perdeu ambas as pernas em combate) declarou, depois de saber do final da guerra: “Parece que perdi minhas pernas por nada e que meus companheiros morreram em vão”[16]. Um sentimento similar expressam os soldados veteranos estadunidenses. Por exemplo, Anthony Valdez (que combateu durante 20 anos tanto no Iraque como no Afeganistão) declarou: “Todo o trabalho que fizemos para tentar nos basear em coisas que ajudem o Afeganistão a se converter em um país melhor, senti de alguma maneira que as coisas estão erradas. É perturbador…e parte meu coração[17].

O impacto no movimento de massas

O conceito de “síndrome” (seja do Vietnã ou do Iraque -Afeganistão) se refere centralmente ao impacto de suas derrotas sobre o próprio imperialismo . Porém este aspecto sempre se combina com outro: há um triunfo do movimento de massas que tem um “efeito demonstração” a partir de exemplos vivos de que, mesmo através de duras lutas, é possível derrotar este inimigo.

Por exemplo, tal como assinala a recente declaração da LIT-QI, é impossível entender o grande ascenso revolucionário no mundo árabe e muçulmano a partir de 2011, sem ver que ele foi, em grande medida, impulsionado pela derrota que objetivamente o imperialismo já sofria.

Retomemos então, a lucidez imperialista de Zbigniew Brzezinski que, em uma entrevista realizada em 2014, expressou: “Vivemos um período de instabilidade sem precedentes. Há enormes faixas do território mundial dominadas pela agitação, revoluções, raiva e perda de controle do Estado…É um despertar político global baseado em uma tomada de consciência sobre as injustiças, as desigualdades e a exploração…Os Estados Unidos ainda são dominantes mas já não são capazes de exercer poder hegemônico…A  fragilidade americana fica evidente em sua incapacidade de dar estabilidade à política dinâmica e imprevisível do Oriente Médio…”[18]

É verdade que, desde então, “muita água passou debaixo da ponte”, não apenas na dinâmica dos processos de luta nessa região como no conjunto do mundo. Outras lutas passaram a estar no centro da cena (algumas no coração do próprio imperialismo estadunidense, como as rebeliões antirracistas de 2020) e o imperialismo elaborou diversas respostas frente a elas. Entretanto, estamos seguros de que a consumação de sua derrota no Afeganistão, com todas as contradições e atenuações que possam haver, servirá de impulso à luta dos trabalhadores e das massas do mundo.

Resta um último ponto que será desenvolvido em outros artigos. Somos conscientes de que quem tomou o poder no Afeganistão foi o Talibã, uma corrente que, como vimos, caracterizamos como “profundamente reacionária e inclusive com muitos traços fascistas”, que tentará instalar uma ditadura teocrática a serviço de se consolidar como a direção burguesa de um país capitalista[19]. Portanto, é quase certo que tentará deter  a luta contra o imperialismo.

Por ambos os fatores, a tática de unidade de ação militar com o Talibã (a unidade e enfrentamento que analisamos) acabou no momento em que derrotou o imperialismo e tomou o poder. Por um lado, tal como a recente declaração da LIT-QI afirma expressamente: “acreditamos que a tarefa que agora se apresenta para as massas afegãs (em especial para as mulheres e as minorias oprimidas) é a luta contra essa ditadura”[20]. Por isso, apoiamos e defendemos as incipientes mobilizações das mulheres em defesa de seus direitos, que começaram a ocorrer em Cabul[21]. Por outro lado, exigimos do Talibã que continue e aprofunde sua luta contra o imperialismo que, como toda experiência histórica o demonstra (inclusive a do próprio Talibã), se ficar limitada a um só país (ainda mais do tipo do Afeganistão) está condenada à derrota ou à capitulação ao imperialismo das direções que a “encerraram” nas fronteiras nacionais.

[1] Ver revista Marxismo Vivo n.o 4, São Paulo, Brasil, dezembro de 2001.

[2] https://www.marxists.org/espanol/lenin/obras/1910s/1915sogu.htm

[3] Ver Carl von Clausewitz, Sobre la guerra, t. I, art. I, cap. I, sec. XXIV.

[4] Ver, entre outras versões: https://elporteno.cl/leon-trotsky-la-lucha-antiimperialista-es-la-clave-de-la-liberacion-una-entrevista-con-mateo-fossa/

[5] Entre outros: https://litci.org/pt/36-anos-apos-o-inicio-da-guerra-das-malvinas/

[6] Ver revista Marxismo Vivo no 4, São Paulo, Brasil, dezembro de 2001.

[7] Ver https://litci.org/pt/teoria/ta-thu-thau-lider-trotskista-vietnamita/

[8] TROTSKY, León. “La lucha contra el derrotismo en España”, Escritos, 14/9/1937

[9] TROTSKY, León. La revolución española, T. II, p. 104

[10] Sobre esta questão, ver: https://litci.org/pt/a-reacao-democratica-da-sindrome-do-vietna-a-sindrome-do-iraque/

[11] Sobre a situação existente já em 2009, recomendamos ler os artigos de Bernardo Cerdeira no dossiê “Oriente Médio. Um novo e imenso Vietnã para o imperialismo”. Publicados na revista Marxismo Vivo n.o 22 (dezembro de 2009).

[12] https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-57762858

[13] Ver o dossiê publicado pela página https://www.atlanticcouncil.org/blogs/new-atlanticist/experts-react-the-taliban-has-taken-kabul-now-what/

[14] Ver, por exemplo, as críticas do ex primeiro ministro britânico Tony Blair em https://www.abc.es/internacional/abci-blair-critica-imbecil-decision-biden-haber-retirado-tropas-afganistan-202108221309_noticia.html  e o artigo de El País em https://elpais.com/internacional/2021-08-22/las-criticas-por-la-gestion-de-la-retirada-de-afganistan-acorralan-al-presidente-biden.html

[15] https://apnews.com/article/c8d5cc134a308057d6e50e068285f811  

[16] https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-58264699

[17] https://www.wtvm.com/2021/08/25/military-matters-veterans-upset-about-afghanistan-aftermath-getting-help-with-coffee-camaraderie/

 

[18] Revista Época, edição 863, 15 de dezembro de 2014.

[19] Sobre esta questão, ver, por exemplo, o arto ig://www.terra.com.br/noticias/mundo/riqueza-mineral-do-afeganistao-pode-dar-ao-taleba-trilhoes-de-dolares-da-luta-contra-o-aquecimento-global,7339136a427860eb3d935496f8cd74f0jnvhlz47.html

[20] https://litci.org/pt/afeganistao-a-consumacao-da-derrota-do-imperialismo/

[21] https://www.abc.es/internacional/abci-mujeres-afganas-salen-calles-kabul-y-protestan-publicamente-derechos-202108181108_noticia.html?fbclid=IwAR11ui1x6w4-jpZS8P6Xx9oGlSDHJTdmNHoDx40uKvfvdiEhsCxm4P8mcIc

Tradução: Lilian Enck