A Etiópia é hoje um dos principais parceiros estratégicos dos Estados Unidos na África. Os Estados Unidos é o maior investidor na Etiópia: entre 2008 e 2009 quase 1 bilhão de dólares ao ano, e na década de 2010 cerca de 500 milhões ao ano. Mesmo assim a Etiópia é marcada pela fome e a pobreza com 8 milhões de pessoas passando fome. Todo o processo que vem passando o país vem sendo acompanhado por Donald Yamamoto, secretário de Estado adjunto dos Estados Unidos para a África.

Por: Américo Gomes

Além do auxílio econômico, a Etiópia recebe um substancial auxilio militar para ser a “capitã do mato” no Chifre da África. Recebe armas, treinamento e informações dos Estados Unidos, para suas supostas operações de contraterrorismo na região. Incluindo intervenções nos países vizinhos. Na Somália a presença militar etíope, apoiada pelos Estados Unidos, garante o governo somali contra o Al-Shabaab. No Djibuti apoia o governo em guerra com a Eritreia, pelas montanhas Dumeira e Dumeira, uma das rotas de navegação mais movimentadas do mundo.

A assistência militar dos EUA, que treina o exército etíope, é feita por meio de missões de manutenção da “paz” e via ajuda humanitária em pacotes aprovados pelo Congresso.

A Frente de Libertação do Povo de Tigray, que representa 6% da população, e esteve na vanguarda da luta contra a ditadura, derrubada em 1991, é quem assumiu o novo regime, através da Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF). A partir daí vem se beneficiando com os grandes negócios e acordos com o imperialismo, seu primeiro-ministro era Meles Zenawi (fundador da Liga Marxista-leninista do Tigray).

Zenawi esteve no governo até sua morte em 2012, ano que assumiu Hailemariam Desalegn, que governou até o início de 2018, quando foi derrubado por um processo de mobilização da população, que jogou até mesmo seu partido contra ele. Um processo parecido com a África do Sul, onde o partido no poder ajuda a derrubar seu governo para continuar mandando. A EPRDF, para impedir o avanço dos protestos, expulsou Hailemariam, derrubou seu governo e nomeou um novo. Os protestos tiveram centenas de mortos e cerca de 20.000 pessoas presas. Principalmente jovens, que bloquearam estradas, fecharam empresas e fizeram greves em Addis Abeba.

Mais um exemplo em que um processo de mobilização popular impõe a mais um governo burguês no continente africano a necessidade de fazer concessões, para se manter no poder. O interessante é, que mesmo a contragosto, o imperialismo norte-americano está aceitando e se readequando.

O novo primeiro-ministro é Abiy Ahmed, do OPDO (siga em inglês da Organização Democrática do Povo Oromo) um dos partidos que faz parte da EPRDF. Para tentar estabilizar seu governo ele teve que encerrar o estado de emergência, libertar prisioneiros políticos e dar alguma liberdade democrática, mas junto com isso pretende garantir mais ainda a abertura da economia a investidores estrangeiros.

Fruto da crescente mobilização e do desgaste das forças armadas, e dos aparatos de repressão, ele teve que acabar com a guerra com a Eritreia.

A guerra

A ditadura militar na Etiópia, liderada pelo coronel Mengistu Hailemariam, não foi derrubada somente pela EPRDF, mas também pela Frente de Libertação do Povo da Eritreia (FLPE), que passou a administrar este estado, e que levou à sua separação formal da Etiopia em 1993.

O governo da Etiópia nunca aceitou de fato a separação e iniciou uma guerra em maio de 1998. A justificativa era a Eritreia reivindicar a região de Badme, os etíopes recusaram-se a retirar suas tropas deste território. A guerra custou aos dois países 100 mil mortos. São povos que compartilham a mesma cultura, língua e história.

A Etiópia sempre contou com o apoio dos Estados Unidos, mas a Eritreia foi rompendo seu isolamento desenvolvendo alianças com os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, ambos ansiosos por usar seu território como base para operações no Iêmen.

O novo governo de Abiy Ahmed anunciou em 5 de junho que a Etiópia cumpriria plenamente com o Acordo de Argel de dezembro de 2000, que nunca foi cumprido, e em 8 de julho voou para Asmara para assinar um acordo de paz com seu colega Isaias Afewerki.

Etiópia um país cheio de conflitos

A Etiópia tem mais de 80 etnias diferentes. Os tigrayanos são uma minoria, mas detêm as riquezas e detinham o poder de maneira absoluta, desde que chegou ao poder.

A partir de 2015, os membros da etnia oromo, o maior grupo étnico do país, cerca de 35 a 40% do total, vem realizando protestos em mais de 200 cidades exigindo reformas políticas. Em 2016 dezenas de milhares de amhara, segunda maior etnia, se juntaram aos protestos contra o governo. Juntos representam cerca de 60% da população da Etiópia. O governo declarou estado de emergência.

Mesmo apontando a possibilidade de concessões o governo se recusa a mexer no sistema federal criado pela ditadura, uma federação com estados que tem constituições que determinam que somente alguns grupos étnicos tenham propriedades, e os demais grupos sejam considerados colonos ou forasteiros. Há estados onde milhares de amharas foram despejados, mortos e torturados, com os  tigrayanos tomando suas propriedades.

A principal reivindicação imediata destas etnias é o fim de um plano de desenvolvimento metropolitano que incorpora as cidades ao redor de Adis Abeba. Nessa região, o governo realizou expropriações indevidas das terras principalmente dos camponeses, que ficaram sem nenhum outro meio de subsistência, afetando oromos e amharas.

Os militares estão esgotados por combater em várias frentes, com seus soldados envolvidos em operações na Somália e Djibouti, e milhares na fronteira com a Eritreia. Agora que há a necessidade de acabar com a agitação popular interna, houve certo colapso nesta instituição.

A renúncia de Hailemariam Desalegn em fevereiro, depois do início dos bloqueios das estradas que cercam Adis Abeba, fortaleceu os manifestantes. Multidões inundaram as ruas novamente para celebrar a libertação dos prisioneiros. Isso obrigou a que a EPRDF, para tentar retomar o controle da situação, nomeasse Abiy, que é fiel ao partido, mas é oromo. Esta situação deixa Abiy em uma posição vulnerável, já que, por um lado tem que apresentar reformas populares, na esperança de acalmar os manifestantes e ampliar sua base social e, por outro lado, não atacar os privilégios dos tigrayanos. Os tigrayanos já estão protestando contra as propostas de paz com a Eritréia. E é importante ressaltar que eles ainda controlam o exército.

Como se vê, a Eritreia é o menor dos problemas do Sr. Abiy.

Uma nova marionete do imperialismo

Abiy Ahmed também é profundamente ligado ao imperialismo norte-americano, não pretende mudar estas relações e já anunciou a privatização de empresas estatais como a Ethiopian Airlines e empresas de telecomunicações e energia.

A Etiópia tentou um incipiente processo de industrialização, mas que foi logo destroçado pelas multinacionais. Construiu uma malha rodoviária e a ferrovia Addis-Djibouti. Teve uma das taxas mais altas de investimento público, que  levou o país a uma taxa de crescimento econômico de respeitáveis ​​5-6% a excepcionais 10% ao ano. Foi anunciado como a nova China na África.

Apostando neste projeto desenvolveu o Plano de Crescimento e Transformação (GTP), desde 2010. Isso fez  com que dobrasse a geração de eletricidade de 1800 a 4200 MW, sendo que sua necessidade, de pico de energia, é de 2000 MW. Quando todos os projetos estiverem concluídos a capacidade de geração da Etiópia será mais de quatro vezes a demanda doméstica.

Mas, além de não conseguir atrair investimentos, pois a política do imperialismo para o país é a importação de manufaturas, se dedicou a construção de obras de grande magnitude, que tiveram o efeito de deslocar investimentos para o lugar errado.

Antes da guerra, Etiópia e Eritreia desfrutaram de um mercado comum, sem barreiras tarifárias, além de ter acesso total aos portos eritreus de Assab e Massawa. Tudo isso foi interrompido pela guerra. A Etiópia ficou sem acesso ao mar e passou a depender da ferrovia de Adis Abeba para o porto de Djibuti, o que encareceu as exportações.

Isto refletiu em um declínio das exportações de 17% do PIB para 8%, em comparação com a média subsaariana de 27%. Sua exportação em relação ao PIB é agora a segunda mais baixa do subcontinente após o Burundi (6,2%).

Agora, com o sucateamento das empresas nacionais, lhe resta buscar ser um grande exportador de energia,

O desmoronamento da Etiópia é um reflexo de sua política macroeconômica, aplicada pelo governo, e de sua subserviência econômica ao capital financeiro internacional.

As mobilizações vão continuar

O novo governo de Abiy Ahmed não vai atender nenhuma das reivindicações estratégicas dos etíopes e nenhuma reforma política de profundidade será feita. Nem haverá resposta para a marginalização dos maiores grupos étnicos nacionais, que vivem um processo de exclusão política e econômica.

Por isso, as mobilizações devem continuar até derrubar o governo da EPRDF e estabelecer um governo que chame uma Assembleia Constituinte que incorpore todas as etnias, dando-lhes compensações e possibilitando ao povo etíope e aos trabalhadores que se organizem em seus partidos para poderem governar e estabelecer as profundas mudanças sociais que necessitam.