Apresentamos a seguir a segunda parte do artigo em homenagem à Revolução Mexicana de 1910, publicada na revista Correio Internacional (Nova Época) n° 4. A primeira parte foi publicada em Correio Internacional n° 3 e neste site.

Na primeira década do século XX, ao mesmo tempo em que o processo de industrialização – favorecido pela penetração imperialista e impulsionado por Porfirio Díaz – avançava, crescia a resistência de camponeses e operários à ditadura, bem como de amplos setores burgueses deslocados pelos monopólios imperialistas. A principal demanda de unificação destes setores era a proibição da reeleição presidencial de Porfirio Díaz. Em torno dessa bandeira funda-se o Partido Antirreeleição em maio de 1909.

Outro fato fundamental de 1909: Emiliano Zapata, que surgia como um dos principais líderes da rebelião camponesa, foi eleito presidente da Junta da Defesa das Terras de Anenecuilco, estado de Morelos, e em maio daquele ano liderou os camponeses que recuperaram pela força as terras de Villa de Ayala, que eram protegidas pela polícia.

Díaz anuncia novas eleições presidenciais no início de 1910, prometendo não se apresentar à reeleição, mas depois se desdisse e preparou uma nova fraude. O Partido Antirreeleição apresenta a candidatura de um fazendeiro do norte, Francisco I. Madero. A reação de Díaz foi prender Madero em San Luis Potosí, de abril de 1910 até o fim das eleições, realizadas em 10 de julho. Díaz volta a vencer com a fraude. Uma vez libertado, Madero exila-se por poucos meses no Texas e de lá lança o chamado Plano de San Luis, convocando o levantamento armado contra o governo de Díaz.

A esse chamado respondem Álvaro Obregón, encabeçando uma força de fazendeiros e camponeses médios do nordeste; Francisco Villa, apoiado por camponeses pobres e operários agrícolas de Chihuahua; e Venustiano Carranza, um representante dos fazendeiros em Coahuila. Em 11 de março de 1911, Emiliano Zapata, à cabeça de suas tropas indígenas do estado de Morelos, levanta-se em armas contra o governo de Porfirio Díaz. Em 10 de maio as tropas de Villa e de outro líder camponês, Pascual Orozco, tomam a Cidade Juárez. O levantamento obriga Porfirio Díaz a renunciar nesse mesmo mês de maio de 1911 e a exilar-se na França, onde foi recebido como um herói pelo governo, que lhe entregou o sabre de Napoleão III.

Realizam-se eleições e o Congresso entrega o governo a Madero em novembro de 1911. Imediatamente, produz-se um forte confronto de Madero com as forças camponesas do estado de Morelos, quando seu governo negou-se a implantar um plano de reforma agrária radical que expropriasse os fazendeiros e devolvesse as terras usurpadas aos indígenas e exigiu que os zapatistas se desmobilizassem e se desarmassem. Da fazenda que havia tomado no ano anterior, Zapata lança o Plano de Ayala em 28 de novembro de 1911. O Plano tem como centro o chamado às armas para impor a reforma agrária.

Madero nomeia um general porfirista, Victoriano Huerta, como comandante em chefe do exército, para combater os insurrectos. Mas este dá um golpe de estado em fevereiro de 1913, com o apoio da embaixada dos Estados Unidos, derrubando e assassinando Madero e seu irmão e vice-presidente (episódio conhecido “Os dez dias trágicos”, período entre 9 e 19 de fevereiro em que ocorreram estes acontecimentos). Huerta tentaria apoiar-se nos Estados Unidos para voltar a impor a ditadura.

Em 26 de março, Venustiano Carranza, fazendeiro e governador de Coahuila, lança o chamado Plano de Guadalupe, que convoca uma rebelião contra o governo de Huerta e forma o chamado Exército Constitucionalista. Álvaro Obregón e Villa unem-se a ele. Zapata, sem aliar-se diretamente a Carranza – com quem mantém as mesmas diferenças que com Madero -, também combaterá o governo de Huerta.

Em abril de 1914, enquanto as tropas da Divisão do Norte, comandadas por Villa, conquistam a cidade de Torreón, estado de Coahuila, soldados dos Estados Unidos tomam o porto de Veracruz em apoio a Huerta. Mas a rebelião continua com triunfos em Zacatecas e Guadalajara. Villa consegue construir um verdadeiro exército e é particularmente hábil em utilizar a ferrovia para concentrar suas tropas nos locais de batalha.

Zapata, à cabeça de uma rebelião com características de guerrilha camponesa, conquistava Jonacatepec e Chilpancingo, contando nesse momento com 27 mil homens. Em abril de 1914 controlava completamente o estado de Morelos e alguns locais de Guerrero. Pouco depois tomou Cuernavaca e em junho ocupou os povoados de Cuajimalpa, Xochimilco e Milpa Alta. Com isso, adquiriu condições de avançar para a Cidade do México. Mas as tropas de Carranza chegam antes à Capital. Huerta renuncia e foge do país em 15 de julho.

Villa e Zapata tomam a Capital
 
Carranza chega à Cidade do México a mando das forças constitucionalistas e assume o poder em 20 de agosto. Em 1º de outubro, convoca-se a uma Convenção Revolucionária, que inicia suas sessões na capital, mas pouco depois é transferida para Aguascalientes. Ali o confronto ocorrido anteriormente entre as forças do estado de Morelos e as de Madero se repete. Só que agora são Carranza e Obregón que resistem às demandas camponesas, defendendo os interesses dos fazendeiros, e Villa soma-se aos representantes de Zapata para exigir a reforma agrária. Com estes últimos em maioria, a Convenção desconhece o governo de Carranza e em 5 de novembro nomeia presidente um representante das forças camponesas, Eulalio Gutiérrez.

A partir disso, as organizações camponesas de Villa e Zapata ficam conhecidas como as Forças Convencionalistas, enquanto as de Carranza e Obregón permanecem identificadas como Constitucionalistas. Carranza vê-se superado pelas Forças Convencionalistas e transfere seu governo para Veracruz em 9 de março.
 
Villa e Zapata concentram suas tropas nos arredores da Cidade do México, em Xochimilco, e em 6 de dezembro ocupam a Capital com mais de 30 mil camponeses e camponesas armados.
 
No entanto, as forças camponesas ficam na Capital apenas 10 dias e depois voltam para seus estados, deixando um governo débil. Gutiérrez será substituído por Roque González Garza em 16 de janeiro, que se transfere para Cuernavaca com as forças da Convenção.

Isto lhe permitirá recuperar as Forças Constitucionalistas de Carranza, que retomam a Capital em abril. Carranza é reconhecido como presidente pelos governos da Argentina, Brasil, Guatemala, Colômbia e Bolívia. Os Estados Unidos reconhecem-no como governo de fato.

Um trabalho intitulado “Revolução Mexicana 1908-1919” refere-se assim à ocupação da Capital por Villa e Zapata e sua posterior retirada:

“Villa entrou na Cidade do México em 3 de dezembro, por Tacuba e Azcapotzalco. No dia seguinte reuniu-se com Zapata em Xochimilco. Os zapatistas receberam os villistas com música. Zapata e Villa conversaram. Depois, avançaram com suas tropas para a cidade.

Ante a chegada de Villa e Zapata, Carranza tinha fugido da capital para refugiar-se em Veracruz. Os camponeses armados já estavam no centro político do país. Trinta mil homens e mulheres dirigiram-se à principal praça da capital (…). O acontecimento era extraordinário. Dois generais camponeses, com seus exércitos, ocupavam a capital do país.

Em 6 de dezembro de 1914, Villa e Zapata ocupam o Zócalo, a praça central da Cidade do México. Do ponto de vista político, era o momento culminante da Revolução. Mas havia uma séria contradição. A burguesia havia sido derrotada no campo, mas não na cidade.

Embora villistas e zapatistas recebessem a simpatia popular, outros os atacavam. Os operários também viam Zapata com simpatia, mas participavam individualmente (…).

Após a marcha, Villa e Zapata sentaram-se na cadeira presidencial. A seu lado, Otilio Montaño, Rodolfo Fierro e Tomás Urbina. ‘Este rancho é muito grande ‘prá’ nós’, teria dito Villa a Zapata quando se encontraram em Xochimilco. Então, regressaram a seus povoados; o México parecia-lhes um pequeno povoado. Villa e Zapata eram camponeses. Sua visão camponesa era local. Não se podia pedir a eles que atuassem como proletários ou marxistas. Por isso é que, em vez de perseguir Carranza e aniquilá-lo, Villa decidiu regressar ao norte e Zapata ao sul. Careciam de um projeto político de alcance nacional.

Nesse momento, Zapata tinha a bandeira política expressa no Plano de Ayala. Villa ocupava militarmente grande parte do território; tinha consigo outra importante bandeira. Havia consenso no campo ao lado de Villa e Zapata, mas não nas cidades. A classe operária não pode jogar seu papel, nem o entendeu.”(D. Bahen, publicado pelo site da Frente de Trabalhadores da Energia, 25 de junho de 2008).
 
Carranza reprime as lutas e coopta dirigentes operários e camponeses
 
Ao retornar à Capital, Carranza fará um pacto com dirigentes oportunistas do movimento operário. No calor da revolução, foi fundada a Casa do Operário Mundial (COM) na Cidade do México, na qual conviviam forças anarco-sindicalistas e um núcleo de intelectuais liberais e oportunistas, cuja máxima figura era um pintor conhecido sob o pseudônimo de Dr. Atl. A COM combateu o governo de Madero e o de Huerta, chamando à greve geral para terminar com o estado capitalista, refletindo a influência anarquista.

Mas, em troca do direito de organizar os trabalhadores em sindicatos sob sua direção, os dirigentes encabeçados pelo Dr. Atl impõem dentro da COM o acordo com o governo de Carranza. Este inclui o compromisso de criar os chamados Batalhões Vermelhos, nos quais se alistam sete mil homens, que combaterão ao lado das tropas de Carranza e Obregón contra Zapata e Villa.

Ao longo de 1915, ocorrerá uma sucessão de derrotas de Villa no norte (em El Ébano, San Luis Potosí, em Celaya etc.) pelas tropas de Obregón e de outro oficial carranzista, Plutarco Elías Calles. Em março de 1916, como represália ao apoio dos Estados Unidos às forças de Carranza, as tropas de Villa invadem a cidade norte-americana de Columbus, no Novo México. Imediatamente é expulso dali e tropas norte-americanas unem-se às de Obregón contra as forças villistas. Villa conseguirá refúgio entre os camponeses de Chihuahua e, de fato, retira-se da luta.

Em uma monografia, Edilia Ramirez, especialista em assuntos trabalhistas, narra a principal luta operária contra o governo de Carranza, encabeçada pelo sindicato de eletricistas, contra a condução oportunista da COM:

“No final de julho de 1916 os organismos agrupados na Federação de Sindicatos Operários do Distrito Federal exigiram dos patrões que seus salários fossem pagos em ouro e não em notas, e decidiram, em segredo, declarar greve geral, que também era dirigida contra o governo, considerado aliado da empresa. O movimento explodiu às 3 da manhã do dia 31, quando os eletricistas suspenderam os serviços de luz e força da cidade. O presidente Venustiano Carranza mandou chamar os 11 membros do comitê de greve ao palácio e os repreendeu severamente, sendo detidos na penitenciária. Também foi ordenada a ocupação militar da sede do Sindicato Mexicano de Eletricistas, a Casa do Operário Mundial, a União de empregados de Restaurantes, e os escritórios da Ação Mundial.
 
Em 1° de Agosto, o presidente Carranza decretou a ampliação da Lei de 25 de janeiro de 1862, castigando com a pena de morte os que incitassem à suspensão do trabalho nas fábricas ou empresas destinadas a prestar serviços públicos, os que, por esse motivo, destruíssem ou deteriorassem as propriedades dessas empresas, provocassem alvoroço, forçassem as pessoas ou as impedissem de executar seus trabalhos habituais.
 
Em 2 de Agosto, a greve terminou. No dia 13, o Conselho de Guerra reuniu-se para julgar os dirigentes, declarando-os culpados pelo delito de rebelião e devolvendo o assunto às autoridades do foro comum. Depois, um segundo conselho voltou a exonerar os acusados, exceto Ernesto Velasco, condenado à pena de morte. Isto suscitou protestos operários em todo o país. (Em:http://www.monografias.com/trabalhos12/lahuelmx/lahuelmx.shtml)
 
Um novo regime burguês é consolidado
 
Em 1º de dezembro de 1916, uma Convenção Constituinte convocada por Carranza inicia suas sessões. Em 5 de fevereiro de 1917, uma nova Constituição com numerosas reformas é promulgada, em que são feitas importantes concessões aos trabalhadores e camponeses, regulamentando os direitos trabalhistas (pagamento de salários em ouro, fixação da jornada de 8 horas e a eliminação das tiendas de raya1) e promovendo a reforma agrária.

Em 1º de maio, Carranza assume a presidência constitucional do México. A partir daí, seu governo implantará as reformas contidas na Constituição. Isto, somado às derrotas militares das forças da Convenção, vai fazendo a mobilização camponesa decair. Em 10 de abril de 1919, o assassinato de Zapata por agentes de Carranza, em Chinameca, deixa a rebelião de Morelos sem líder.

Em 1920, Obregón sucede Carranza no governo e continua com a aplicação da reforma agrária e a implementação das concessões ao movimento operário. Pancho Villa tenta voltar a atuar durante seu governo, mas é assassinado em 1923.

Obregón, por sua vez, é sucedido por Plutarco Elías Calles que, em março de 1929, funda o Partido Nacional Revolucionário, primeiro antecesor do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governaria por setenta anos, até 2000.

Os governos do PRI tinham a particularidade de apoiar-se na cooptação das organizações camponesas e do movimento operário, de modo muito similar ao que Carranza fez com os dirigentes liberais da Casa do Operário Mundial e, ao mesmo tempo, oscilava entre o acordo e os atritos com o imperialismo, especialmente com os Estados Unidos.

Lázaro Cárdenas, primeiro presidente mexicano eleito por um período de seis anos (1934-1940), é lembrado pela expropriação das empresas petrolíferas (18 de março de 1938) e pela nacionalização das ferrovias, bem como pelo aprofundamento da partilha de terras e a extensão da educação.

Conclusão
 
Carranza, Obregón, Calles, Cárdenas e todos os governos posteriores, apesar de aprofundarem mudanças políticas e sociais em muitos casos, incluindo a reforma agrária e a nacionalização do petróleo e das ferrovias, foram incapazes de resolver de forma definitiva os dois problemas fundamentais da revolução iniciada contra Porfírio Díaz: a submissão do país às potências imperialistas e seus monopólios e a miséria das grandes massas operárias e camponesas do país.

Sobre este último aspecto, Arturo Warman, antropólogo e secretário da Reforma Agrária do México no governo de Ernesto Zedillo, no período 1995-1998, escreveu:

“A reforma agrária mexicana teve sua origem em uma revolução popular de grande envergadura e desenvolveu-se nos tempos da guerra civil. Ao longo de um extenso período, foram entregues aos camponeses mais de 100 milhões de hectares de terras, equivalentes à metade do território do México e a cerca de dois terços das propriedades rurais do país, onde se estabeleceram cerca de 30 mil ‘ejidos’(propriedade rural de uso coletivo) e comunidades que compreenderam mais de 3 milhões de chefes de família. No entanto, a reforma não conseguiu o bem-estar pretendido e os camponeses beneficiados vivem hoje em uma pobreza extrema.” (A reforma agrária mexicana: uma visão de longo prazo, 2002).

O mesmo pode ser dito das outras grandes reformas adotadas pelos governos burgueses mexicanos, como no caso da nacionalização das ferrovias e do petróleo sob Cárdenas. Nada disso permitiu conquistar a independência definitiva em relação ao imperialismo nem terminar com a miséria das massas.

Isto confirma, pela negativa, a perspectiva fixada por Trotsky para a revolução nos países coloniais e o verdadeiro caminho para continuar o legado da Revolução Mexicana iniciada em 1910 e de seus líderes, Villa e Zapata. A Revolução vive na rebeldia dos trabalhadores, dos camponeses e do povo mexicano. Essa rebeldia viva só pode encontrar seu triunfo definitivo superando as limitações dos grandes chefes camponeses revolucionários Villa e Zapata. E avançando até a destruição do Estado capitalista semicolonial e a conquista do poder pelas massas camponesas e populares, encabeçadas pela classe operária.

1. A “tienda de raya(Armazém de risco) era um estabelecimento de crédito para o abastecimento básico, localizada perto das fábricas e fazendas, onde os operários e camponeses eram obrigados a realizar suas compras. No México eram conhecidas como “tiendas de raya” porque a grande maioria dos trabalhadores era analfabeta e no livro de registro de pagamento faziam um risco no lugar de sua assinatura.


Leia a primeira parte deste artigo: A Revolução Mexicana Vive