Estamos enfrentando novas ondas (alguns países já estão passando pela 5ª ou 6ª onda) de novos casos e novas mortes por COVID-19. Permanece a denúncia sobre quem é o responsável pelo que estamos vivenciando: “O sistema capitalista mundial e seus governos são responsáveis ​​por essa pandemia e seu impacto.

Por: PCT – El Salvador

Em primeiro lugar, porque a superexploração dos recursos naturais além de seus limites criou as condições para o surgimento crescente de pandemias por zoonoses, como é o caso da covid-19. Porque conscientemente atrasou, por anos, o desenvolvimento de vacinas contra vírus desse tipo porque não eram rentáveis, apesar dos alertas de especialistas. É assim porque, uma vez desencadeada esta pandemia, deparou-se com sistemas públicos de saúde deteriorados há décadas e com investigação e desenvolvimento tecnológico farmacológico e medicinal dominados pelo lucro de empresas privadas, e daí deriva uma profunda desigualdade global de acesso às vacinas e recursos técnicos necessários. É também porque mesmo quando tentou combater a pandemia, com medidas restritivas parciais, o fez com o objetivo principal de recuperar rapidamente os níveis habituais de exploração dos trabalhadores e promoveu a política repugnante e criminosa do “novo normal”. [1]

Não podemos deixar de lado o fato de que se continuamos enfrentando doenças e mortes é porque não há acesso equitativo a vacinas e tratamentos e porque o capitalismo e seus governos só se preocupam em manter em funcionamento fábricas, negócios, troca de mercadorias e indústria de entretenimento e turismo. . Só assim podemos compreender como a Organização Mundial de Saúde apela ao relaxamento das medidas de contenção tanto nas fronteiras (aeroportos e portos marítimos) como no dia-a-dia e também renuncia ao seu papel de exigir a proteção da vida humana. Continuamos a ouvir apelos para ser mais flexíveis nas restrições e que não é possível voltar às restrições no início da pandemia e há um esforço notável para normalizar as mortes pelo vírus. Tudo isso aproveitando o cansaço e os efeitos emocionais que todos enfrentamos em decorrência da pandemia. Mas há também um esforço óbvio para continuar dividindo nossa classe. Hoje querem nos dividir em “vacinados e não vacinados”. E querem culpar os não vacinados pela situação atual. Embora seja verdade que existem grupos (especialmente da extrema direita) que agem com total consciência e organização e se opõem a tudo com a desculpa dos direitos individuais, também é verdade que esta situação é aproveitada pela burguesia que já implementa políticas em suas empresas em que a licença médica por covid-19 de um trabalhador não vacinado não é remunerada. O objetivo é nos dividir e culpar uns aos outros para que não vejamos o verdadeiro culpado.

El Salvador se gabou por muito tempo de ser um país pioneiro no manejo da pandemia. Disso, só restou o discurso do governo e de seus vassalos. A verdade é que a pandemia serviu para a corrupção em muitos dos membros do governo. Embora seja verdade que há um número significativo de vacinas à disposição da população, também é verdade que o acesso a elas continua sendo difícil para muitos, pois um número significativo dos que ainda não foram vacinados vive em regiões remotas e de difícil acesso onde é difícil manter a temperatura necessária, especialmente para vacinas de RNAm. Além disso, a dose de reforço foi priorizada quando ainda havia setores importantes que ainda não haviam recebido a primeira dose. As duas medidas que vieram para transbordar a situação foram: o estabelecimento do turismo vacinal (a vacinação para estrangeiros foi aberta como método para atrair turistas) e a eliminação das restrições à entrada nas fronteiras do país justamente quando os casos produzidos pela Ômicron começaram a aumentar no mundo (como uma atração para os concidadãos que vivem fora do país para virem passar as férias).

Em El Salvador, como em todo o mundo, há uma enorme subnotificação de casos, apesar do que ficou evidente que pouco antes das festas de final de ano, os casos começaram a aumentar de forma constante, já na primeira semana do ano novo uma multiplicação de 700% dos novos casos. Hoje, essa multiplicação desenvolveu muito mais, mas não há dados confiáveis ​​porque o governo não divulga os números.

Ainda hoje há empresários e personalidades ligados aos tomadores de decisão que nos querem convencer de que esta mutação vai acabar com a pandemia e mesmo aqueles que dizem que é melhor adoecer hoje porque o quadro clínico é menos intenso do que as variantes anteriores. O pior é que essa pseudoanálise  é o que orienta as ações em suas empresas evitando medidas de prevenção para seus colaboradores. Eles não se importam se morrerem, porque amanhã serão substituídos por outros, mas ninguém os substituirá em sua família e em sua comunidade.

Temos visto enormes filas para optar por um teste que confirme ou descarte que quem esteve lá sofre de covid-19. Mas não apenas nos poucos testes oferecidos pelo Estado, mas também em laboratórios privados que estão lotados e que “han hecho su agosto” (expressão usada para significar que eles obtiveram lucros e benefícios de uma determinada situação) nos dias de hoje.

Somado ao luto e à dor de muitos, encontramos centenas e milhares que perderam seus empregos ou sua renda por doença sem que o governo demonstrasse um pouco de simpatia por todos esses casos. Chegou ao ponto de não mandar para casa para descansar com licença remunerada, um grande número de pessoas que, apesar de terem exames laboratoriais que confirmam seu diagnóstico, são deixados em seus empregos, infectando outras pessoas e impedindo uma recuperação efetiva. Nos últimos dias, também vimos como o primeiro nível de assistência à saúde no país entrou em colapso. E diferentes organizações pediram ajuda diante de uma população de trabalhadores da saúde exaustos, insuficientes, mal pagos e explorados. São todas realidades às quais a burguesia e o governo fecham os olhos, ignorando-as.

Somada a toda essa precariedade, a inflação galopante atinge ainda mais o bolso precário do salvadorenho. Coisas tão básicas como o queijo triplicaram de preço e a resposta do governo, como sempre, é levantar cortinas publicitárias que tentam encobrir e negar a verdade com a qual convivemos diariamente.

“A política de naturalizar as mortes e de normalizar a doença é um ato criminoso contra os trabalhadores e pobres do mundo. A desigualdade das campanhas globais de vacinação e a crescente reabertura das atividades econômicas derivam na persistência da pandemia e no surgimento de novas cepas, mais contagiosas e perigosas. O custo em vidas e sofrimento sempre recai sobre a classe trabalhadora e as massas do mundo. Não podemos aceitar isso! Não podemos aceitar que o desastre produzido pelo capitalismo e seus governos caia sobre nossos ombros!” [1] Acreditamos que chegou a hora da classe trabalhadora fazer sentir seu peso e sua voz ser ouvida e é por isso que há medidas urgentes que precisamos reivindicar:

  1. Vacinação em massa e gratuita para todos até os últimos rincões esquecidos. Enquanto a vacinação não for equitativa, novas cepas continuarão a aparecer e cada vez mais violentas.
  2. Ruptura dos direitos de patente da vacina. Para que não prive o interesse privado do lucro, mas o interesse comum da saúde do nosso povo.
  3. Defesa dos sistemas públicos de saúde e necessidade de grandes investimentos neles. Só um sistema de saúde pública forte pode combater melhor as consequências sanitárias da pandemia, pelo que não podemos privilegiar sistemas de saúde privados aos que só têm acesso quem pode pagar.
  4. Expropriação dos grandes conglomerados de produção de vacinas e tecnologia médica para a elaboração de um plano solidário internacional de combate à pandemia, controlado pelos trabalhadores (especialmente os especializados).

A Plataforma da Classe Trabalhadora em El Salvador diz:

CHEGA DE COLOCAR O PESO DA PANDEMIA EM NOSSOS OMBROS

MEDIDAS PARA PARAR O AVANÇO DAS INFECÇÕES AGORA

ACESSO À SAÚDE GRATUITA E DE QUALIDADE PARA TODOS

[1] https://litci.org/pt/nao-ha-um-novo-normal-chega-de-naturalizar-a-morte/