Em vários países imperialistas, com base em uma alta porcentagem de população vacinada, autoridades nacionais ou regionais e os meios de comunicação anunciam “o fim da pandemia”. Em países com um ritmo mais lento de vacinação, os governos transmitem a ideia de que “se vê a luz no fim do túnel”. Estas afirmações são verdadeiras?

Por: Alejandro Iturbe

Por exemplo, nos EUA, o governador de Nova York, Andrew Cuomo anunciou a suspensão das últimas restrições vigentes (como o uso obrigatório das máscaras) e declarou: “Já podemos voltar à vida que conhecemos”[1]. Um jornal do Estado espanhol tem como manchete: “Hoje é um dia com boas notícias. A partir de amanhã começaremos a dispensar a máscara”[2].

O torneio de futebol Euro 2020 está sendo disputado em diversos estádios, em vários países, com presença do público. De Israel, viralizou um vídeo que mostra a comemoração dos alunos de uma escola secundária ao serem autorizados a tirar as máscaras em sala de aula, depois de realizar uma contagem regressiva[3].

Então, novamente perguntamos se é verdade que, ao menos nestes países, está ocorrendo o fim da pandemia de Covid-19. Afirmamos que isto é uma grande falsificação: este flagelo e suas sequelas estão longe de terminar. Para entender esta afirmação é necessário partir do próprio conceito de pandemia dado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como “uma doença epidêmica que se estende a muitos países e vários continentes”.

Isto significa que embora nos países imperialistas, graças à vacinação massiva que foi garantida a expensas dos países pobres e dependentes, as curvas de contágios e mortes estão caindo; no conjunto do mundo, pelo contrário, crescem. Vejamos alguns dados.

A Índia

Um dos casos é o da Índia, o segundo país mais populoso do mundo, com quase 1,4 bilhão de habitantes, onde acontece uma “segunda onda” muito forte com um salto de 9.000 a 40.000 contágios por dia e uma multiplicação por quatro do número de falecimentos. Os números oficiais falam de um acumulado de 380.000 vítimas fatais, das quais mais da metade morreram nos últimos meses. Entretanto, o New York Times, em sua edição de 25 de maio de 2021, considera que o número real de mortos no país como resultado da Covid-19 superaria os 4.000.000[4].

Tal como está colocado na declaração da LIT-QI recentemente publicada neste site, na Índia se concentram de modo agudíssimo as contradições atuais do capitalismo imperialista em um país colonizado[5]. O país é a “farmácia do mundo”, o maior produtor de vacinas do planeta. Isto significa que, por um lado, pode dispor livremente daquelas vacinas cujo período de direito de patente já venceu; porém, por outro lado, para usar aquelas onde esse direito está vigente, o país deve pagar altíssimos royalties, apesar de produzi-las massivamente. É o caso da vacina contra a Covid-19 da AstraZeneca cuja principal fábrica mundial está na Índia.

O governo indiano pediu em diversos organismos internacionais a ruptura transitória desse direito de patente para poder utilizá-las com sua população sem ter que pagar a “peso de ouro”. Seus pedidos, até agora, foram infrutíferos e o governo do primeiro ministro Narendra Modi, com a clássica covardia e servilismo das burguesias dos países colonizados, não se animou a avançar em rompê-lo por sua própria conta.

O resultado foi um ritmo muito lento de vacinação e a explosão dessa segunda onda. O que, no marco do débil sistema de saúde pública do país e da carência de serviços sanitários básicos para grandes setores da população, deu origem a cenas terríveis: crematórios improvisados em estacionamentos e cadáveres boiando no rio Ganges.

O resto do mundo

Se observarmos outras regiões do mundo, já faz dois meses que a mídia informa que na América Latina está ocorrendo uma “terceira onda” [6]. Um dos epicentros é o Brasil, o país mais populoso da região, com uma média de 70.000 contágios e 2.000 mortes por dia. Com esses dados, o epidemiologista Pedro Hallal define uma situação de “transbordamento” que se estende para além das fronteiras do país, e conclui que “o Brasil está se convertendo em uma ameaça para a saúde pública global»[7].

Enquanto isso, a OMS advertiu recentemente que “a terceira onda da pandemia se estende e acelera na África, com curvas de ascenso em todo o continente e com níveis sem precedentes” em países como a República Democrática do Congo, Namíbia e Uganda[8].

Em suma, a pandemia da Covid-19, considerada no conjunto do mundo, longe de ter terminado ou de aproximar-se de seu final, continua com novas ondas muito potentes naqueles países que têm um ritmo muito lento de vacinação ou a mesma praticamente inexiste.

Nesse contexto, em vários desses países, como resultado das mutações genéticas, surgem novas cepas do vírus. Algumas delas são de contágio mais rápido e de periculosidade ainda maior que o coronavírus de 2020, porque provocam mais danos pulmonares e se mostram muito resistentes aos tratamentos que têm sido experimentados: por isso, seu índice de mortalidade é mais alto. É o caso da variante denominada Delta plus, surgida (ou pelo menos identificada) na Índia e que já começa a ser detectada em outros países. Inclusive, não se sabe com certeza se as vacinas desenvolvidas até agora serão eficazes contra estas novas variantes[9].

Com esta realidade de fundo, falar de “fim da pandemia” ou da proximidade de seu fim é uma falsificação do capitalismo imperialista para expandir e consolidar a “nova normalidade” que recupere plenamente seu funcionamento econômico, a exploração dos trabalhadores e a obtenção de lucros. Expressa também o desprezo das burguesias imperialistas pela vida dos povos do resto do mundo.

E, além disso, também é uma política negacionista e suicida já que, na atual dinâmica de transporte de mercadorias e de viagens de pessoas pelo mundo, é inevitável que estas novas cepas voltem como um bumerangue e entrem nos próprios países imperialistas. Basta considerar, por exemplo, que nos EUA vivem 10 milhões de imigrantes da Índia e na Grã Bretanha 1,5 milhão, uma parte dos quais viaja para seu país de origem para ver suas famílias ou são visitados por elas, apesar das restrições vigentes.

As sequelas da Covid-19

Inclusive, se fosse verdade que, mais rápida ou mais lentamente, o mundo se encaminha para o fim da pandemia, ficaria como saldo um grande problema para a ciência médica: as sequelas que a doença deixa, uma vez superado o período de reprodução do vírus no corpo humano.

É um campo que a medicina apenas começa a descobrir e que agora, a raiz de milhões de contagiados e “curados”, começa a se manifestar. Um site de medicina se refere a manifestações ou sequelas persistentes depois de passada a infecção, com sintomas graves, ou de forma assintomática. É o que se conhece como covid persistente, uma realidade cada vez mais presente à medida que a pandemia avança”[10].

Esta mesma página descreve não menos que 50 dessas sequelas que afetam, entre outros, o sistema respiratório, o cardiovascular e o digestivo, assim como sequelas neurológicas e hematológicas (trombose). Tudo isso, sem considerar as sequelas psicológicas nos pacientes que sofreram a doença e, inclusive, no conjunto da sociedade.

Uma das manifestações posteriores é o aparecimento de casos de mucormicose (ou “fungo negro”), uma doença bastante rara, mas com um índice de mortalidade de 50%. Na Índia, são relatados 12.000 casos, porém já foram identificados outros em, pelo menos, 38 países, entre eles o Brasil e Uruguai. Os médicos suspeitam que este crescimento de infecções por fungo negro está relacionado com sequelas da Covid-19 associadas a um quadro prévio de diabetes[11].

Tal como dissemos, as sequelas da Covid-19 são um campo que a medicina apenas começa a estudar. É um problema que, para enfrentá-lo, seria necessário não apenas um acompanhamento por todo um período daqueles que padeceram da doença, mas também do desenvolvimento de pesquisas em tratamentos médicos e farmacológicos, ou seja, de investimentos para ambos os casos.

Porém tal como a própria pandemia está demonstrando, o capitalismo imperialista só está disposto a realizá-las se puderem ser transformadas em negócios para as empresas privadas porque não lhes interessa a saúde pública dos trabalhadores e das massas como tal. Se não se lutar por isso, a maioria da população mundial será novamente largada à sua própria sorte.

Por isso, é necessário continuar a demanda pela ruptura do direito de patente das vacinas, a exigência de uma rápida vacinação massiva, a planificação das novas doses de reforço que sejam necessárias, incluindo a pesquisa de vacinas que sejam eficazes contra as novas variantes que estão aparecendo, o atendimento permanente e gratuito de todas as sequelas da Covid-19, etc.

Tudo isso, exige a defesa e o fortalecimento dos sistemas de saúde pública, com o financiamento necessário, e a centralização nas mãos do Estado de todos os recursos médicos e farmacológicos. A massiva greve geral do ano passado na Índia, a recente rebelião do povo paraguaio e a luta atual na Colômbia, entre outros processos, mostram que os trabalhadores e as massas estão dispostos a lutar.

Uma saída de fundo para uma época de guerras, revoluções… e pandemias

Inclusive se deixarmos de lado a persistência da pandemia de Covid-19 e de suas sequelas diretas e indiretas, o problema para a Humanidade não termina. O capitalismo imperialista criou as condições para termos entrado no que podemos denominar uma “época de pandemias”, tal como coloca a declaração da LIT-QI já citada.

É o que vem denunciando há anos o epidemiologista Rob Wallace[12]. De modo oficial, já em 2004 a OMS advertia o crescente perigo de doenças animais que podem infectar seres humanos: «Uma das conclusões é que as doenças animais que podem ser transmitidas para pessoas, estão surgindo como uma grave ameaça regional e mundial, cuja magnitude é muito provável que aumente»[13]. Mais recentemente, a OMS expressou que “este perigo continuará aumentando inexoravelmente” e estimou que “a cada ano ocorrem cerca de um bilhão de casos de doenças e milhões de mortes por zoonoses”[14].

Sabemos que estamos apresentando um panorama desolador e deprimente sobre o presente e o futuro do mundo. Não é nossa culpa; nos limitamos a mostrar a realidade do capitalismo imperialista que não apenas condena a maioria da humanidade a um declínio constante de seu nível de vida, ao crescimento cada vez maior da pobreza e da miséria, mas que em sua voracidade de lucros, também destrói a natureza e com ela a saúde dos trabalhadores e das massas. Sob o capitalismo, a mais cética das literaturas distópicas parece tornar-se realidade.

Porém não ficamos como meros observadores passivos deste presente ou como meros prognosticadores de um futuro desolador. Apresentamos, também, propostas de fundo para lutar pelas necessidades muito mais profundas da Humanidade, como as que apresentamos na recente declaração da LIT-QI. Nenhuma delas será possível enquanto subsistir o capitalismo imperialista que, como está absolutamente evidente, não pode ser reformado ou “melhorado”.

É necessária uma mudança radical da sociedade e dos critérios de produção e funcionamento que o capitalismo imperialista tem hoje. Por isso, as lutas presentes e futuras dos trabalhadores e das massas devem ser um passo no caminho da luta pelo poder e por uma revolução operária e socialista que mude de vez este presente desolador. O que está em jogo já não é só esta ou aquela conquista, mas a própria sobrevivência da Humanidade.

Notas:

[1] https://www.infobae.com/america/eeuu/2021/06/17/nueva-york-sin-barbijos-ni-protocolos-el-dia-despues-del-levantamiento-de-las-restricciones-por-covid-19/

[2] Edição digital de La Vanguardia, 25/6/2021.

[3] Israel https://www.lavoz.com.ar/mundo/israel-el-festejo-de-un-grupo-de-alumnos-cuando-se-enteraron-ya-no-tenian-que-usar-barbijos-en-el-aula/

[4] Sobre a situação no país, recomendamos ler o artigo publicado neste site: https://litci.org/pt/64247-2/

[5] https://litci.org/pt/64291-2/

[6] https://www.france24.com/es/video/20210415-am%C3%A9rica-latina-vive-la-tercera-ola-del-covid-19-en-medio-de-la-crisis-social

[7] https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-56369474

[8] https://www.semana.com/mundo/articulo/la-tercera-ola-del-coronavirus-se-extiende-y-acelera-por-africa-advierte-la-oms/202103/

[9] https://www.bbc.com/mundo/noticias-57581280

[10] https://www.diariomedico.com/investigacion/50-secuelas-de-la-covid.html

[11] https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-57376680

[12] Wallace, Rob. Dead epidemologists, on the origines of Covid-19, MONTHLY REVIEW PRESS, NEW YORK, 2020.

[13] https://www.bbc.com/mundo/noticias-51962135

[14] Idem.

Tradução: Lilian enck