O Opinião Socialista [jornal do PSTU]  conversou com imigrantes haitianos em São Paulo. Confira.

Tarde chuvosa e fria em São Paulo. Ao lado de Fedo Bakuti, 38, coordenador da União Social dos Imigrantes Haitianos (USIH), associação filiada a CSP-Conlutas, me dirijo para o abrigo onde estão centenas de imigrantes haitianos que chegam diariamente à capital paulista.

No trajeto, Fedo explica que trabalha na construção civil e que veio para o Brasil em 2013. “A maioria das pessoas que vieram pra cá foi depois do terremoto”. O terremoto no Haiti aconteceu em 2010 e foi catastrófico para o país. Provocou mais de 300 mil mortes, devastou casas e a pouca infraestrutura que havia no país. Mais de 1,5 milhões de pessoas ficou sem abrigo.

Chego ao pátio do abrigo onde muitos haitianos se viram debaixo de marquises para se abrigarem da chuva. Ao lado há a igreja Nossa Senhora da Paz. Logo começo a conversar com os imigrantes. Muitos explicam que trabalhavam com publicidade, são advogados ou formados em outros cursos universitários. “O Brasil poderia aproveitar melhor nossa qualificação. Eu, por exemplo, tenho duas faculdades e falo sete línguas”, explica Fedo.

Contudo, a realidade ao chegar ao Brasil é extremamente dura. “As pessoas que chegaram aqui gastaram muito dinheiro pra vir. É difícil achar algumas pessoas que vieram pelo Acre que gastaram menos de US$ 3 mil dólares. Chega no Acre sem dinheiro, sem roupa, sem nada”, explica Fedo.

Desconfiança e solidariedade

Sou apresentado ao jovem Bernardo Frank, também membro USIH. Falo que sou jornalista e ele não disfarça certa desconfiança. Diz que muitos jornalistas da grande imprensa passaram por lá e publicaram matérias absolutamente superficiais ou que apenas reforçam estereótipos e disseminam preconceitos. Explico que escrevo para um jornal comprometido com a luta social e popular sem saber ao certo se isso surtiu algum efeito.

De qualquer modo, Bernardo conta um pouco de sua história. Formando em direito no Haiti, o jovem conta que entrou no Brasil através do Acre e que trabalhou como auxiliar de mecânico em Manaus (AM). Quando chegou a São Paulo, ficou sete meses sem emprego, até que arrumou trabalho como atendente num supermercado. Com uma pasta na mão, Bernardo mostra seu diploma de advogado e inúmeros outros certificados de cursos técnicos, como de auxiliar de escritório, que cursou para tentar arrumar algum serviço.

De repente surge Ronaldo, que também veio para o Brasil pelo Acre. A viagem de cinco dias de ônibus até São Paulo é resumida em três palavras: “ foi muito difícil”. Muitos chegam aqui apenas com a roupa do corpo e sem dinheiro. “A União surgiu pra ajudar os imigrantes haitianos que, muitas vezes, chegam ao Brasil e se deparam com a fome, o frio e dormem na rua”, explica Fedo.

Racismo e preconceito

Mas os problemas não terminam por aí. Ao chegar no Brasil a desilusão é forte. Além da dificuldade em arrumar emprego, os haitianos se deparam com outro problema. “Tem um preconceito muito forte aqui. Primeiro é com a cor das pessoas, com o estudo e com problemas de comunicação que a gente tem. Às vezes, o problema é com seus colegas de trabalho mesmo. Mas no metrô e nos ônibus as pessoas ficam olhando. O negro é tratado com um ladrão, mesmo que não seja”, explica Fedo. A realidade desfaz qualquer mito de que o Brasil é um país acolhedor.

Volto a falar com Bernardo. Enquanto ele narra um pouco mais de sua história, vejo vários grupos de haitianos olhando para a portão do pátio do abrigo. Percebo uma repórter de uma grande emissora na entrada. A equipe sequer entrou no abrigo, apenas fizeram mais uma tomada para exibirem em horário nobre.

Como os imigrantes chegam ao Brasil

A maioria dos haitianos chega ao Brasil pelo Acre. A estimativa da União Social dos Imigrantes Haitianos é que existam mais de 50 mil pessoas que vieram da ilha caribenha para cá. Em janeiro de 2013, estive em Brasileia (AC), a principal porta de entrada para o Brasil. Falei com imigrantes recém chegados que estavam tomando banho em bacias no meio da rua. Disseram que o alojamento estava superlotado, pois havia mais de 400 pessoas numa casa em que cabiam, no máximo, 40.

Em São Paulo, o grande fluxo de imigrantes começou em abril e maio de 2014, quando o governo do Acre fretou ônibus pra enviar os imigrantes até a capital paulista. “Na época, aqui nós acolhemos 300 pessoas no salão, além de 110 na casa do Migrante. Mas em fevereiro e março deste ano tivemos um pico onde chegava um ônibus por dia do Acre”, explicou Padre Paulo, da Missão Paz, que auxilia os imigrantes que chegam à cidade.

As mulheres formam um grupo menor de imigrantes. Segundo o cálculo da Missão Paz, de cada dez haitianos, uma é mulher. “Muitas vêm se encontrar com o companheiro que já está aqui. Outras vêm sozinhas para tentar achar trabalho”, explica o padre.

Coiotes

A maioria sai do Haiti pagando grandes quantias aos chamados coiotes. São os aliciadores que ficam rondando o consulado brasileiro lá no Haiti. “Nas filas de espera, essas pessoas chegam perto e dizem: ‘olha você vai ter que esperar um ano e meio ou dois pra ter o visto. Eu te faço entrar no Brasil em 18 dias. Você me dá 4 ou 5 mil dólares,  e eu te faço entrar’”, explicou padre Paulo.

O padre conta que, hoje, um determinado coiote leva os imigrantes até um país vizinho, como o Peru, e entrega para um outro coiote que cobra do haitiano mais dinheiro pelo seu ingresso no Brasil. É aí que acontecem muitos episódios de extorsões e chantagens.“Lembro de um imigrante que foi para o Peru e foi trancado por dias porque não tinha o dinheiro para pagar o coiote”, explica padre Paulo. “Deixaram esse migrante em cárcere privado até que a família enviasse o dinheiro lá do Haiti pra ele poder prosseguir a viagem”, diz.

Fedo conta que essa situação é muito comum. “Essas pessoas não têm dinheiro pra nada, nem pra pagar um visto. Tem de apelar aos familiares no Haiti pra que enviem mais dinheiro e, assim, pegar um ônibus até o Acre”, afirma.

As mulheres também são as vítimas das ações repugnantes dos coiotes. “Teve uma mulher que eles tiraram toda a roupa dela. Deixaram ela nua pra ver se tinha dinheiro nas roupas. Essa é uma situação terrível que esses caras impõem aos haitianos”, conta padre Paulo.

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MIGRAÇÃO NO CAPITALISMO

É muito comum ouvir na imprensa analistas falando que o trabalhador é livre para se deslocar. Assim, a migração é entendida como algo que alguém faz pra realizar seus anseios e sonhos individuais. Mas a história não é bem assim. A força de trabalho dos migrantes é tratada como uma mercadoria que deve ser investida onde o lucro pode ser satisfatório aos grandes capitalistas. Por isso, na maioria das vezes os migrantes assumem os postos de trabalho mais precários e menos remunerados.

Ao longo de sua história, o sistema capitalista impôs um ritmo crescente no que se refere ao movimento de seres humanos, matérias primas, informação e dinheiro. Com o surgimento da chamada globalização capitalista houve uma intensificação brutal dessa mobilidade.

Assim, os imigrantes tornaram-se componentes importantes da classe trabalhadora de países da Europa, EUA e, agora, também no Brasil. Para assegurar que essa mão de obra continue barata e dispensável, a burguesia não aceita uma verdadeira integração dos imigrantes para que não tenham os mesmos direitos dos trabalhadores nativos. Por isso, os mantém na ilegalidade ou semi-legalidade.

A burguesia também utiliza os ataques aos imigrantes para dividir os trabalhadores. Para isso, estabelece leis cada vez mais repressivas em relação aos imigrantes. Em tempos de crise, fazem o discurso de que os imigrantes roubam os empregos dos trabalhadores nativos.

BRASIL PRECISA RETIRAR AS TROPAS DO HAITI

O Brasil tem um grande motivo pra se envergonhar perante os haitianos. Desde 2004, o governo do PT enviou o Exército brasileiro para chefiar uma ocupação militar vergonhosa no Haiti, sob a desculpa de ser “uma missão de paz”. Em todos estes anos a ocupação só serviu aos interesses dos grandes empresários. Soldados brasileiros já reprimiram greves e passeatas de operários e estudantes. Também foram alvo de denúncias de violação e abuso dos direitos humanos por parte de inúmeras entidades humanitárias. Em todo esse período a CSP-Conlutas realizou caravanas e campanhas em solidariedade ao povo haitiano, exigindo o fim da ocupação militar. E agora com a imigração, é obrigação do governogarantir condições dignas de vida a esse povo tão sofrido, fornecendo toda infraestrutura necessária para eles sobreviverem dignamente, como abrigos para sua moradia. Além de acompanhar todas as contratações e fiscalizar as possíveis irregularidades que o povo haitiano está exposto pela exploração do empresariado que contratam essa mão de obra, em trabalhos muitas vezes altamente precarizado.