Ao completar 80 anos de seu assassinato, a figura do revolucionário russo Leon Trotsky e seu legado político são cada vez mais valorizados, especialmente sua luta contra a burocratização stalinista da ex-União Soviética (URSS) e contra o crescimento do fascismo na Europa.

Por: Alejandro Iturbe

A burocracia stalinista realizou uma verdadeira “demonização” de Trotsky para dissimular uma perseguição que incluiu seu exílio e posterior assassinato no México. Este foi o auge de uma perseguição intensiva aos trotskistas na URSS, que envolveu prisão, trabalho forçado nas minas da Sibéria e muitos assassinatos. Também foi realizado contra militantes e dirigentes de outros países, desde a expulsão dos partidos comunistas stalinizados, até as denúncias à polícia e os assassinatos, como foi o caso do filho de Trotsky, León Sedov, e de seu secretário Rudolf Klement. A “demonização” não acabou com o assassinato de Trotsky, mas continuou por várias décadas.

Nessas condições muito difíceis, quando a Quarta Internacional foi fundada, enquanto Trotsky ainda estava vivo, menos de 6.000 militantes foram reconhecidos (além de um número não explicitado de “trotskistas clandestinos” na URSS), a maioria deles em pequenos grupos, com algumas exceções como o SWP (Socialist Workers Party, dos Estados Unidos) que contribuiu com a metade.

Uma crise do SWP no final dos anos de 1930, o assassinato de Trotsky, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e as perseguições do stalinismo e do fascismo reduziu esse número a 4.000 para o II Congresso Mundial da IV, sem referências sobre os “trotskistas da URSS”, a maioria dos quais provavelmente já havia morrido pela perseguição ou na guerra.

Depois da Segunda Guerra Mundial, tal como Trotsky tinha previsto, houve um grande ascenso de massas e novas revoluções. Porém o processo não foi capitalizado pelo trotskismo, mas foi liderado pelo stalinismo, que apareceu aos olhos das massas como o arquiteto da derrota do nazifascismo, e pelos movimentos nacionalistas burgueses.

Por isso, com algumas exceções de organizações que alcançaram grande influência, como o Partido Obrero Revolucionario (POR) na revolução boliviana de 1952 e o Lanka Sama Samaja Party (Sri Lanka), a IV e o trotskismo permaneceram sendo um movimento de pequenos grupos.

Algumas organizações, mesmo sendo pequenas, buscaram construir-se vinculadas à classe trabalhadora (como o Grupo Obrero Marxista (GOM) de Nahuel Moreno, na Argentina), enquanto outras se limitaram à sua vida interna ou a debates com outras organizações.

Essas condições se agravaram com a ruptura da Quarta Internacional em 1953, ruptura produzida pela política e pela metodologia interna aplicada pela direção pablista (por Michel Pablo, o dirigente grego que centralizava a organização). Desde então, não existe uma organização internacional unificada dos trotskistas. Para aprofundar sobre esse período, recomendamos a leitura da série dedicada à fundação da Quarta, publicada neste site em 2018 [1].

Abre-se um espaço para o trotskismo

Stalin morreu em 1953. Seu sucessor, Nikita Khruschov, no XX Congresso do PCUS falou dos “crimes de Stalin”, criticou o “culto à personalidade” e prometeu a abertura de um período pós-stalinista.

Apesar das expectativas que gerou na militância comunista, foi, na realidade, apenas uma mudança cosmética. As lutas dentro do aparato burocrático deixaram de ser resolvidas com prisões e execuções como no tempo de Stalin, mas a falta de democracia para os trabalhadores e as massas, a repressão aos dissidentes e o controle rígido dos países que estavam sob a órbita de influência da URSS, permaneceu intacta.

No entanto, foi um dos elementos que marcou uma virada no prestígio internacional do stalinismo. Soma-se a isso a repressão às lutas contra a burocracia em vários estados operários: a insurreição de Berlim Oriental (1953), a revolução na Hungria (1956) e a “primavera de Praga” na Tchecoslováquia (1968). Por fim, acrescenta-se o papel conservador e defensor do sistema que os partidos comunistas e os sindicatos dirigidos por Moscou desempenharam nos países capitalistas.

Tudo isso se concentraria no maio francês de 1968: um processo revolucionário nascido nos estudantes e posteriormente estendido aos trabalhadores das grandes indústrias. Enquanto o PC francês buscava desesperadamente pará-lo, ele era liderado por organizações e dirigentes de outras correntes de esquerda: anarquistas, trotskistas, guevaristas, maoístas, etc.

No quadro de um forte processo de ascensão internacional, o movimento trotskista foi abrindo espaços muito maiores na nova vanguarda que surgia. Várias organizações deram saltos importantes em sua construção e influência. Entre eles, a LCR francesa, o WRP inglês, o PST argentino e o SWP estadunidense. No Brasil, três organizações trotskistas diferentes chegaram a centenas de militantes cada.

Qual é o legado de Trotsky?

Ao longo de sua extensa trajetória, Trotsky fez numerosas contribuições ao marxismo, algumas das quais devem ser consideradas qualitativas.

Em primeiro lugar, devemos mencionar a concepção da revolução permanente que começou a elaborar em 1905 e que desenvolveria até sua formulação nos anos 1930. Contém uma análise muito aprofundada da combinação de tarefas que impulsionam a luta das massas e as revoluções, a dinâmica das classes sociais nesses processos, a necessidade da ditadura do proletariado para levar até o fim não só as tarefas socialistas, mas também as democráticas, e o caráter internacional da revolução.

Embora a formulação dos anos 1930 precise de algumas atualizações e correções, continua sendo a única teoria-programa que responde ao desenvolvimento da revolução internacional na época capitalista-imperialista. A partir das Teses de Abril de 1917, escritas por Lenin, os bolcheviques adotam essa concepção e depois a Terceira Internacional o faz em seus primeiros quatro congressos.

A burocratização stalinista trouxe consigo um profundo retrocesso teórico-político e programático. A concepção da revolução permanente e seus diferentes aspectos passaram a ser atacados: a revolução socialista internacional foi substituída pelo conceito de “construir o socialismo em um só país”; a luta contra a burguesia em nível nacional deu origem ao apelo à conciliação de classes e a acordos políticos permanentes com setores burgueses das chamadas frentes populares e, por conseguinte, à concepção de uma revolução dividida em etapas. Desde então, revolução permanente é sinônimo de trotskismo.

A revolução política

Outra contribuição qualitativa de Trotsky são as análises, definições e conclusões sobre a URSS burocratizada pelo stalinismo, contidas em seu livro A Revolução Traída (1937). A URSS não era um estado “capitalista” nem um estado “socialista”, mas sim uma transição entre ambos, com uma profunda contradição entre as bases socioeconômicas do estado operário e a superestrutura estatal burocratizada. Ele argumentou que essa totalidade era altamente instável e, a partir daí, elaborou seu famoso “prognóstico alternativo” sobre as possíveis dinâmicas: ou uma revolução política derrubaria a burocracia ou a burocracia restauraria o capitalismo [2].

A conclusão era que, para defender a URSS como um estado operário, a tarefa das massas soviéticas era realizar uma revolução política: isto é, derrubar o aparato burocrático stalinista e reconstruir os organismos de democracia operária, mas mantendo as novas bases socioeconômicas do estado operário. Podemos dizer que é com essa elaboração que o trotskismo nasceu como corrente própria dentro do marxismo, com pleno direito e necessidade de sua existência.

O prognóstico alternativo de Trotsky se demonstraria como uma genialidade (embora em sua possibilidade mais negativa): várias décadas depois, a burocracia soviética restaurou o capitalismo na URSS, e o processo também se repetiu na China, Cuba e demais ex-estados operários.

Hoje não existem mais estados operários burocratizados e se poderia concluir que a revolução política, como Trotsky a formulou, não é então uma tarefa para o presente. Acreditamos que em seu conteúdo profundo não é assim. Em artigo publicado em 1985, o trotskista argentino Nahuel Moreno estende essa tarefa a todas as organizações de trabalhadores que são parasitadas, deformadas e degeneradas pela burocracia, como os sindicatos. Com esta abordagem mais ampla (derrubar a burocracia e impor a democracia dos trabalhadores) a revolução política é uma tarefa mais presente do que nunca e também deve ser sinônimo de trotskismo.

O Programa de Transição…

Trotsky escreveu o Programa de Transição em 1938 para ser a base da fundação da Quarta Internacional. No primeiro capítulo do documento, ele faz uma definição restrita da época de “agonia” do capitalismo imperialista e a combinação de seus dois elementos centrais [3].

Por um lado, “as forças produtivas da humanidade pararam de crescer” e, portanto, o desenvolvimento econômico “há muito tempo atingiu o ponto mais alto que se poderia alcançar sob o capitalismo”. Essa realidade não é revertida por novas invenções e avanços técnicos, que não levam a uma melhoria no padrão de vida das massas. Ao mesmo tempo, é o marco de fundo dos ciclos econômicos e suas conjunturas. Essas são, para Trotsky, “as premissas objetivas da revolução socialista”, que não apenas “estão maduras, mas começaram a se decompor”.

Por outro lado, a atitude das massas (e suas lutas) “é determinada, por um lado, pelas condições objetivas do capitalismo decadente, e por outro, pelas políticas de traição das antigas organizações operárias. Destes dois fatores, o fator decisivo é, naturalmente, o primeiro; as leis da história são mais poderosas do que os aparatos burocráticos”.

No entanto, a política das direções burocráticas (essencialmente do stalinismo) levava as massas a derrotas constantes e nenhuma alternativa de direção revolucionária surgia a estas. O capitalismo alcançava assim uma sobrevida cada vez mais degradada, que se expressava tanto no surgimento do fascismo quanto na crise dos regimes democráticos burgueses e dos governos de frente popular. A conclusão de Trotsky é que “a crise da humanidade se reduz à direção revolucionária”.

… e seu método

Por isso, para Trotsky, “a tarefa estratégica do próximo período pré-revolucionário de agitação, propaganda e organização consiste em superar a contradição entre a madurez das condições objetivas da revolução e a falta de madurez do proletariado e de sua vanguarda”. Neste sentido, propõe ao proletariado mundial uma série de tarefas pelas quais se mobilizar e lutar; algumas são mínimas, outras democráticas e também aquelas de transição para o socialismo.

Mas para além da letra específica dessas tarefas, o Programa de Transição contém um método para a elaboração dessas consignas e sua combinação, e o objetivo estratégico a que essa luta deve conduzir. “É necessário ajudar as massas, no processo de luta, a encontrar a ponte entre suas reivindicações atuais e o programa da revolução socialista. Essa ponte deve consistir em um sistema de reivindicações transitórias, partindo das condições atuais e da consciência atual de amplas camadas da classe operária para uma única e mesma conclusão: a conquista do poder pelo proletariado”.

Em outras palavras, trotskismo é impulsionar a mobilização dos trabalhadores e das massas a partir de suas demandas concretas para que, nesse processo de mobilização, avancem em sua consciência (vão “cruzando a ponte”) para “a conquista do poder“. É nesse caminho que uma direção revolucionária pode ser construída e que uma organização verdadeiramente trotskista deve conquistar o direito de ser essa direção.

A luta contra o fascismo

Desde os anos 1920 (quando Benito Mussolini tomou o poder na Itália) até os anos da fundação da Quarta Internacional, o fascismo se espalhou pela Europa. Alemanha, Espanha, Portugal e outros países se somaram à Itália. Era o inimigo mais perigoso que o movimento operário e de massas enfrentava, diante do qual sofria severas derrotas. Trotsky qualificou esse movimento de “a última trincheira do capitalismo antes da revolução socialista”.

Por isso, dedicou numerosos escritos ao estudo e caracterização deste processo político e, essencialmente, da política e métodos para combatê-lo. Entre eles, os materiais compilados no livro A luta contra o fascismo [4].

Trotsky fez uma análise profunda das forças sociais por ele expressas, de sua ação política e de suas diferenças com outras variantes do bonapartismo e de ditaduras militares. Ao longo desses escritos, ele constrói uma definição precisa:

Em sua ascensão, o fascismo se apresenta como um movimento de massas “antissistema” e extraparlamentar. Essencialmente, das massas pequeno-burguesas desesperadas por seu declínio na crise capitalista, e também do lumpemproletariado, que se mobiliza e se militariza em gangues armadas para atacar e destruir as organizações operárias, mesmo as mais moderadas.

Uma vez no poder, “o fascismo é tudo menos um governo da pequena burguesia. Pelo contrário, é a ditadura mais desapiedada do capital monopolista”. Agora, “sob a cobertura do Estado oficial”, continua seu trabalho contrarrevolucionário.

Trotsky também propôs uma política clara para enfrentar o fascismo, tanto em sua ascensão quanto no poder. A primeira medida foi a formação de uma frente única entre as duas principais organizações operárias da época (a socialdemocracia e os partidos comunistas) para defender suas conquistas democráticas (sedes, sindicatos, jornais, etc.), suas reuniões e suas mobilizações contra os ataques fascistas. Nesse contexto, era necessário formar organizações de autodefesa: desde piquetes armados até milícias operárias de carácter mais permanente. A luta contra o fascismo deveria ocorrer essencialmente nas ruas [5].
De forma complementar, para promover a mobilização antifascista, propôs também a unidade de ação mais ampla, inclusive com setores da oposição burguesa: “na luta contra o diabo” (fascismo) se podia e deviam fazer “acordos práticos com a mãe do diabo” (os setores burgueses que lhe permitiram crescer, mas agora se opunham a ele) [6]. É que o fascismo também atacava ás instituições do regime democrático burguês (como o Parlamento) e os partidos burgueses “liberais” e “democráticos”.

As “frentes populares”

Ao formular essa orientação, Trotsky combateu duramente duas políticas diferentes (opostas, mas igualmente criminosas) que o stalinismo tinha e que ajudaram, de maneiras diferentes, ao triunfo do fascismo.

A primeira foi uma política ultra esquerdista (chamada de “Terceiro Período”) que qualificava o fascismo e a socialdemocracia como “irmãos gêmeos” e igualmente inimigos. Chamava à socialdemocracia de “social fascista” e, portanto, recusou-se a defender suas organizações dos ataques que sofriam, dividindo assim as forças operárias para esta luta. Na Alemanha, isso encorajou os nazistas e foi um dos fatores que contribuíram para a chegada de Hitler ao poder em 1933. Trotsky considerou essa política tão grave que definiu que a Terceira Internacional [stalinizada] havia morrido como uma organização revolucionária, rompeu com ela e começou o processo que levaria à construção da IV Internacional.

A segunda política surge de uma guinada profunda da Terceira a partir de 1934 e formulada pelo búlgaro Georgi Dimitrov: as “frentes populares” para enfrentar o fascismo. Agora, uma frente política permanente foi proposta entre os partidos comunistas e a socialdemocracia, mas essas frentes também incluíam os partidos burgueses.

Isso significava que o programa comum da frente era o de seu componente mais de direita, ou seja, um programa burguês, e os compromissos aceitos acabavam por travar a dinâmica natural das lutas da classe trabalhadora. Nesse sentido, as frentes populares se propunham essencialmente a “combater” o fascismo com métodos parlamentares e não por meio de mobilizações, organização e autodefesa dos trabalhadores.

Essa política acabaria sendo trágica na Espanha, onde a luta militar contra o regime de Franco acabou estrangulada por compromissos com a burguesia republicana e foi derrotada em 1939. E, anteriormente, na França, onde desviou a dinâmica revolucionária que gerava a greve geral de 1936 e a conduziu ao beco sem saída do parlamentarismo.

Trotsky também dedicou inúmeros escritos à análise das frentes populares e as combateu arduamente, considerando-as “a penúltima trincheira do capitalismo frente à revolução” [6]. Este combate é parte essencial do legado de Trotsky, bem como o que deve dar-se a qualquer apoio a governos de colaboração de classes (como os nacionalistas burgueses ou os agora chamados “progressistas”) [7].

Até o momento, tentamos fazer uma apresentação sintética sobre o principal legado teórico, programático e político de Leon Trotsky. Outro ponto central em sua trajetória poderia ser acrescentado: a necessidade de construir o partido revolucionário de acordo com a concepção e o modelo que foi desenvolvido por Lenin e os bolcheviques russos. Trotsky a adotou como sua a partir de 1917 para promovê-la e defendê-la até sua morte.

A moral revolucionária

Há um aspecto muito presente em Trotsky que é tão importante quanto suas elaborações, e mais ainda: sua defesa incondicional da necessidade da moral revolucionária. Isso implica na rejeição das duas formas em que a moral burguesa se manifesta: primeiro, a hipocrisia de “pregar” certas normas aos trabalhadores enquanto para a burguesia tudo é permitido; segundo, a premissa de que o fim justifica os meios.

Em seu escrito Sua moral e a nossa, Trotsky expressa que:

“A Quarta Internacional rejeita mágicos, charlatães e professores de moral. Em uma sociedade baseada na exploração, a moral suprema é a da revolução socialista. Bons são os métodos que elevam a consciência de classe dos trabalhadores, a confiança em sua força e seu espírito de sacrifício na luta. Inadmissíveis são os métodos que inspiram medo e docilidade dos oprimidos contra os opressores, que sufocam o espírito de rebeldia e protesto, ou que substituem a vontade das massas pela dos líderes, a persuasão pela coerção, e análise da realidade por demagogia e falsificação.”

Isso implica também a rejeição da metodologia de uso de ataques baseados em calúnias, mentiras e falsificações em debates e disputas políticas dentro do movimento operário e de esquerda, que o stalinismo generalizou e “normalizou” desde os anos 1920 e que, infelizmente também foi adotado por algumas correntes que se dizem trotskistas.

Por isso, em 1937 dedicou vários meses de sua atividade para colaborar e participar das atividades da “Comissão Dewey” (composta por várias personalidades não trotskistas) que avaliou se as acusações feitas contra ele à revelia, nos Julgamentos de Moscou (sabotagem, espionagem e colaboração com o imperialismo contra a URSS). A Comissão o considerou inocente dessas acusações. [8]

Trotsky nunca usou esse método condenável, nem mesmo contra Stalin e o stalinismo que o perseguiam e atacavam implacavelmente. Mesmo nas polêmicas e disputas mais acirradas, seu método consistia em analisar as bases teóricas e políticas do debate.

Formulava sim caracterizações políticas, sociais e até psicológicas de seus oponentes, mas nunca apelou para mentiras e falsas acusações.

Que é ser trotskista?

Em vários escritos e intervenções, o trotskista argentino Nahuel Moreno expressou às organizações por ele orientadas que se tratava de ser “mais operários, marxistas e internacionalistas do que nunca“.

Construir-se na classe operária (embora as conjunturas de construção pudessem e devessem ser aproveitadas em outros setores, mas sempre para voltar depois com essas forças à classe operária) surgia por duas razões muito profundas. A primeira é que, embora outros setores sociais pudessem ser mais dinâmicos e explosivos em suas lutas, a classe operária era muito mais sólida e consequente em sua luta contra o capitalismo. Por isso, o partido que criasse raízes fortes na classe operária também seria muito mais sólido e consequente muito menos sujeito a oscilações conjunturais. A segunda razão é profundamente estratégica: o modelo trotskista de revolução socialista só pode ser levado adiante com a mobilização autodeterminada e permanente da classe operária. Embora demore mais, devemos nos construir aí e impulsionar esse processo. Não se pode enganar a história procurando atalhos e nos construindo como uma corrente camponesa ou plebeia urbana, porque isso nos levará inevitavelmente a desvios profundos de nossa estratégia.

Ser “mais marxista” refere-se, por um lado, a estudar com profundidade as situações do mundo e de cada país para, só a partir daí, desenvolver as políticas e orientações corretas. Moreno dizia que devemos tentar fazer uma política revolucionária como age um bom médico, que só indica um tratamento depois de fazer as análises necessárias e elaborar um diagnóstico cuidadoso. Caso contrário, seremos “curandeiros” que trabalham com base em intuições e golpes de vista que, inevitavelmente, estão sujeitos a pressões e modas ou às falsas aparências da realidade. Em segundo lugar, significa a necessidade de estudar com profundidade, com base nas ferramentas teóricas do marxismo, os novos fenômenos e processos que não se encaixavam nos antigos esquemas e, se necessário, corrigir essas ferramentas teóricas para que respondam às novas realidades.

Isso nos leva a uma dupla necessidade. Por um lado: “ser trotskista hoje não significa concordar com tudo o que Trotsky escreveu ou disse, mas saber criticá-lo ou superá-lo, assim como com Marx, Engels ou Lênin, porque o marxismo pretende ser científico e a ciência ensina que não existem verdades absolutas. Essa é a primeira coisa, ser trotskista é ser crítico, até mesmo do próprio trotskismo ”[9]. Ao contrário, várias correntes trotskistas tomam os escritos de Marx, Lênin e Trotsky como um critério dogmático, como se fosse uma Bíblia que não exige nenhuma modificação ou atualização.

Ao mesmo tempo, essa necessidade de ser críticos (“pensar com sua própria cabeça”, dizia Moreno) deve seguir alguns critérios muito nítidos. Em primeiro lugar, indicar explicitamente o que está sendo corrigido e por que, e não “passar de contrabando” essa revisão. Em segundo lugar, reivindicar explicitamente o corpo teórico-político central que se considera atual. Ao contrário, várias correntes “jogaram fora a criança com a água suja” (isto é, abandonaram os principais componentes do legado de Trotsky), mas ainda se reivindicam ser “trotskistas”.

Sobre a questão do internacionalismo, Trotsky considerava que não poderia haver militância ou organização trotskista nacional que não se desenvolvesse como parte da construção de uma organização internacional. Não se trata apenas de estudar os processos mundiais como um todo e os processos nacionais como suas refrações específicas. Ou ser solidário com as lutas de outros países.

Isso é essencial, mas não basta: trata-se de colocar os principais esforços na construção dessa organização revolucionária internacional. Não é por acaso que ele, que foi o principal dirigente das massas de Petrogrado durante a Revolução Russa e comandou milhões de combatentes no Exército Vermelho, considerasse que a fundação da Quarta Internacional (reagrupando alguns milhares de militantes revolucionários) “é o trabalho mais importante da minha vida; mais do que o de 1917, a guerra civil, ou qualquer outro”.

O movimento trotskista hoje

Desde a divisão em 1953, não existiu novamente uma organização unificada de trotskistas. Houve algumas tentativas de reagrupamento parcial, como a fundação do Secretariado Unificado em 1963, ou do Comitê Internacional entre o CORQI e a Fração Bolchevique em 1980.

Mas a tendência geral tem sido em um primeiro processo, a consolidação de várias correntes internas: mandelismo, morenismo, lambertismo, as originadas na tendência britânica The Militant, os “capitalistas de Estado”, etc. Ao mesmo tempo, dentro dessas correntes novas divisões ocorreram e continuam ocorrendo, com acalorados debates entre os setores. Seria difícil numerar todas as organizações internacionais e nacionais (de diferentes tamanhos) que se dizem “trotskistas” ou se autodenominam dessa origem.

Entre todas, certamente existem algumas dezenas de milhares de militantes no mundo. Por esta razão, muitos trabalhadores e lutadores que veem as ideias básicas do trotskismo com simpatia perguntam se seu reagrupamento não é necessário entre aqueles que reivindicam a IV e suas bases programáticas fundamentais. Muitos acreditam, ademais, que isso não se produz essencialmente pelo sectarismo e pela autoproclamação das correntes.

É verdade que existem várias pequenas organizações ou “seitas trotskistas” maiores (nacionais ou internacionais) cuja atividade central não é desenvolver sua construção no movimento de massa, mas parasitar as outras correntes para conquistar alguns militantes. Também é verdade que muitas organizações se proclamam como “a única IV verdadeira”. Essas questões existem, mas, a nosso modo de ver, não são as centrais que impedem a reconstrução da Quarta Internacional e sua existência como uma organização unificada.

O problema é que entre as organizações que reivindicam as “bases fundacionais da Quarta Internacional” existem profundas diferenças nas elaborações teóricas, nas análises e caracterizações dos processos revolucionários e de luta que ocorrem no mundo e, finalmente, na política a ser aplicada nesses processos.

Fora as “marcas de origem” dessas organizações, um dos fatores centrais que aprofundaram essas diferenças é o que chamamos de “aluvião oportunista” que impactou a esquerda em geral (e numerosas organizações trotskistas dentro dela) após a restauração capitalista nos ex-estados operários e sua interpretação do sentido desse processo. A maioria das organizações direcionou seu programa e sua ação política para a direita. Algumas o fizeram explicitamente, outras veladamente [10].

Vamos começar pelo chamado SU (Secretariado Unificado), herdeiro do mandelismo. Desde os anos 1990, esta corrente abandonou explicitamente a estratégia da ditadura do proletariado e a luta contra a colaboração de classes, e as substituiu pela política de “radicalização da democracia” [burguesa]. Coerente com isso, também abandonou a construção de partidos revolucionários e passou a promover a formação de partidos unificados de “revolucionários e reformistas honestos”. Esse setor impulsiona um reagrupamento internacional, mas o faz sobre bases teóricas, programáticas e organizativas que nada têm a ver com o legado de Trotsky [11].

Outras correntes não deram esse passo explicitamente. Mas sua política concreta também se voltou para a direita, essencialmente em direção ao eleitoralismo e ao parlamentarismo como centro de sua atividade. É o caso do FT (Fração Trotskista) dirigido pelo PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas, da Argentina) que passou de um sectarismo propagandístico a um oportunismo eleitoralista cada vez mais acentuado [12].

Poderíamos continuar com as correntes que se originaram em The Militant ou com as que chamamos de nacional-trotskistas, mas não queremos aborrecer os leitores; os interessados ​​podem ler os artigos da série sobre a reconstrução da Quarta Internacional, a que já nos referimos.

Nos anos 1970, Nahuel Moreno caracterizou que existia um “movimento trotskista” que, independentemente de suas diferenças, era “uma corrente independente dos aparatos burocráticos, embora não tivesse uma unidade organizativa”. Como parte do aluvião oportunista, esse movimento não existe mais como tal: setores importantes “cruzaram a linha” e abandonaram o campo revolucionário, transformando-se em correias de transmissão (e vivendo à custa) da democracia burguesa e parlamentar, dos fundos do Estado, ou de aparatos sindicais burocráticos.

E aqueles que não a atravessaram, explicitamente acompanham aos anteriores em sua política. Basta assinalar, por exemplo, que a seção brasileira da LIT (o PSTU) foi deixada completamente sozinha na construção de um partido revolucionário independente, enquanto quase todas as correntes que se dizem trotskistas integram um partido reformista (o PSOL). Nesse contexto, propor um possível reagrupamento imediato seria errado e, ao mesmo tempo, irresponsável.

Como reconstruir a IV?

Desde sua própria fundação e a votação de seus estatutos em 1982, a LIT nunca se autoproclamou “a Quarta Internacional” e sempre colocou seu próprio desenvolvimento a serviço da reconstrução da Quarta. Entre outras coisas, isso implica, é claro, a busca permanente de reaproximação e reagrupamento com outras organizações trotskistas, algumas das quais tiveram sucesso, mas muitas outras falharam e não foi por causa do sectarismo de nossa parte.

Continuaremos a fazê-lo com base em critérios explícitos: acordos programáticos profundos; coincidências nas posições sobre os principais fatos da luta de classes, especialmente nos processos revolucionários, a fim de desenvolver uma ação militante comum sobre eles; relações leais e fraternas; e, é lógico, a defesa incondicional da moral revolucionária.

Sem a aplicação destes critérios, qualquer tentativa de fusão e reagrupamento revolucionário está destinada a explodir rapidamente ou a ser apenas “uma jogada para a tribuna”, como foi de fato a recente conferência internacional aberta convocada pela FIT-U da Argentina. [13].

A LIT-QI também sofreu as consequências do “aluvião oportunista” e, após a morte de Nahuel Moreno, passou por uma crise profunda que quase a levou ao seu desaparecimento. Mas tentamos ser cada vez mais operários, marxistas e internacionalistas; suas seções e militantes procuram intervir ativamente nos processos reais da luta de classes.

A reconstrução da Quarta Internacional é uma das tarefas estratégicas que o legado de Trotsky nos deixa. Nesse caminho, como já dissemos, propor um possível reagrupamento estratégico imediato com outras forças que se dizem trotskistas seria errado e, ao mesmo tempo, irresponsável. Talvez no futuro a luta de classes permita essa aproximação com algumas das organizações que analisamos, ou com outras. Quando essa possibilidade se concretizar, vamos agir como antes: com seriedade, honestidade e lealdade, para tentar concretizá-la. Faremos isso com os critérios que já indicamos neste mesmo artigo.

É necessário superar a profunda contradição que significa a constatação cada vez mais evidente, pelos trabalhadores e pelas massas, da degradação irreversível e acelerada do capitalismo imperialista e do fato de o legado de Trotsky ter passado no teste da história, por um lado, e a profunda fraqueza de uma alternativa de direção revolucionária, por outro.

Por isso, a LIT-QI põe todas as suas forças ao serviço desta reconstrução. Queremos concretizar as palavras finais de Trotsky no Programa de Transição: operários e operárias de todos os países, uni-vos sob a bandeira da Quarta Internacional. É a bandeira da sua próxima vitória!

Notas

[1] https://litci.org/es/?s=reconstrucci%C3%B3n+de+la+IV

[2] https://www.marxists.org/espanol/moreno/1985sert.htm

[3] https://www.marxists.org/espanol/trotsky/1938/prog-trans.htm

[4] Entre outras edições deste livro, ver https://www.elsoca.org/pdf/libreria/La%20lucha%20contra%20el%20fascismo-completo.pdf

[5] Para aprofundar sobre o tema do fascismo, recomendamos ler o artigo de Jerónimo Castro publicado nesta página: https://litci.org/pt/teoria/o-estado-burgues-e-o-fascismo/

[6] Sobre este tema, ver os trabalhos recompilados em ¿Aonde vai França? en https://www.marxists.org/espanol/trotsky/1936/1936-francia/index.htm y Lição da Espanha: última advertência en https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2145518/mod_resource/content/1/Lecionhes%20de%20Espa%C3%B1a.pdf

[7] Ver neste aspecto, o escrito de Nahuel Moreno http://www.nahuelmoreno.org/oportunismo-y-trotskismo-ante-los-gobiernos-de-frente-popular-1982.html

[8] Sobre a Comissão Dewey é interessante ver o discurso que Trotsky realizou diante dela em: https://youtu.be/DzNPXQo3_DY (em inglês).

[9] https://www.marxists.org/espanol/moreno/1985sert.htm

[10] Sobre o “vendaval oportunista”, ver os artigos de Martín Hernández em: https://archivoleontrotsky.org/view?mfn=6771 y https://archivoleontrotsky.org/view?mfn=6797

[11] Sobre o SU, ver os artigos de José Welmowicki em: https://litci.org/pt/especiais/80-anos-da-quarta/a-luta-pela-reconstrucao-da-iv-internacional-e-o-papel-do-su-parte-i/ e https://litci.org/pt/especiais/80-anos-da-quarta/a-luta-pela-reconstrucao-da-iv-internacional-e-o-papel-do-su-parte-ii/

[12] Sobre esta corrente, ver os artigos de Alejandro Iturbe em: https://litci.org/pt/especiais/80-anos-da-quarta/fracao-trotskista-pts-do-sectarismo-propagandistico-ao-oportunismo-eleitoralista-parte-i/ e https://litci.org/pt/especiais/80-anos-da-quarta/fracao-trotskista-pts-do-sectarismo-propagandistico-ao-oportunismo-eleitoralista-parte-ii/

[13] Sobre o tema dos critérios de reconstrução da IV Internacional e para aplicar nas fusões, ver: https://litci.org/es/menu/teoria/el-proyecto-estrategico-de-la-lit-ci-es-reconstruir-la-iv-internacional/. Sobre a recente conferência chamada pelo FIT-U ver o artigo: https://litci.org/pt/lit-qi-e-partidos/por-que-nao-participamos-da-conferencia-convocada-pela-fit-u/

Tradução: Nea Vieira