Reproduzimos a Carta aberta do Comitê Executivo do Partido Socialista dos Trabalhadores – Colômbia à Assembleia do movimento Soy Porque Somos e à Francia Marquez Mina[1]:

O Partido Socialista dos Trabalhadores da Colômbia saúda a Assembleia do movimento Soy Porque Somos.

A Paralisação Nacional, que conseguiu infringir importantes, porém insuficientes, derrotas ao governo de Duque também conseguiu pela sua profundidade e extensão, sacudir a consciência política de milhões no país, promovendo a luta nas ruas e rodovias contra o cada vez mais odiado regime do uribismo. O rechaço à violência política que continua fazendo vítimas dia a dia, o crescimento da desigualdade acrescido das agressivas políticas do governo à custa do empobrecimento e da perda de direitos para a maioria da população.

Lamentavelmente, este processo foi desgastado e desmontado pela política conciliadora do Comitê Nacional de Paralisação e das organizações com capacidade de impulsionar nacionalmente a organização e a luta dentro da paralisação para conseguir derrubar o governo que respondeu com sangue e fogo contra as legítimas reivindicações.

A rua e a luta direta foram desviadas para um processo eleitoral que promete resolver os grandes problemas do país, com a esperança de uma “renovação” nas instituições do atual regime político. Mas este processo eleitoral não é realmente democrático. Historicamente, as eleições tem sido o terreno dos poderosos, que colocam seus grandes capitais, seus meios de comunicação, seus “formadores de opinião” a serviço de suas candidaturas, para que os que forem eleitos garantam suas riquezas e seus privilégios. Além disso, as práticas abertamente ilegais como o clientelismo, a compra de votos e a violência continuam atuando no campo e na cidade na mais completa impunidade.

Porém, além das aberrantes distorções da democracia colombiana, persiste um grande obstáculo paradoxalmente imposto desde a Constituição de 91 que muitos defendem ainda hoje. Através da constituição, das leis e “reformas políticas” implementadas nos últimos 30 anos, se restringiu enormemente a possibilidade de participação eleitoral para as organizações dos trabalhadores e dos oprimidos da sociedade. Os requisitos de coleta de assinaturas, documentos e limites mínimos de votação se converteram em obstáculos quase absolutos para organizações e candidaturas vindas a partir de baixo e verdadeiramente independentes.

Nosso partido, o Partido Socialista dos Trabalhadores nasceu de uma luta histórica, a Paralisação Cívica de 1977, e logo de fundado, promovemos a segunda candidatura de uma mulher à presidência com Socorro Ramírez. Desde então, não apenas chamamos os trabalhadores e os pobres, através de nossas candidaturas, a romper com os partidos da burguesia, votar com independência de classe e a assumir o programa do socialismo, mas chamamos também o conjunto da esquerda para fazer campanhas unificadas com o critério da independência de classe. Assim, chamamos dirigentes operários dos trabalhadores, por fora da nossa organização para que assumissem candidaturas independentes. Assim atuamos até que novas condições políticas, depois da Constituição de 91, retiraram nossa legalidade jurídica.

Estas restrições impuseram também a diluição dos partidos e dos programas políticos, favorecendo uma política do espetáculo e do marketing, e o tráfico de apoios além de ser um negócio, significou a deserção e o trânsito de corruptos e parapolíticos por distintos partidos e movimentos mantendo seus feudos eleitorais. Além disso, sob estas lógicas, os caudilhos se colocam acima das organizações e dos compromissos políticos acabam atrelando qualquer governo eleito ao clientelismo e aos interesses dos poderosos.

A valente campanha realizada por Soy Porque Somos e sua candidata Francia Márques enfrentou estes obstáculos. Por um lado, enfrentou o antidemocrático sistema eleitoral colombiano, apelando à coleta de assinaturas para obter a personalidade jurídica sem depender do aval de outras organizações. Mas também enfrentou a política dominante no interior do Pacto Histórico onde foi imposta a política de alianças com setores da burguesia e seus políticos profissionais, que buscam no Pacto escapar do desprestígio do uribismo e usar as legítimas expectativas que o Pacto gera entre a grande maioria dos que lutaram nas ruas na Paralisação Nacional. A política dominante de Petro não apenas foi buscar estas alianças, mas outorgar-lhes posições de privilégio dentro do Pacto Histórico passando por cima das expressões de setores lutadores, como ocorreu com Soy Porque Somos.

Esta dinâmica tende a se aprofundar diante dos resultados favoráveis de Petro nas pesquisas, e das dificuldades atuais do uribismo e demais setores burgueses, que se autodenominem de direita ou de centro, para configurar candidaturas que disputem o Pacto Histórico. O canto da sereia de alianças com partidos e políticos burgueses em franca decadência buscam livrar a cara daqueles que foram responsáveis diretos ou cúmplices da violência, corrupção e políticas de exploração e opressão impostas durante séculos.

É verdade que muitos dentro do Pacto Histórico, embora se incomodem com estas práticas políticas, acabam se adaptando, pois estão acostumados a ser os seguidores de supostos setores progressivos da burguesia e acabam aceitando tais alianças, sujeitos ao realismo político. Mas reconhecemos tanto em Francia Márquez Mina como no movimento Soy porque Somos que reivindicam princípios sob os quais nem tudo é válido para se posicionarem no jogo eleitoral.

Ante a imposição de políticos burgueses em posições privilegiadas na lista do Pacto Histórico relegando candidaturas que refletem os lutadores como as de Soy Porque Somos, reconhecemos a ação valente de se retirar da lista do Pacto para se apresentar de maneira independente sob a circunscrição especial de negritudes para a Câmara de Representantes.

A impossibilidade de alcançar os requisitos para apresentar uma candidatura presidencial a partir de Soy Porque Somos, colocou o cenário de aceitar um aval de outra organização, possibilidade que se apresentou com AICO (Movimento de Autoridades Indígenas da Colômbia) e depois concretizaram com o PDA (Polo Democrático Alternativo). Reconhecemos como legítimo o recurso de recorrer à legalidade de outras organizações diante das restrições antidemocráticas da legislação eleitoral colombiana e consideramos um gesto democrático das organizações chamadas alternativas, expressões de movimentos sociais ou de esquerda oferecer leagalidade a candidaturas de lutadores sem se comprometer com seus programas. Fazer o que fez a Lista del Pueblo no Chile nas eleições à Convenção Constituinte em 2021. Porém lamentavelmente, essa não foi a atitude. O legalidade pelo PDA e os compromissos com o Pacto Histórico significam para a candidatura de Francia Márquez uma camisa de força.

Por isso acreditamos que do ponto de vista dos princípios e do compromisso com os oprimidos e explorados que sua campanha assumiu, a decisão mais coerente é a de romper com esta dinâmica do Pacto Histórico de se comprometer com o estabelecimento, o caminho mais digno para Soy Porque Somos, Francia Márquez e as organizações sociais e políticas que se comprometeram com sua campanha, é promover uma campanha independente. A Paralisação Nacional nos mostrou como é possível lutar sem a condução burocrática de dirigentes conciliadores que desconhecem suas próprias bases. Aqueles que, cheios de soberba, acreditam-se donos da paralisação, tiveram que correr atrás da iniciativa dos que nas ruas disseram “não nos representam”. Mesmo assim ainda é possível neste momento, construir uma campanha que diga nas ruas Não nos representam! E chamar o conjunto de lutadores e daqueles que apoiaram a paralisação a retomar a luta e organizar os mandatos populares que expressem as reivindicações da Paralisação Nacional em cada bairro, abrigo, fábrica, território e a expressar-se também no terreno eleitoral na campanha independente de Francia Márquez Mina e Soy Porque Somos.

Sabemos que este caminho será ainda mais difícil, receberá muitas críticas daqueles que, sob o discurso da unidade, instrumentalizam e violentam as expressões políticas dos oprimidos. A unidade que serve aos que sempre foram excluídos deve ser uma unidade construída de baixo, sob a confiança e autoridade que a luta dá, não dos conchavos políticos por cima e atrás das cortinas. Aqueles que a partir outras coalizões e campanhas ainda mais comprometidas com o regime buscarão aproveitar-se da simpatia e confiança política que Francia obteve com sua candidatura, também  só buscam instrumentalizar essa imagem. Mas esse caminho, ainda que mais difícil, apresenta a legitimidade de se construir com a cabeça erguida, com a dignidade de quem luta sem claudicar diante das adversidades.

Fazemos este chamado a partir da convicção na necessidade de construir uma alternativa eleitoral que expresse as lutas da paralisação, e reconhecendo a autoridade ganha nas lutas de Francia Márquez e Soy Porque Somos. Estamos conscientes das diferenças programáticas que existem entre nós, entretanto decidimos chamar o voto pela candidatura de Francia Márquez, chamado de caráter crítico, apoiando também com nossas modestas, porém decididas forças à coleta de assinaturas pela sua candidatura. Por isso, a partir da nossa convicção pela classe operária e da necessidade do socialismo e da revolução e também de nossa ação, fazemos este chamado fraternal à Assembleia de Soy Porque Somos a dar o valente passo para uma campanha e um pacto a partir dos de baixo, dos explorados e oprimidos e seus lutadores, para postular uma opção independente com a autoridade que a luta honesta dá, tanto nas eleições como nas lutas diretas que voltarão e se aprofundarão.

Comitê Executivo
Partido Socialista dos Trabalhadores da Colômbia
Liga Internacional dos Trabalhadores-Quarta Internacional

[1] Ativista ambiental e dos direitos humanos afro-colombiana (ndt)

Tradução: Lilian Enck