Uma vez desmontada a Paralisação Nacional, os partidos reformistas iniciaram a campanha eleitoral, deixando de lado as lutas e inclusive às dezenas de presos oriundos dos protestos e que foram processados nas últimas semanas.

Por: Comitê Executivo PST

De fato, o Comitê Nacional de Paralisação, CNP, convocou a mobilização no dia 20 de julho para respaldar uma série de projetos de lei que os chamados partidos alternativos apresentariam ao Congresso da República, sabendo que não têm nenhum futuro por ser minoria, mas vendendo a ilusão de possível maioria em 2022.

Esta abertura da campanha eleitoral se apoia na ilusão de que o ascenso das mobilizações possa se refletir nas urnas a favor dos setores políticos e sociais que se agrupam no Pacto Histórico[1] e na Coalizão da Esperança. Esta é aspiração eleitoral de Gustavo Petro[2], liderança que reúne grande simpatia na juventude, na classe trabalhadora e nos setores populares que protagonizaram a Paralisação Nacional.

Nós do Partido Socialista dos Trabalhadores, chamamos a manter a mobilização como principal forma de enfrentar a contraofensiva do Governo de Iván Duque e não adiar as lutas até as eleições. E alertamos que as urnas são controladas pelo regime e que só a mobilização de massas pode nos garantir vitórias, inclusive eleitorais.

Mas uma vez se impõe uma campanha eleitoral. É necessário analisar o que está em jogo e como podem participar aqueles que lutam nesse processo, se o que se aspira é enfrentar o regime e em tornar realidade o clamor das ruas pela queda do Governo de Duque.

As ruas movem o xadrez político

As mobilizações iniciadas em 28 de abril colocaram em crise à maioria dos partidos reformistas. A Coalizão da Esperança – formada pelo Partido Aliança Verde, Dignidad (MOIR), o neoliberal Sergio Fajardo e setores santistas (referencia aos seguidores do ex-presidente Juan Manuel Santos) como Juan Fernando Cristo (Ministro do Interior no segundo mandato de Santos) – que tem maioria no desacreditado CNP e nas centrais sindicais, se divide em meio dos protestos ao discriminar os Verdes por terem entre suas fileiras setores petristas como o de Camilo Romero (ex-governador de Nariño, 2015-2019).

Por sua vez, o Pacto Histórico anunciou que sua lista para o Senado será fechada e com paridade entre homens e mulheres, os candidatos seriam eleitos por um colégio eleitoral integrado por delegados dos movimentos que o compõem: Colômbia Humana, União Patriótica, Polo Democrático, MAIS e Aliança Democrática Afro-colombiana, ADA. Nas campanhas para as câmaras regionais, a lista pode ser aberta e seria definida por esses partidos.

Programa do Pacto Histórico

Mas o Pacto Histórico não só lançou sua estratégia eleitoral, mas também um acordo programático para: “a diversidade de setores sociais, intelectuais e formadores de opinião, o liberalismo socialdemocrata, o empresariado, os trabalhadores, o campesinato, a comunidade LGTBIQ+, toda a diversidade regional, cultural e espiritual”.

Ou seja, as listas do Pacto Histórico não serão apenas listas de lutadores e lutadoras, mas também de setores burgueses e membros de partidos tradicionais como Armando Benedetti e Roy Barreras (ambos eleitos senadores pelo Partido De la U, partido do ex-presidente Juan Manuel Santos), que terá seu nome nos primeiros lugares da lista com sua esposa Glória Arizabaleta.

Já Petro – em meio à Paralisação Nacional – se reuniu com o empresariado judeu na Colômbia e manifestou em reiteradas ocasiões que seu projeto não é anticapitalista, sua mensagem é um pacto entre exploradores e explorados, entre opressores e oprimidos, entre vitimizadores e vítimas para desenvolver o capitalismo na Colômbia.

Candidaturas como de Francia Márquez (líder da comunidade afro-colombiana) e Alexander López Maya (senador eleito pelo Polo Democrático), e os partidos de esquerda que fazem parte do Pacto Histórico, como o Partido Comunista, não estabeleceram limites dessa posição, pois em geral não apostam na derrota do regime, mas na sua “democratização”.

Um chamado ao Pacto Histórico

Por enquanto, as tensões internas no Pacto Histórico dizem respeito à formação das listas, com a paridade, com o caráter de lista aberta ou fechada, ou seja, com a mecânica eleitoral. Mas este chamado vai para além disso, é para uma discussão programática e uma eleição democrática dos que integrem as listas.

Não pode ser que depois de uma mobilização histórica a proposta política mais enraizada entre as/os lutadores seja um pacto histórico com setores oportunistas do santismo e que seja um grupo de representantes dos partidos os que definam suas listas.

O Pacto Histórico deveria ser entre a juventude, a classe trabalhadora e os setores populares que lutaram nas ruas na Paralisação Nacional, seu programa deveria ser o programa que foi levantado nas ruas. Os atuais dirigentes deveriam deixar as brigas internas pelos seus lugares nas listas e incentivar assembleias populares que elejam listas de lutadores sociais.

Sem dúvida, essas listas constituem uma esperança para milhões de pessoas que desejam uma mudança no país, para milhões de desempregados, de vítimas, de jovens sem futuro, de mulheres. Mas devemos alertar que o programa que unifica esta lista não enfrenta os inimigos da classe trabalhadora e dos pobres e que independentemente do número de cadeiras que obtenham, teremos que sair às ruas para enfrentar o regime para defender nossos direitos.

Para responder a essa esperança de milhões, a unidade que se expressou nas ruas deve se expressar nas listas. A primeira coisa a fazer seria romper com aqueles que até o momento nos governaram, como Roy Barreras e Benedetti, políticos oportunistas das classes dominantes. Além disso, abrir suas listas aos lutadores e líderes honestos, eleitos em assembleias, uma vez que a legislação eleitoral antidemocrática os impede de concorrer como candidatos independentes. Essa abertura não pode ter outra condição senão a de continuar lutando pelos interesses dos trabalhadores e dos pobres do campo e da cidade.

[1] Pacto Histórico é uma Coalizão Eleitoral, criada em fevereiro de 2021, conformada por políticos de esquerda e centro esquerda para disputar as eleições presidenciais em 2022, ndt;

[2] Ex-integrante do extinto M-19, ex- prefeito de Bogotá, 2012-2015, e atual senador, ndt;

Tradução: Rosangela Botelho