Inédita no Brasil, obra de historiador palestino discute a expulsão de seu povo

Neste mês de março teremos no Brasil o lançamento da primeira obra do historiador palestino Nur Masalha em português: “Expulsão dos palestinos. O conceito de ‘transferência’ no pensamento sionista (1882-1948)”.

Nur Masalha tem um currículo significativo. Ele é autor de onze obras (1) e dezenas de escritos sobre a história palestina publicados em inglês, árabe e espanhol. Não por acaso, Nur foi o historiador comentarista do conhecido documentário de 61 minutos “A terra fala árabe”, de Maryse Gargour. Feito em 2007, ele trata do longo processo de limpeza étnica à qual foram submetidos os palestinos pelas mãos do movimento sionista.

Atualmente Nur Masalha é membro do Centro de Estudos Palestinos na Universidade de Londres e do Centro de Filosofia da História da Universidade St. Mary’s. Ele é ainda editor-chefe da Revista de Estudos da Terra Santa e Palestina, publicação semestral da editora da Universidade de Edimburgo, desde 2002.

A publicação de seu livro em português faz justiça à qualidade de sua extensa obra e a torna mais acessível aos brasileiros.

A questão palestina está atravessada pela Nakba, a palavra em árabe que significa catástrofe e se refere à formação do Estado de Israel em terras palestinas em 1948, efetuada em base à expulsão de 800 mil palestinos, à destruição de mais de 500 vilas e à realização de pelo menos 30 massacres, sendo Deir Yassin, nos arredores de Al Quds (Jerusalém), o mais conhecido deles.

A historiografia israelense tradicionalmente explica essa expulsão maciça ora através de um mito segundo o qual os palestinos deixaram suas terras e propriedades de livre e espontânea vontade, eventualmente atendendo ao chamado de líderes árabes que nunca existiu, ora como um dano colateral da “guerra de independência” contra poderosos exércitos árabes.

Essa versão dos “vencedores” foi derrubada pela abertura dos arquivos das organizações e milícias sionistas, e a consequente publicação de obras como “A limpeza étnica da Palestina” de Ilan Pappé, que confirmaram o que a historiografia palestina já havia revelado desde os anos 1950 através de autores como o historiador palestino Walid Khalidi.

No entanto, essa expulsão dos palestinos foi precedida pela maturação ideológica no interior do movimento sionista ao longo de 66 anos. É desta maturação que trata o historiador Nur Masalha.

O leitor se surpreenderá com as revelações trazidas pelo autor, através do exame dos próprios diários, arquivos e declarações de dirigentes das organizações sionistas que expõem os fundamentos do pensamento desse movimento desde a sua fundação em 1882 até a formação do Estado de Israel em 1948.

Ao examinar essa documentação, o autor encontrou a presença constante do conceito de “transferência”, um eufemismo que esconde uma estratégia política: a expulsão dos palestinos, considerados uma população excedente, para fora de sua terra natal pelos meios que fossem necessários para abrir espaço para a formação do Estado de Israel.

Outro aspecto relevante sobre a publicação dessa obra é o esforço por parte da Editora Sundermann e do Monitor do Oriente Médio para romper com a hegemonia editorial de publicações de autores sionistas, israelenses ou não, quando se trata da questão palestina, hegemonia esta que revela o encontro da “história” dos vencedores com os preconceitos orientalistas de editores e do establishment em geral.

A tradução foi feita a partir do original em inglês por Leo Misleh e Teresa Bosco Ferreira, e o prefácio da obra é do diretor do Middle East Monitor, Dr. Daoud Abdallah.

Além de propiciar acesso ao público brasileiro de uma importante obra sobre a questão palestina e de publicar autores árabes no Brasil, a conhecida jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh, idealizadora da edição deste livro em português, escreve sobre a relevância de unir o conhecimento histórico à prática transformadora:

“A perspectiva é que o conhecimento proporcionado nesta obra por Nur Masalha contribua para a transformação da realidade, ampliando a solidariedade internacional para que, ao lado da resistência heroica dos palestinos, se garanta justiça. Contra o apartheid, colonização e ocupação, Palestina livre do rio ao mar!” (1) Expulsion of the Palestinians: The Concept of “Transfer” in Zionist Political Thought, 1882-1948 (1992), The Palestinians in Israel: Is Israel the State of All its Citizens and Absentees? (1993), A Land Without a People (1997), Imperial Israel and the Palestinians: The Politics of Expansion (2000), The Politics of Denial: Israel and the Palestinian Refugee Problem (2003), Catastrophe Remembered: Palestine, Israel and the Internal Refugees: Essays in Memory of Edward W. Said (2005), The Bible and Zionism: Invented Traditions, Archaeology and Post-Colonialism in Palestine-Israel (2007), The Palestine Nakba: Decolonising History, Narrating the Subaltern, Reclaiming Memory (2012), The Zionist Bible: Biblical Precedent, Colonialism and the Erasure of Memory (2013), Theologies of Liberation in Palestine-Israel: Indigenous, Contextual, and Postcolonial Perspectives (2014), Palestine: A Four Thousand Year History. (2020)