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domingo, julho 14, 2024

Peru: os “esquerdistas” contra o povo

A permanência de Boluarte no governo, de mãos dadas com as forças mais reacionárias e corruptas do Congresso, tem um pano de fundo: a traição das direções e organizações políticas que se autodenominam “de esquerda” à luta que os povos do sul do país iniciaram no início deste ano.

Não só dividiram a mobilização durante as semanas em que as delegações do sul chegaram à capital para “tomá-la”. Mais ainda, sobre a frustração dessa onda de lutas, impuseram uma estratégia diferente das mobilizações que se desenvolveram a partir de março.

Por: Víctor Montes

O sul revolucionário

A característica fundamental do levante dos povos do interior, particularmente da serra sul do país, com Puno na liderança, foi a paralisação das atividades econômicas e a mobilização permanente, com métodos insurrecionais, exigindo a queda imediata do governo e do Congresso.

Isto foi possível, devido à existência de uma direção independente das velhas direções “de esquerda” concentradas em Lima e ligadas ao Partido Comunista, a Patria Roja, assim como a Nuevo Perú e a Frente Ampla. Todas organizações viciadas no jogo eleitoral.

Estas direções independentes lideraram uma luta heroica. Foram delas os mortos da feroz repressão do governo Boluarte, e ainda assim tomaram o controle territorial de províncias inteiras e vias de comunicação (inclusive depois de declarado o “Estado de emergência” em Puno, as Forças Armadas não conseguiram tomar o controle de cidades como Juliaca, nem transitar livremente pelas rodovias, disciplinadamente defendidas pelas comunidades).

Também organizaram destacamentos de autodefesa, sobretudo em Puno, ante a investida assassina das forças armadas e policiais, o que permitiu à população enfrentar minimamente a repressão.

Por último, sob essa mesma lógica, foram “tomar Lima”, enviando milhares de pessoas de diversos povoados e cidades da serra sul, em uma ação que rememorava a mobilização que feriu de morte a ditadura fujimorista: a chamada “Marcha de los cuatro suyos” (Marcha dos quatro seus), com a expectativa de derrubar Boluarte depois de poucos dias. Porém isto não ocorreu.

As direções evitaram a entrada da classe operária

Ao que tudo indica, os povos do sul puseram “toda a carne na grelha” durante os meses de dezembro de 2022 e março do presente ano. Era fundamental, para que sua estratégia de queda imediata do governo e do Congresso fosse bem sucedida, que sua luta se unificasse com a ação dos povos de todo o país.

E em particular, com a luta organizada e consciente da classe operária, que, a partir das minas do país, campos agroindustriais, portos e fábricas, assim como dos seus bairros, devia assumir as bandeiras do sul e incluir as próprias, para fechar toda possibilidade de resposta do governo assassino de Boluarte e do Congresso.

Contudo, embora a classe operária simpatizasse com a ação dos povos do sul, ficou presa de suas direções nacionais que, mais além de qualquer discurso, se dispuseram a negociar com o governo, colocando em prática uma estratégia diferente: levar adiante um processo de mobilização controlado, convocando “dias de luta” esporádicos e com diversas consignas: às vezes contra a corrupção, outras contra o aumento do custo de vida, etc.

Desta forma, ao invés de unificar a luta operária e popular a nível nacional, com o levantamento do sul, a política das direções “de esquerda” (Partido Comunista, Patria Roja, Nuevo Perú, etc.) tem sido domesticar a mobilização para levá-la ao campo do cálculo eleitoral. Isto é, à espera de construir candidaturas que lhes permitam disputar uma próxima eleição, seja antecipada ou não.

Ter aparência radical para levar tudo ao desastre

A máxima expressão desta política foi a convocação, da noite para o dia e sem nenhum tipo de trabalho de base que permitisse garantir as decisões, de uma Paralisação Nacional (19 de janeiro), primeiro, e de uma suposta “greve nacional por tempo indeterminado” (9 de fevereiro), depois.

Esta ação “radical” na aparência (a Paralisação Nacional e a Greve geral, ao levar-se a cabo, teriam colocado em cima da mesa o problema de quem tinha o controle do país), se transformaram em seu oposto e acabaram dando o pontapé final ao levante do sul. Isto porque ainda que sendo convocações necessárias e corretas, não foram trabalhadas, de forma que ninguém parou, deixando novamente os povos do sul sozinhos, criando neles maior desconfiança em relação aos trabalhadores e trabalhadoras das cidades, particularmente de Lima, consolidando a divisão do movimento.

Retomar o caminho dos povos do sul

No entanto, a única forma de superar o momento político que o país vive, em que os setores mais podres da burguesia e seus partidos vão ganhando cada vez mais posições no aparato do Estado, passa necessariamente por derrotar e derrubar tanto o Congresso como o Governo de Dina Boluarte.

Para isto, a única estratégia que a história validou, é a que os povos do sul colocaram em prática. Mas é necessário que tal levante supere as fronteiras do sul andino e se estenda por todo o país, desde a Amazônia até à costa. E o único setor social que pode converter-se na coluna vertebral de tal levante, é a classe operária, presente em todo o país, para além de seu lugar de origem e costumes. É a classe que com seu método (a greve geral), discutido e aprovado nas bases, armando coordenações de luta zonais, e preparando seus comitês de autodefesa, pode unificar uma só torrente a luta de todo o povo pobre e trabalhador contra o governo assassino de Boluarte, arrancando, além disso, soluções concretas aos mais diversos problemas que temos em mãos.

Mas isto não será possível sem superar as direções traidoras que, por trás de uma roupagem “de esquerda” e um discurso “radical” ocasional, dividiram a mobilização e levaram a luta iniciada, com heroísmo e sacrifício no sul do país, a um ponto morto.

Essas direções controladas pelo Partido Comunista, Patria Roja, Nuevo Perú, e demais grupos “democráticos” e “progressistas”, são os grandes responsáveis pelo governo assassino de Boluarte e o congresso ainda estejam de pé. É seu vício às eleições e a ocupar cargos no Estado, o que as leva a trair a luta operária e popular.

Portanto, é preciso construir direções alternativas que retomem e organizem a estratégia que o Sul nos mostrou: greve geral, mobilização permanente, ação direta e autodefesa. Essa é a estratégia da luta operária consciente e consequente. É a única que nos dará a unidade e vitória.

Tradução: Lílian Enck

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