qui jul 18, 2024
quinta-feira, julho 18, 2024

A classe operária e sua direção no momento atual

O problema da mobilização ou desmobilização dos trabalhadores tem a ver com sua direção política, principalmente da CGTP. (Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru).

Por: PST – Peru

Um fato que podemos constatar é que a classe operária organizada se encontra quase ausente da luta que acontece hoje no Peru contra o governo de Dina Boluarte, apesar de estar em jogo seu próprio destino. Que alguns setores participem nas convocações a conta gotas da CGTP – que vai a reboque dos acontecimentos com sua política de acompanhar o processo e não de liderá-lo -, ou que a CGTP vá fazê-lo um pouco mais nos próximos dias, não mudam esta situação.

E não estamos falando de uma coisa menor: o papel da classe operária é decisivo neste momento, sua pouca participação alarga esta luta, já longa e dura, enquanto sua inclusão nela com toda sua força contribuirá para sua rápida vitória.

A presença da classe operária é decisiva não apenas pela sua localização no coração da economia que move os grandes negócios (as minas, fábricas, a agro exportação), e da qual os donos do país se nutrem, mas também pelo seu imenso potencial, que se expressa em suas numerosas organizações forjadas nas grandes lutas: a luta de milhares de têxteis contra o regime de exportações  (2009-2014), a grande luta contra a Lei Pulpín (2015), a greve da poderosa Federação Mineira por sua lista de reivindicações única (2017), a infinidade de greves heroicas e longas pela solução de suas listas de reivindicações, como as ocorridas no último ano.

O simples fato da presença de que importantes segmentos da classe trabalhadora, ainda que lutem pelo interesse setorial, é um importante mostra de que ela existe como classe. Entretanto, que não se envolva na luta atual com todas as suas forças e não abracem sua causa e suas bandeiras, se devem a uma razão: sua direção política, a CGTP, conciliadora e reformista.

Na luta cotidiana os trabalhadores mais avançados podem chegar a compreender suas limitações: por exemplo, que a luta por suas listas de reivindicações é muito difícil e que é melhor uma lista de reivindicações setorial ou única, que não apenas enfrentam um patrão mas uma classe e um sistema, com leis e forças repressivas incluídas; podem chegar a compreender também a necessidade de sua unidade de classe para lutar por conquistas gerais e de sua aliança com os setores mais explorados para alcançar direitos sociais e democráticos.

Mas, os trabalhadores não avançam nesta compreensão e não escalam para o plano político porque suas direções os mantêm focados em suas listas de reivindicações e isolados em seus espaços sindicais. Este é o papel cotidiano que as direções cumprem, em especial da CGTP. Por esta mesma política agora tentam mantê-los distanciados da grande rebelião que os setores populares protagonizam atualmente.

Reformas sim, revolução não

Isto tem uma explicação. Se no momento atual a classe operária se colocasse à frente da rebelião em curso, em algum momento proporia sua própria saída: tomar o poder e estabelecer um governo dos trabalhadores. E é assim porque não há nem existe outra forma de realizar o programa de mudanças necessário (nacionalizações das grandes minas, por exemplo) sem a classe trabalhadora mobilizada em luta frontal contra a burguesia, luta que, em sua dinâmica, só pode concluir e ser levada até o fim estabelecendo o poder dos trabalhadores.

E, com certeza, tais direções não querem nada disto. Elas só sonham em “reformar” o sistema atual e fazê-lo mais “humano”. Mas como o sistema (capitalista) não aceita nem isto (como se vê em sua brutal oposição à convocação de uma Assembleia Constituinte), acabam capitulando, tal como fizeram durante a presidência de Castillo quando, tendo o poder em suas mãos, não realizaram nenhuma de suas promessas.

Por isto, estas direções, na mesma linha que seguiram nestes anos todos, quando mantiveram a classe operária presa em suas lutas isoladas e por reivindicações setoriais, agora não fazem nada para somá-la à luta atual, a fim de evitar que se torne um ator político revolucionário.

Os setores em luta

Os setores que lutam atualmente têm outra dinâmica e escapam ao controle dessas direções. São formados por camponeses pobres e pequenos comerciantes, e que constituem a outra face do modelo neoliberal (polos de riqueza em atividades oligopólicas e extrativas onde se gera emprego e se localiza a classe trabalhadora, em um mar de pobreza espalhado em todo o país). Estes setores se apropriaram da candidatura de Pedro Castillo e de suas propostas de nacionalizações e Constituinte, como esperança para mudar suas vidas, depois da tragédia que significou a pandemia; enquanto a classe operária só se somou a eles de mãos dadas com suas direções agrupadas atrás da candidatura light de Verónica Mendoza.

E o que obtiveram? Enorme frustração. A partir desses setores só se viu um ataque permanente da burguesia e seus agentes no Congresso, e o próprio Castillo justificaria sua renúncia às mudanças que ofereceu para esses ataques. Assim, a partir destes setores populares o impeachment foi visto como a consumação do golpe tantas vezes anunciado por essa burguesia, e quando saíram às ruas em defesa de suas esperanças de mudança, receberam como resposta balas e morte, com o que acenderam a rebelião que hoje protagonizam.

A burguesia não se cansa de apontar essa mesma “esquerda” reformista e conciliadora como responsável pela atual onda de lutas. Mas é falso. Essa esquerda está completamente desfeita justamente pelo seu papelão durante o governo de Castillo, porque votou pelo impeachment, e porque agora, no debate pela antecipação das eleições, mostra que se aferra aos seus postos. Por cima destas “direções” falidas a verdade é que a atual luta saiu da base, e é ela quem sustenta e dá impulso pressionando suas direções.

As bases que lutam aprenderam a lição do governo de Castillo: as mudanças não são obtidas com o voto e sim lutando, não são conquistadas no Congresso, mas nas ruas, não são conquistadas conciliando com a burguesia, mas lutando contra ela até derrotá-la. E o fazem da única forma que podem fazê-lo: com suas organizações territoriais e com seus próprios métodos de luta como os bloqueios de rodovias, ocupações locais e enfrentando a polícia.

Este é um grande avanço que a luta atual mostra e que deixou para trás as direções e a classe trabalhadora.

Esta particularidade é usada pela burguesia para confundir os trabalhadores e mantê-los afastada desta luta. Por exemplo, com uma intensa propaganda rotulam esta rebelião como violenta, de vândalos e subversivos; e por oposição se pretendem defensores da paz e tranquilidade. Esta trapaça seria facilmente desmascarada as direções a denunciasse firmemente e tomasse partido, decididamente, pela luta atual. Mas sua fraca postura é a que permite que essa campanha afete a consciência de amplos setores de trabalhadores.

Conclusão

Tudo isso leva a uma conclusão: a atitude dos trabalhadores frente ao conflito atual está atravessada pelo comportamento de sua direção majoritária, de antes e do momento atual.

Isto torna necessário colocar de pé uma nova direção classista e revolucionária, que assuma como suas as reivindicações de mudança do campo, a luta pela Constituinte, a nacionalização das minas e pela conquista de um governo dos trabalhadores e dos pobres que torne realidade estas aspirações.

Esta é a direção pela qual o PSTconvida os lutadores a construir no momento atual. Sua necessidade é urgente.

Tradução: Lilian Enck

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