ter set 27, 2022
terça-feira, setembro 27, 2022

Kherson: Ucrânia ocupada

Nosso caminho para a liberdade foi de cinco longos dias.

Por: Oksana

144 dias de ocupação…

Sentamos na varanda. Não há estrutura de sustentação… As janelas do corredor estão cobertas com pano e fita adesiva. Os mísseis voltaram a sobrevoar a casa… Os nazistas mandam a morte para nossas cidades novamente. Acima da janela da nossa cozinha, bem na parede, a 5 cm da janela, está um fragmento de projétil. Nada de ajuda humanitária, nada de salitre, como haviam dito que tinha armazenado! Prova de que este depósito dos russos estava lotado de explosivos e munições, praticamente entre os prédios de nossas casas.

Sentamos, olhamos a cidade… nos despedimos… Vemos como o “segundo exército do mundo” está roubando correspondência dos Correios. Eles dirigiram um caminhão e levaram os pacotes não recolhidos pela janela. Um exército de assassinos, estupradores e saqueadores. Despedimo-nos da cidade… do Dnieper… de casa…

Amanhã tentaremos novamente escapar da ocupação. Encontrei um transporte. Nossa viagem já foi adiada várias vezes…

Deus ajude que façamos amanhã…

Dia 145…

4h30, toque de recolher… Tentamos caminhar pelos pátios entre os prédios. Não pode circular pela cidade durante o toque de recolher, pode ser preso… ou baleado na hora. Nos escondemos atrás de algumas lojas, esperando o motorista. O sol está nascendo sobre nossa querida cidade… Neste momento, o som de uma poderosa explosão… uma, duas… Uma matilha de cães abandonados corre para um abrigo… Eles correm, caindo de medo, levantam-se e correm de novo…

Também estamos com medo, mas sabemos que são nossos combatentes que novamente explodiram um depósito com munição de fascistas russos. Novamente o som de uma explosão… neste momento um carro se aproxima em alta velocidade, rapidamente carregamos a mala, a sacola… e o gato “Fimochka”. Vamos, ao encontro da liberdade!

A única maneira de chegar ao território controlado da Ucrânia é através de Zaporozhye. Chegamos a este lugar rapidamente, havia apenas alguns postos de controle dos invasores. Ao longo do caminho, vimos buracos deixados por explosões de mísseis, também o esqueleto de um carro queimado, não um militar… um civil queimado.

Chegamos na fila de carros… Uma fila enorme de gente querendo sair do inferno. Estendia-se por vários quilômetros. À nossa frente está uma família com uma criança, atrás de nós também. Muitas crianças, em quase todos os carros. O sol está nascendo e o calor está crescendo. Uma enorme coluna de carros, o sol escaldante, a completa ausência de árvores e um desejo de todos: Escapar!

Apenas uma dezena de carros passaram naquele dia. Uma… De uma fila enorme! Isso, porque os ocupantes decidiram…

Nesta estrada para a liberdade, só pode ficar estacionado das 5h às 20h. Então, nesse momento, todos se dispersam. Fomos à procura de alojamento para passar a noite. Conhecemos um cara e pedimos a ele para passar a noite, por pouco dinheiro.

Fimochka estava chorando… meu gato estava chorando porque não entendia o que estava acontecendo. Limpei seu focinho vermelho e sussurrei, nos perdoe… vai ficar tudo bem… nós vamos conseguir sair juntos!

Dia 146… O segundo dia na fila pela liberdade.

De novo o sol escaldante… as crianças choram… a total ausência de sombra. A água acabou rapidamente.

Os invasores se compadeceram e deixaram passar um carro com um bebê. Um! O resto continua na fila. Ou melhor, não podem ficar parados. Estávamos todos procurando pelo menos algum tipo de sombra. Amarramos uns panos entre os carros como toldos, colocamos lençóis no asfalto e colocamos as crianças lá. Os que couberam… Coloquei Fimochka embaixo dos carros, junto com a caixa em que o carregávamos, e o agarrei pela coleira para que, Deus me livre, ele não entrasse em pânico e fugisse.

Estamos sentados, deitados na beira da estrada… Os veículos blindados de tropas dos ocupantes passam por nós em alta velocidade… as crianças olham com medo para os pais…

Chega a noite… Mais uma vez não nos deixaram passar…

Saindo da fila para pernoitar, fomos perguntar no posto de controle por que tão poucos carros podiam passar. Eles nos responderam: “E em breve fecharemos a estrada e ninguém passará!”

Então… nós, em nossa própria terra, temos que pedir permissão aos invasores estranhos… E quanto mais quente estiver lá fora, menos provável que vá. Eles nos mantêm no calor … de propósito… e vingam por não dar-se por vencidos!

Dia 147…

De manhã deixaram passar 2 dezenas de carros. Esperávamos que depois das 17h passaríamos definitivamente.

Mas não… depois das cinco horas não deixaram ninguém sair…

Famintos, queimados de sol, deprimidos, voltamos novamente para passar a noite. O rádio funcionou no quintal, o hino da Ucrânia soou! Um hino ucraniano em um território ocupado pelas tropas de Putin! Arrepios… e emoção ao máximo! as lágrimas! Isso me deu esperança de que tudo vai ficar bem!

Dia 148…

4º dia de viagem… 4 da manhã… Dormimos mal, tínhamos cada vez menos forças…

Fimochka bebeu um pouco de água e entrou em sua caixa. Rapidamente fizemos as malas e fomos para a estrada. Nossos vizinhos também continuam lá. A fila está cada vez maior… Poucas pessoas passaram nesses dias. E a cada dia há mais pessoas que querem sair. Poucos carros entram no território ocupado, a maioria são transportadores que vão para buscar as pessoas.

De manhã deixaram passar duas dezenas de carros. Estamos nos aproximando do posto de controle.

Já estamos entre os dez primeiros, agora em sexto… Pare!

Parar novamente! Abaixamos os braços… Não pode chorar, tem que aguentar…

Esperamos até às cinco da tarde… a fila começou a se mover…

Primeiro posto de controle, inspeção… Segundo, inspeção…

Terceiro, inspeção… Me forçaram a sair do carro. Não entendo por quê.

Quarto posto de controle. Estão folheando nossos passaportes… Enquanto folheavam, consegui repetir todas as orações…

Eles nos deixaram passar!

Estamos em alta velocidade pela “zona cinza”, por uma cidade absolutamente vazia, completamente bombardeada. Casas queimadas… lençóis rasgados, pendurados por uma corda… Não se pode parar…

Tem um carro parado na estrada, tem coisas dentro… não tem gente. Passamos ao lado dele por um caminho estreito…

Uma explosão soa, outra … Eles estão atirando em nós!

Corremos o mais rápido possível… Já nem dá medo! Só uma grande vontade de correr para encontrar nossa gente!

Dois cães estão sentados na estrada… como lebres, levantando as patas dianteiras, esperando um pedaço de pão, atirado da janela de quem corre a toda velocidade…

As lágrimas fluem sem parar… Tudo o que se acumulou durante os quatro dias de viagem…

Primeiro posto ucraniano! Do nosso exército! Lágrimas de felicidade! Senhor obrigado!

Não sei descrever esse sentimento… Chorando, me abraçando!

Estamos aguardando nossa fila. Os soldados tranquilizam-nos, falam conosco… prometem que vai correr tudo bem!

A fila inteira vai para Zaporozhye, acompanhada pela polícia.

Eles nos receberam em Zaporozhye, checaram nossos documentos, nos alimentaram e nos acomodaram para passar a noite.

Amanhã será um novo dia. E uma nova história.

E hoje, cansaço… e alegria! Escapamos!

Dia 150 da ocupação

A região de Kherson está se transformando em um deserto, ou melhor, um deserto arrasado. Casas sem janelas, sem telhados… As pessoas saem em massa. Ou melhor, aqueles que têm pelo menos alguma oportunidade e possibilidade de sair, vão embora.

Tivemos sorte, conseguimos escapar. Saímos de manhã, bem cedo ao som de explosões. Vimos matilhas de cães, agora sem dono e sem lar, correndo aterrorizados pelos quintais. Nós também corremos a uma velocidade vertiginosa, fugindo dos invasores. Nosso caminho para a liberdade foi de 5 longos dias. Uma estrada que antes, em tempos de paz, levava 5 horas. Sob o sol escaldante, sem comida ou água, ficamos parados no meio do campo por 4 dias em uma enorme fila. Crianças pequenas, idosos e calor enlouquecedor. E os fascistas russos que decidem o destino do povo… libertá-las ou não. E aqueles que escapam recebem tiros por trás. Tivemos sorte, escapamos! Depois atravessamos uma zona cinzenta, uma cidade completamente vazia, e cães… cães famintos à espera de um pedaço de pão de quem passa.

E chegamos ao nosso primeiro posto de controle, ucraniano! Lágrimas de alegria… emoção… Não podemos acreditar que já estamos entre os nossos… Nossos soldados nos recebem, nos tranquilizam, apertam nossas mãos e prometem que libertarão definitivamente nossa cidade e poderemos voltar para casa.

Alguns dos que chegaram têm que voltar para trazer mais familiares e amigos. E assim sucessivamente… com o risco de voltar a cair sob o fogo dos ocupantes.

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