ter set 27, 2022
terça-feira, setembro 27, 2022

O imperialismo aceita repartir a Ucrânia com Putin

Para Putin a invasão da Ucrânia tem o objetivo de defender a todo custo seu papel de intermediário dos interesses do imperialismo e de gendarme regional, como fez no Cazaquistão e Bielorrússia recentemente. O objetivo é amenizar a crise econômica que atinge o país de maneira estratégica. Ele foi estimulado pela derrota militar dos EUA no Afeganistão, para se colocar este objetivo agora.

Por: Américo Gomes

O imperialismo norte-americano com seus aliados mais disciplinados (Canadá e Inglaterra) quis aumentar a subordinação do imperialismo europeu e principalmente da Alemanha aproveitando-se do fato de ter uma menor dependência do petróleo e gás russo. No início Biden lançou algumas sanções econômicas parciais, se apresentando como o defensor do povo ucraniano e tentando iludir a classe trabalhadora de que estaria a favor de derrotar Putin; mas a situação mudou, após a derrota de Putin em Kiev, e o consequente prolongamento da guerra. Por outra parte, utilizaram a invasão para fazer investimentos bilionários em armamentos. Ao mesmo tempo em que nega o envio de armas em quantidade suficiente para reduzir as diferenças de armamento entre Ucrânia e Rússia, aproveitam para se armar até os dentes e fortalecer a OTAN, enviando um número de soldados recorde à Europa, incorporando Finlândia e Suécia, e aumentando seu controle militar sobre países como a Polônia, que agora terá uma base da OTAN em seu território.

O imperialismo alemão junto a seu aliado francês, que tem o leste europeu como seu pátio traseiro e a Rússia como seu parceiro comercial no fornecimento de gás e petróleo para todo o continente não quer uma derrota da Rússia, e é o que mais defende uma solução rápida.

O acordo que tem todos estes imperialismos e suas instituições como a União Europeia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) hoje, é que todos querem que a guerra termine rapidamente, inclusive aceitando a cessão de uma parte importante do território ucraniano a Putin. E tratam de convencer ao governo Zelensky a aceitar essa perda. Pois sabem que a extensão do conflito golpeia a economia mundial de conjunto, que já vem debilitada com as consequências da pandemia[1]. Além de insuflar movimentos reivindicatórios em todo o mundo.

Nenhum deles contava com a bravura da resistência ucraniana que estende o conflito e traz prejuízos para todos. Ela derrotou o Plano A da ofensiva russa, e a continuação da guerra levou a um agravamento da crise energética e econômica na Europa. Zelensky é o agente do imperialismo dentro da Ucrânia e pretende cumprir seu papel de uma ou outra maneira já que a classe trabalhadora e o conjunto da população, tendo se fortalecido com a resistência popular na região de Kiev e a derrota de Putin naquela região não aceitam dividir o país, nem quebrar a integridade nacional. Isso obrigou Zelensky a chamar a resistir à invasão, e até agora não ter podido capitular. Mas a negociação segue em curso.

É ilusão pensar que o imperialismo queira derrubar Putin. Mesmo depois da invasão, seguiram negociando para que a guerra fosse encerrada. Hoje sua proposta é conter Putin no marco de aceitar que ocupe toda uma parte da Ucrânia. Pois o principal objetivo foi e continua sendo garantir que os negócios estejam fluindo bem.

Além disso, o triunfo da resistência ucraniana provocaria uma crise aguda no regime de Putin e até sua possível queda. E poderia abrir processos revolucionários não só na Ucrânia, mas também na Rússia sem que o imperialismo tenha tempo de um recambio controlado. Estes processos impactam sobre toda a Europa do Este e a própria Europa Ocidental mesmo.

Imediato embargo do petróleo e do gás com a suspensão dos pagamentos

Neste marco, é que podemos entender a “solução de compromisso” feita pela Comissão Europeia no final de maio. Proposta que inicialmente foi apresentada por Macron e consiste em, supostamente, eliminar 90% do consumo do petróleo e o gás russo na Europa no final do ano (ou seja, quando eles esperam que já não haja mais guerra). Ao mesmo tempo, se exclui o oleoduto Druzhba de um embargo; só impondo sanções ao petróleo enviado para a UE por navio-tanque. O oleoduto Druzhba representa um terço de todos os fornecimentos de petróleo da UE provenientes da Rússia. Esta proposta beneficia a Alemanha e seus satélites: Eslováquia, República Tcheca e Hungria, fornecedores de produtos para a indústria alemã, que são abastecidos pelo oleoduto Druzhba. Ou seja, apesar de dizer que apoia a resistência ucraniana, a União Europeia continua enchendo o caixa de Putin e de fato sustentando a sua guerra.

Apesar das ditas sanções e proibições de importação, a Rússia exportou US$ 97,7 bilhões em combustíveis fósseis nos primeiros 100 dias desde a invasão da Ucrânia, a uma média de US$ 977 milhões por dia. Desde a invasão, o petróleo foi de longe a exportação de combustível fóssil mais valiosa da Rússia, respondendo por cerca de metade da receita total de exportação.[2]

Enquanto isso, o imperialismo europeu faz demagogia anunciando que vai enviar 2 bilhões (no máximo) como total da ajuda militar e social para a Ucrânia[3].

O petróleo bruto russo é transportado em navios-tanque e uma rede de oleodutos para a Europa. A Rússia é responsável por 41% de todas as importações de gás natural para a UE. O bloco da UE respondeu por 61% da receita de exportação de combustíveis fósseis da Rússia desde o inicio da guerra. Alemanha, Itália e Holanda – membros da UE e da OTAN – estavam entre os maiores importadores.

As sanções da UE não impedem as operadoras europeias, importadoras de gás, de abrir uma conta em rublos no Gazprombank[4]. O que já foi feito pelas gigantes de energia, como a italiana Eni SpA[5], a alemã Uniper da Alemanha e a OMV da Áustria[6]. O Sinara Investment Bank, com sede na Rússia, comunicou: “Embora as medidas anunciadas pela União Europeia pareçam ameaçadoras, não vemos um impacto paralisante no setor de petróleo russo[7]. Para viabilizar este fluxo, as sanções adicionais aos bancos russos, realizadas em maio, não incluem o Gazprombank, que é por onde passa o pagamento do gás.

Com isso a Bolsa russa e a moeda, após um início de crise, se recuperou e o fluxo de dinheiro continua beneficiando-se inclusive da alta dos preços de combustíveis no mercado internacional.[8]

Veículos da própria burguesia imperialista, como a revista alemã Der Spiegel afirmam que: “Houve surpresas desagradáveis ​​para ele (Putin) nas forças armadas. Mas as coisas estão indo melhor nos negócios e nas finanças.”[9]

As sanções contra a Rússia devem causar uma contração inferior a 7% do PIB que se compararmos com o “colapso” de 45-50% do PIB que a Ucrânia está enfrentando por causa da invasão, perderemos de vista como os combatentes ucranianos estão sendo prejudicados.[10]

As medidas econômicas (sanções) do imperialismo contra a Rússia, assim como foram as sanções da Liga das Nações contra a Itália em 1935, apesar do discurso agressivo, são parciais e não tem o objetivo de derrotar a invasão militar, e sim debilitar militar e economicamente o governo de Putin. Assim como as que foram aplicadas na guerra da Etiópia, na década de 30 do século passado, deixaram de fora setores fundamentais e estratégicos da economia como o petróleo e o gás.

O imperialismo europeu sustenta o exército de Putin e tem suas mãos sujas de sangue do povo ucraniano. O atual chanceler, Scholz tenta se justificar: “não vejo de forma alguma que um embargo de gás acabaria com a guerra. Se Putin fosse receptivo a argumentos econômicos, ele nunca teria começado essa guerra insana”.

Incondicional envio de armas para a resistência ucraniana;

As tropas russas atualmente concentraram-se quase exclusivamente no Leste da Ucrânia, lançando uma grande ofensiva, mas ainda há resistência ucraniana em Donetsk e Lugansk. Os combates mais duros estão em Severodonetsk e Lysychansk, com os russos fazendo bombardeios intensos, ataques aéreos e uma artilharia pesada.

Mas as armas prometidas pelo imperialismo não chegam: aviões, artilharia, lançadores de foguetes, tanques, veículos blindados, mísseis antinavio, drones. Tudo que é necessario para possibilitar a vitoria ucraniana.

O chanceler alemão Scholz continua a falar sobre enviar seus tanques Leopard, mas nada acontece, nem mesmo os 5.000 capacetes que prometeram, chegaram, assim como “As armas que o governo espanhol nos prometeu em Madri não chegaram”[11].

Conclusão: as forças armadas de Putin superam, em equipamento, de forma aplastante os ucranianos em qualquer medida que seja escolhida.

Precisamos obter mil sistemas de artilharia porque a Rússia tem 10.000. Se temos centenas de algo, eles têm milhares. Temos que lutar contra isso”. “Estou feliz que Scholz nos prometeu seu melhor sistema de defesa antiaérea, o IRIS-T, para outubro. O problema é que não sabemos o que será de nós em outubro”, conclui o deputado Klympush-Tsintsadze[12].

TODO APOIO A RESISTÊNCIA UCRANIANA

Pela derrota militar da Rússia

Por isso é um dever das organizações do movimento operário que apoiam a resistência ucraniana denunciar o deficiente envio de armas por parte do imperialismo, exigir mais armas para Ucrânia; e a ineficácia das sanções imperialistas, que vão até onde estão os interesses dos países imperialistas, é fundamental exigir o embargo das importações de petróleo e gás como a imediata suspensão de seu pagamento.

Junto com isso a ruptura das relações diplomáticas e comerciais com estes países, vinculando com nosso programa que coloca a necessidade que os grandes burgueses ‘oligarcas’ sejam confiscados, e o conjunto deste patrimônio seja posto a serviço da resistência e reconstrução da Ucrânia, sob o controle da classe trabalhadora, para estarem à disposição da resistência ucraniana. Exigimos que a dívida externa ucraniana tenha que ser imediatamente eliminada.

Fazer exigências não é antagônico a exigir “sanções operárias” ou “boicotes dirigidos pelos trabalhadores”, contra o governo e a máquina militar russa.” Por isso é fundamental apoiar e informar a toda classe as ações dos trabalhadores que através de suas organizações boicotam os produtos russos.

A começar pelo petróleo e o gás, é exemplar o que fizeram os portuários da Inglaterra, Suécia e Holanda que se recusaram a descarregar petróleo proveniente da Rússia. Devemos dar destaque às declarações de seus dirigentes que este petróleo vem “sujo de sangue do povo ucraniano”, porque está servindo para financiar o exército russo. E cada vez mais, é necessário multiplicar ações como o comboio de solidariedade que a CSP CONLUTAS e os sindicatos da Rede Sindical enviaram aos trabalhadores ucranianos.

[1]          https://www.publico.pt/2022/06/24/mundo/noticia/alemanha-faz-soar-alarmes-riscos-ataques-economicos-putin-2011313?utm_content=Editorial&utm_term=Novo+Banco+contratou+empresa+de+lobbying+para+gerir+crises+de+reputacao.+Zelensky+substitui+embaixadora+em+Portugal&utm_campaign=59&utm_source=e-goi&utm_medium=email

[2]          https://elements.visualcapitalist.com/importers-of-russian-fossil-fuels/

[3]          https://ec.europa.eu/info/strategy/priorities-2019-2024/stronger-europe-world/eu-solidarity-ukraine/eu-assistance-ukraine_en

[4]          https://www.tagesschau.de/wirtschaft/unternehmen/gas-rubel-sanktionen-gazprom-uniper-rwe-shell-101.html

[5]          https://www.aljazeera.com/economy/2022/5/16/eu-gives-companies-green-light-to-buy-gas-from-russia

[6]          https://www.prensalatina.com.br/2022/04/27/dez-compradores-de-gas-russo-na-europa-abriram-contas-em-rublos/

[7]          https://www.usatoday.com/story/news/world/2022/05/31/ukraine-russia-live-updates/9998948002/

[8]          https://www.theguardian.com/world/2022/apr/27/russia-doubles-fossil-fuel-revenues-since-invasion-of-ukraine-began

[9]          https://www.spiegel.de/international/world/putin-s-disaster-and-what-could-happen-next-a-e8c89bfa-b7a3-4e32-908a-7642a301eda6?sara_ecid=nl_upd_1jtzCCtmxpVo9GAZr2b4X8GquyeAc9&nlid=bfjpqhxz

[10]        https://time.com/6176748/ukraine-war-economy/

[11]        https://elpais.com/internacional/2022-06-18/ucrania-alerta-de-que-solo-podra-ganar-la-guerra-si-occidente-acelera-el-envio-de-armas.html?sma=newsletter_radar_20220625?event_log=oklogin

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