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quarta-feira, agosto 10, 2022

Colômbia| Nas urnas derrotamos a ameaça autoritária, nas ruas conseguiremos a mudança

A vitória de Gustavo Petro e Francia Márquez no segundo turno das eleições presidenciais é indubitavelmente produto da luta nas ruas na Paralisação Nacional. É a expressão eleitoral do descontentamento de amplos setores da população com a repressão e a violência política, a falta de oportunidades e a pobreza crescente; esse  descontentamento que se expressou principalmente como “antiuribismo” levou Petro e Hernández ao segundo turno e deu a Petro a vitória definitiva.

Por: PST-Colômbia

As massas celebraram a vitória massivamente nas ruas,  em um fato sem precedentes na história do país, e celebraram com razão, pois é uma vitória em primeiro lugar sobre o projeto autoritário de Rodolfo Hernández, candidatura improvisada diante do desespero da burguesia frente à crise de seus partidos e suas figuras. É uma vitória histórica sobre o uribismo. A derrota eleitoral do uribismo depois de 20 anos de hegemonia no poder é um golpe que o deixa ferido embora ainda com vida.

A massiva presença de milhares de pessoas nas ruas, celebrando a vitória de Petro e Francia demonstra altas expectativas e esperanças, de que enfim poderemos “saborear a vida”. Expectativas em um governo que consideram seu, que esperam que seja a voz dos ninguém, um governo diferente da elite que governou este país há mais de 200 anos.

Mas esta vitória é uma vitória indireta e distorcida das massas, no campo desfavorável do antidemocrático sistema eleitoral, não produto da luta direta nas ruas. Apesar da alegria e expectativa das massas, não há uma confiança cega. Depois do anúncio da vitória de Petro, a presença de milhares que espontaneamente em poucas horas  encheram as ruas e praças, se reencontraram instintivamente depois de mais de um ano nos pontos de encontro da paralisação nacional, mostra uma extraordinária capacidade de mobilização e convocatória. Mostram que o processo iniciado no 21N de 2019 e que teve seu maior momento em abril-maio de 2021 continua vivo e que, para os lutadores, as eleições foram uma batalha em meio a uma luta que se iniciou com as paralisações nacionais.

Acompanhamos estas expressões de vitória das massas diante da derrota eleitoral do uribismo e da fração burguesa mais à direita, e sentimos sua celebração como uma demonstração de poder e de força, que serão muito necessárias para continuar o caminho. Mas também sabemos que nem o uribismo está derrotado, nem a burguesia de conjunto.

Petro comprometido com o capitalismo

O governo de Petro já está comprometido, não com os milhões de trabalhadores e setores populares que votaram nele, mas com a burguesia e o imperialismo e assim o demonstrou em seu discurso vitorioso, anunciando o que propõe em seu governo. Em uma clara divisão de tarefas, o discurso de Francia focado nos oprimidos tenta colher as expectativas do “saborear a vida” e o fervor popular, conectado com o sentimento de milhões. Mas o discurso de Petro é outra coisa, além do importante chamado à libertação dos jovens detidos que é urgente e necessário, em meio aos chamados à reconciliação, sua verdadeira mensagem não estava focada nas massas que o elegeram mas no chamado à construção de uma Frente Ampla, dirigida aos seus opositores na campanha eleitoral, com o objetivo de tranquilizar a burguesia e o imperialismo, nervosos diante da vitória de um candidato que não provém de suas entranhas.

Petro proclama a política do amor entre todos os colombianos(ricos e pobres, exploradores e explorados, opressores e oprimidos). Porém, para além do romanticismo, o discurso do amor tem um conteúdo claro, significa um projeto de conciliação de classes, inclusive com a possibilidade de impunidade dos crimes do Estado.

Para que não fiquem dúvidas e tranquilizar o grande capital, reitera-se o compromisso do Governo com o desenvolvimento do capitalismo. E não é que Petro tenha ocultado previamente seu projeto de desenvolvimento capitalista, sempre o disse, a questão é que entre Petro candidato e Petro presidente, o segundo terá que aplicar seu projeto de conciliar os interesses antagônicos do povo explorado e os grandes exploradores, o que na prática não funciona como no discurso. Na realidade terminará cedendo parte não apenas de seu programa, mas de seu governo para garantir a governabilidade. Nós, pelo contrário, e como explicamos antes, estamos seguros de que é utópico humanizar o capitalismo.

Para acalmar os mercados especulativos que já começam a se alterar (sobe o dólar, caem as ações da Ecopetrol), anuncia os possíveis ministros aos quais chama de “técnicos”, eufemismo para dizer que não serão líderes dos setores sociais que o acompanharão, mas personagens com experiência em aplicar o neoliberalismo em governos anteriores, como Hommes ou Alejandro Gaviria, mostrando que a cara do governo será Petro e Francia, mas o conteúdo e o programa serão burgueses e capitalistas.

Poucas horas depois de eleito, recebeu a chamada do presidente Duque para aceitar a vitória e felicitá-lo, a burguesia reconheceu plenamente a vitória da oposição e ativou o plano C (o plano B era Hernández), que consiste em negociar, encurralar e manter o governo sob seu controle. Embora haja setores recalcitrantes da direita que atacam Petro e Francia nas redes, ou que desconheçam sua vitória, a realidade é que a decisão majoritária da burguesia é a de manter seus negócios sob (e a partir do)  novo governo. O presidente da ANDI (arqui-inimigo dos trabalhadores colombianos) em 20 de junho manifestava seu desejo de trabalhar com Petro de mãos dadas “para fazer avançar o país”. Aos seus novos melhores amigos soma-se o presidente dos Estados Unidos, Biden, quem telefonou poucas horas depois dos resultados. Este fato que não ocorria desde que Bush telefonou à Uribe para felicitá-lo, quando foi eleito presidente, mostra o flerte inegável do imperialismo com o novo gabinete da Colômbia. Pode-se confiar em alguém que é “amigo” do presidente dos Estados Unidos, comandante em chefe do imperialismo mundial?

Então, por um lado estará a pressão do povo nas ruas, por outro estarão seus novos amigos burgueses e imperialistas. Como Petro e Francia se comportarão? As massas estão na expectativa.

Durante a campanha, quando anunciamos nosso voto crítico, apontamos também que não confiaríamos nem apoiaríamos seu eventual Governo de Frente Popular, e é justamente porque conhecemos estas experiências no passado e estamos convencidos de que esta política não resolverá os problemas da população. A política de co-governo se inclinará a favor dos mais poderosos, ou seja, da burguesia, como demonstrado nas experiências dos chamados “governos alternativos” na América Latina.

Exigir solução às demandas da Paralisação Nacional

Os trabalhadores foram fundamentais para a vitória de Petro e Francia, milhões depositaram sua confiança em seu governo. Mas a classe operária tem que se comportar de forma independente de seu governo. Este tipo de governo, junto com as dificuldades e perigos que coloca, abrirá um período com muitas oportunidades para aprofundar a luta, mostra que a situação aberta com a paralisação nacional de 2019 continua viva (que caracterizamos como antessala de um processo revolucionário mais profundo), e favorecerá a organização e luta dos trabalhadores, dependendo da organização independente e decidida. Os comitês, assembleias populares e outras expressões de organização surgidas na Paralisação Nacional e na campanha eleitoral devem ser convertidas em organizações independentes de base para as lutas.

Certamente, a fração burguesa que perdeu as eleições e suas expressões mais à direita, resistirão a perder o poder e seus privilégios. E se sentirem que o governo de Petro ameaça algum de seus interesses, certamente recorrerão a qualquer meio para impedi-lo, inclusive com violência política, em especial se Petro tomar medidas visando democratizar o regime político, redistribuir parte da riqueza, ou castigar os responsáveis pelos crimes de Estado.

Porém as direções sindicais burocráticas ligadas ao Comitê Nacional de Paralisação não demorarão em chamar à “calma” e a dosar a mobilização a serviço da “governabilidade”. Tentarão evitar que a lutas continuem e se aprofundem, sendo um grande obstáculo. Temos que aprofundar a organização e a luta mas de forma independente do Governo.

As reivindicações da Paralisação Nacional não esperam, e não podem ser solucionadas com o programa liberal de Petro, nem através de alianças com nossos verdugos. É necessário derrotar o regime autoritário e sanguinário herdado do uribismo, e sabemos que isso só é possível com a luta nas ruas.

Hoje o regime é cruel com os jovens da Primeira Linha, que estão sendo detidos e criminalizados. Temos que exigir sua libertação, e se o Ministério Público se opuser, exigiremos com mobilização; temos que parar o derramamento de sangue de lutadores sociais e a violência no campo; temos que exigir do novo governo medidas para o desmonte do paramilitarismo.

A carestia e a inflação não dão trégua, agravada pela desvalorização do peso, atacam diariamente os trabalhadores. O ajuste do salário ficou ultrapassado e é necessário lutar por um verdadeiro aumento e controle de preços da cesta básica. Requer um plano de emergência contra a crise econômica, social e ambiental, cujo financiamento poderia ser feito deixando de pagar a dívida externa.

Será que Petro enfrentará a burguesia, que hoje estende sua mão hipócrita, para se jogar por uma mudança de regime político? Enfrentará banqueiros, empresários e latifundiários? Até agora disse que não. Pelo contrário, propõe uma Frente Ampla de conciliação.

Em síntese, para conseguir “saborear a vida”, será necessário ir além das propostas de governo de Petro, inclusive contra várias delas. Se aprendemos algo da paralisação nacional é que os direitos são conquistados na luta e que não ganharemos nas urnas o que ganhamos nas ruas. O mais certo é que setores próximos ao Governo digam que aqueles que chamarem para mobilizar ou exigir, estão fazendo o jogo da direita, ou que devemos deixar Petro governar tranquilamente, que temos que esperar…,etc.

A classe operária, junto aos setores populares, devem buscar na luta e na mobilização, o caminho para um verdadeiro governo operário e popular, construindo um partido e um programa revolucionários que nos levem a derrotar o principal obstáculo para que todos possamos “saborear a vida”: o capitalismo em decadência.

Comitê Executivo do Partido Socialista dos Trabalhadores

25 de Junho de 2022

Tradução: Lilian Enck

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