sex ago 12, 2022
sexta-feira, agosto 12, 2022

Os primeiros meses de Gabriel Boric

A eleição de Gabriel Boric gerou importantes expectativas dentro e fora do Chile.

Por: MIT-Chile

Em seu discurso ao assumir a presidência da República, Boric reconheceu os graves problemas que afetam a maioria da população trabalhadora: as baixíssimas aposentadorias geradas pelo “negócio” das AFPs; a seca causada pelos grandes empresários; a situação de abandono de idosos e crianças; a dor das famílias que continuam buscando seus detidos desaparecidos; as graves violações dos direitos humanos causadas nos últimos anos, que, em suas palavras, “nunca mais voltariam a se repetir”, etc.

Citando os presidentes “progressistas” da história chilena, Boric prometeu um governo para “acabar com os abusos que, muito e com razão, indignaram o povo” e reconheceu que sua eleição só foi possível devido às enormes mobilizações sociais.

A eleição de Boric, um jovem de 35 anos e ex -líder estudantil, também gerou grande simpatia em diferentes países, onde a juventude e a classe trabalhadora lutam por melhores condições de vida e contra as desigualdades do capitalismo.

Passaram mais de dois meses desde o início de seu governo. Embora não existam condições para fazer um balanço profundo de sua gestão, que está apenas se iniciando, já é possível identificar qual será o caminho do governo e fazer um balanço de suas primeiras medidas.

A Nova Concertação

Em primeiro lugar, é importante destacar que Boric não governa sozinho. O Partido Comunista é o braço direito (ou esquerdo, como preferir) de Boric desde o início de sua campanha presidencial. Depois do primeiro turno, o governo incorporou também diferentes partidos da ex Concertação à sua coalizão, como o Partido Socialista, o Partido Radical e outros. A distribuição de ministérios e secretarias desde o início deixou evidente que a antiga Concertação teria um peso relevante no governo. Um dos principais Ministérios, o da Fazenda, ficou nas mãos de um representante do grande capital, Mario Marcel.

Em outro artigo analisamos, a partir da composição do novo governo e suas propostas, a serviço de quem este governo estaria. Até agora a realidade nos deu razão, inclusive mais rápido do que pensávamos.

A quinta retirada e as aposentadorias

Um dos primeiros desafios do governo foi a votação da quinta retirada[1] no Parlamento. Como já sabemos, a maioria da classe trabalhadora é contra o atual sistema de aposentadorias/pensões, controlado pelas Administradoras de Fundos de Pensões (AFPs) e empresas de seguro privadas. Este sistema demonstrou, nos últimos 30 anos, ser uma enorme fonte de lucros para seus donos e uma verdadeira tragédia para a classe trabalhadora, pagando valores miseráveis aos aposentados.

Assim, desde o início da pandemia, a maioria de nós trabalhadores exigimos a retirada de nossos fundos de poupança para financiar nossas necessidades, já que entendemos rapidamente que nós trabalhadores deveríamos “nos virar sozinhos”. O medo de uma nova explosão social fez com que o Congresso aprovasse as 3 primeiras retiradas de 10%, com a férrea oposição de Piñera. Boric, a Frente Ampla e o Partido Comunista defenderam as retiradas e votaram a favor de todas as retiradas até a quarta, quando Boric ainda não era presidente. Em sua opinião, o que justificava a quarta retirada era que a Renda Familiar de Emergência (IFE) tinha acabado e a população continuava precisando retirar suas economias para poder sobreviver.

Entretanto, sua posição mudou totalmente com a quinta retirada, quando já estava no governo. E não é que a população hoje esteja em melhores condições, que os salários tenham aumentado qualitativamente ou que exista algum abono como o IFE de Piñera. Nada disso. Simplesmente Boric passou a priorizar os interesses dos donos das AFPs e não do povo trabalhador.

Assim, a quinta retirada foi rechaçada na Câmara, com votos contrários da maioria do Partido Comunista, Frente Ampla e abstenções do Partido Socialista. A manobra do governo de propor uma “quinta retirada com pré-requisitos”, só em caso de pagamentos de dívidas ou compra da primeira moradia, também não conseguiu os votos necessários. Assim, as AFPs ficaram tranquilas e nós trabalhadores continuamos sem acesso ao nosso dinheiro poupado, que continuará proporcionando suculentos lucros às AFPs. Somente entre janeiro e setembro de 2021, as AFPs tiveram lucros de mais de 283 bilhões de pesos, enquanto todos os Fundos de poupança tiveram perdas, que “naturalmente” são repassadas para nossas aposentadorias. Assim, se perpetua o roubo de nossas aposentadorias, agora sob um governo “de esquerda” que supostamente é “contrário às AFPs”.

O rechaço à quinta retirada foi a primeira decepção de uma parte importante dos trabalhadores com o novo governo.

O aumento dos preços e a pícrica resposta do governo

Outra questão que afeta diretamente a maior parte da população trabalhadora é o aumento dos preços. O Instituto Nacional de Estatísticas (INE) já reconhece uma  inflação de 10,5% nos últimos doze meses. Todos nós trabalhadores sabemos que esse dado é totalmente inferior à realidade. Um  relatório de Ciper do mês passado demonstra que no caso de muitos produtos da cesta básica, como açúcar, leite, óleo, ovos, café e outros, os aumentos vão de 20% até 90% em alguns dos principais supermercados usados pela população.

A resposta do governo tem sido totalmente insuficiente. A primeira medida anunciada por Boric foi o aumento da bolsa de alimentação dos estudantes, de 32.000 para 37.000 pesos mensais, o que gerou uma verdadeira chuva de memes irônicos na internet. A segunda medida foi anunciar um “histórico” aumento do salário mínimo, de 350.000 a 380.000 em maio e 400.000 a partir de agosto. Embora o aumento seja superior ao dos governos anteriores, é totalmente insuficiente para as necessidades de uma pessoa adulta e menos ainda de uma família. A Fundación Sol  calcula que para superar a linha da pobreza, o salário mínimo bruto deveria ser de 640 mil pesos. Outro cálculo da mesma Fundação Sol demonstra o que pode ser custeado com um salário mínimo de 380 mil pesos: 1 quilo de pão por dia, ir e voltar do trabalho, o aluguel de um quarto e pagamento de contas básicas e impostos. Ou seja, um salário mínimo de 380 mil pesos é totalmente insuficiente para a manutenção mínima de uma pessoa no Chile hoje.

Ao mesmo tempo em que nós trabalhadores devemos escolher entre a manteiga ou o pão, os grandes empresários ganham rios de dinheiro. Os lucros da mineração privada, principal setor econômico do país, têm sido estratosféricos. Com o preço do cobre nas nuvens, as empresas mineradoras ganharam dezenas de bilhões de dólares de lucros. Embora os dados de 2022 ainda não sejam públicos, certamente os lucros serão iguais ou maiores que os de 2021. É fundamental lembrar, como já denunciamos inúmeras vezes, que os lucros declarados pela grande mineração privada são totalmente maquiados devido aos diferentes mecanismos ilegais que as grandes mineradoras usam para não pagar impostos (ver mais informações aqui). No caso do lítio, os lucros de Sociedade Química e Mineira do Chile  – SQM (do ex -genro de Pinochet, Ponce Lerou) aumentaram em 1.170%  durante o primeiro trimestre de 2022.

Essa realidade de “saque” do país é reproduzida em todos os demais setores da economia. Os acionistas das grandes empresas receberam bilhões de dólares na divisão dos lucros enquanto o povo não consegue chegar ao fim do mês. Há poucos dias vimos a trágica notícia de um grupo de migrantes na cidade de Arica que teve que caçar um lobo marinho para alimentar-se. A este nível chegamos.

A situação dos presos políticos

Outra decepção importante com o governo de Boric tem relação com a situação dos presos políticos. Embora Boric tenha  reconhecido  a existência de presos políticos no Chile e fez duras críticas à justiça chilena durante sua campanha, as ações de seu governo em relação a esta questão são totalmente insuficientes. Em seus primeiros dias como presidente, Boric anunciou que o Estado retiraria as 139 denúncias por Segurança Interior do Estado interpostas no contexto da explosão social. Essa medida não incidiu em nenhum dos atuais presos políticos.

A própria Corte Suprema reconhece que hoje existem 29 pessoas em prisão preventiva por causas relacionadas à “explosão social” e mais de 36 acusados cumprindo diversas medidas cautelares. Isto sem considerar as dezenas de condenados. Estes números são totalmente questionados pelos familiares de presos e pelo movimento social, que dizem que o número é muito superior. O próprio Boric durante sua campanha trabalhou com os dados compilados por familiares e organizações de Direitos Humanos.

A estes números somam-se os vários casos de montagens comprovadas onde os acusados foram absolvidos depois de passar meses ou anos em prisão preventiva, como Mauricio Cheque (absolvido depois de 13 meses preso), Axel Pizarro (absolvido depois de 8 meses preso) e Daniel Morales (absolvido depois de 10 meses preso). Embora tenha reconhecido em sua campanha que a justiça chilena não cumpriu seu papel de julgar “imparcialmente” os acusados, Boric hoje permite que muitos jovens chilenos e mapuche lutadores sociais continuem nas prisões.

Boric, como presidente da República, tem a faculdade de indultar individualmente a cada um dos presos políticos. Entretanto, ao invés de fazer isto, deixa para o Congresso a responsabilidade de aprovar o projeto do indulto que há meses se encontra totalmente empantanado em suas diferentes Comissões. Enquanto dezenas de jovens e mapuche continuam encarcerados em péssimas condições sanitárias, centenas de Carabineiros e políticos responsáveis por assassinatos, mutilações e torturas continuam soltos pelas ruas do Chile. E não apenas isso, um dos responsáveis pela repressão durante o governo de Piñera, o general e comandante em chefe dos Carabineiros, Ricardo Yañéz, foi reafirmado em seu posto por Gabriel Boric.

A militarização de Wallmapu e a repressão aos protestos

Em seu discurso ao assumir a presidência, Boric reconheceu a grave situação vivida no sul do país. Abaixo citamos textualmente suas palavras:

“… não é o conflito mapuche. É o conflito entre o Estado chileno e um povo que tem direito de existir. A solução não é, nem será a violência. Trabalharemos incansavelmente para reconstruir a confiança depois de tantas décadas de abuso e de despojo. O reconhecimento da existência de um povo com tudo o que isso implica, será nosso objetivo e o caminho será o diálogo, a paz, o direito e a empatia com todas as vítimas…”

Embora tenha pronunciado esse discurso em 11 de março de 2022, pouco mais de dois meses depois, suas ações apontam no sentido totalmente contrário. Foi com grande surpresa que o povo mapuche e a classe trabalhadora chilena recebemos a notícia de um novo Estado de Exceção nas regiões de Bíobio e Araucanía decretado por Boric. Novamente um governo, agora “progressista”, envia tropas das Forças Armadas para cumprir o papel de “resguardar” a ordem pública interna.

Por que Boric mudou tão rapidamente seu discurso e principalmente suas ações? O que há por trás do novo Estado de Exceção?

O governo justifica suas ações dizendo que a situação de “violência” no sul obrigou-o a decretar um novo Estado de Exceção. A Ministra do Interior, Izkia Siches, por sua vez, tenta “amenizar” a situação dizendo que este governo não “quer ser o governo onde um militar mata um comuneiro”. Entretanto, a realidade é mais crua que as “afáveis” palavras da Ministra. O Estado chileno foi responsável, nos últimos anos, pelo assassinato de vários comuneiros mapuche no contexto do mal chamado “conflito mapuche”…e aparentemente a história não mudará com o novo governo.

Basta ter um pouco de conhecimento sobre a história do “conflito mapuche” para saber que o governo decretou o novo Estado de Exceção respondendo à enorme pressão da burguesia agrícola, florestal e dos sindicatos patronais dos caminhoneiros, que precisam “pacificar” a zona para manter a produção e circulação do capital, o que lhes permite receber enormes lucros. Para que se tenha uma ideia, apenas em 2021, as empresas CMPC, da família Matte e uma das principais produtoras de celulose do país, tiveram lucros de mais de 500 milhões de dólares. Só as grandes indústrias florestais/de papel possuem mais de 3 milhões de hectares no sul. É por isso que todos os governos precisam manter “a paz” na Araucanía.

Essa “receita” só trará benefícios aos grandes empresários, enquanto que a tendência é que o povo mapuche e suas organizações de recuperação territorial se radicalizem ainda mais.

Hipocritamente, o governo anuncia, junto ao Estado de Exceção, um plano de “bem viver” para essas regiões. Parte desse plano é o aumento do orçamento da Conadi (Corporação Nacional de Desenvolvimento Indígena) para compra de terras do povo mapuche. Segundo o divulgado, o governo “dobrará” o orçamento para esse fim, chegando a um montante de 35 bilhões de pesos.

Essa “grande medida”, entretanto, será totalmente insuficiente para acabar com o “conflito”. Hoje um hectare de terra nessas regiões custa entre 7 e 11 milhões de pesos. Com o novo orçamento destinado à Conadi, o governo poderia financiar a compra de mais ou menos 4000 hectares, enquanto que a própria Conadi reconhece demandas por mais de 270 mil hectares por comunidades mapuche, número que é muito inferior ao que realmente as comunidades reivindicam. Se o atual orçamento da Conadi se mantiver, demorariam quase 70 anos para satisfazer a demanda mínima de terras reconhecida pela Conadi. E este “modelo” de compra de terras tem outro problema: acaba transformando-se em um grande negócio para os proprietários atuais, que poderão vender suas terras por valor de mercado quando muitas vezes as usurparam através de documentos falsos ou as compraram a preço de banana no final da ditadura, como é o caso de todo o setor florestal, que recebeu subsídios inescrupulosos nas últimas décadas.

Cada vez fica mais evidente que o verdadeiro plano do governo não é devolver as terras ao povo mapuche, o que o levaria a enfrentar-se com os grandes capitalistas. Seu verdadeiro plano, já anunciado pela Ministra Izkia Siches, é investir em inteligência e repressão para desarticular os grupos armados mapuche que recuperam terras, como a CAM (Coordinadora Arauco-Malleco), enquanto dá algumas migalhas para tentar acalmar a população mapuche da região. Não temos dúvidas de que o conflito se intensificará e possivelmente veremos este governo assassinar e encarcerar mais lutadores mapuche, como fizeram todos os anteriores.

Por outro lado, da mesma forma que envia militares ao sul, Boric mantém a violenta repressão à luta popular e dos trabalhadores. Dois exemplos recentes disso foram a dura repressão à greve dos trabalhadores do subcontrato da Enap (Empresa Nacional do Petróleo). Ordenada pela delegada presidencial da região e também a repressão à marcha classista de 1º. de Maio, que terminou com a morte de Francisca Sandoval nas mãos de grupos mafiosos que controlam o comércio ambulante e, pelo que tudo indica, tem inescrupulosas relações com a polícia.

Em relação ao “conflito mapuche” e à repressão às mobilizações sociais, não podemos identificar nenhuma mudança substancial entre Boric e Piñera.

O papel da Nova Concertação na Convenção Constitucional

Ao mesmo tempo em que o novo governo se inicia, vamos chegando aos últimos meses da Convenção Constitucional. A coalizão de governo – PS, FA, PC (Partido Socialista-Frente Ampla-Partido Comunista) teve uma oportunidade histórica de mudar o país dentro da Constituinte. Esse setor, somado ao setor independente e de esquerda da Constituinte, tinha mais de ⅔ dos votos, o necessário para aprovar todas as demandas populares na Nova Constituição.

Entretanto, não foi isso o que fizeram. Em muitas das votações mais importantes, esses partidos, em particular a Frente Ampla e o Partido Socialista, votaram junto com a direita contra as reformas que afetavam os interesses dos grandes empresários e a institucionalidade burguesa atual.

Assim, votaram contra as propostas que acabam com o negócio das empresas privadas de saúde e educação. Votaram contra a possibilidade dos trabalhadores de retirar a totalidade de seus fundos de aposentadorias/pensões. Votaram contra a transferência de dinheiro das AFPs ao futuro Sistema Público de Seguridade Social, o que teria sido um golpe mortal às AFPs. Também votaram contra terminar com o subcontrato. Votaram contra a libertação dos presos políticos. E o mais escandaloso, votaram contra a nacionalização da grande mineração do cobre e lítio, o que teria permitido ao Estado ter em mãos bilhões de dólares para financiar direitos sociais e outro modelo de desenvolvimento social, que não dependa do setor “extrativista” exportador de matérias primas.

Ao mesmo tempo em que votavam contra praticamente tudo o que pudesse se chocar com os interesses dos donos do Chile, votavam a favor de manter a estrutura do Estado atual e a propriedade privada dos grandes grupos econômicos. Assim, quiseram enganar o povo dizendo que o Senado tinha acabado, quando na verdade só mudaram seu nome e algumas atribuições. Dizem que todos os direitos sociais agora serão garantidos, mas não dizem como vão financiá-los. Dizem que devolverão terras e territórios aos povos originários, mas mantém o direito de propriedade privada no centro da Constituição, com pagamento prévio de indenizações no caso do Estado ter que expropriar qualquer propriedade de grandes empresários ou latifundiários. Dizem que são democráticos, mas votaram contra a participação de independentes no futuro Congresso. Dizem que querem um país mais independente e soberano, mas votaram para manter nas mãos dos presidentes a assinatura dos Tratados de Livre Comércio, sem qualquer participação popular.

Todas essas votações são públicas e os trabalhadores e jovens que acompanharam a Convenção Constitucional puderam dar-se conta ao vivo do que acontecia. Livros e mais livros serão escritos sobre o atual processo constitucional. A conclusão de todos eles não poderá ser diferente: esses partidos tiveram a oportunidade histórica de mudar o Chile e não quiseram, porque se submeteram aos interesses do grande empresariado chileno e estrangeiro.

O Partido Comunista, por sua vez, foi muito mais oportunista. Embora em muitas oportunidades tenha aparecido como o partido do governo mais à esquerda, votando em propostas mais radicais, essas posições eram apenas uma cortina de fumaça para defender sua verdadeira política, que é a aliança com a grande burguesia e seus partidos. Assim, na Convenção, o PC votava a favor das propostas mais à esquerda (que se sabia que não seriam aprovadas por não terem o apoio do PS/FA) mas acabava também votando a favor das propostas mais nefastas que iam no sentido contrário ao que supostamente estavam defendendo. Para citar um exemplo: ao mesmo tempo em que votaram a favor da nacionalização da grande mineração do cobre  também votaram a favor de que o Estado, no caso de expropriar empresas, deve pagar as indenizações  antecipadamente aos proprietários de tais bens. Ou seja, no caso de que fosse aprovada a nacionalização do cobre, o Estado teria que desembolsar dezenas de bilhões de dólares antecipadamente para tornar-se dono das grandes mineradoras (que já recuperaram 10 ou 20 vezes seus investimentos nas últimas décadas). Assim, enquanto diziam estar a favor da nacionalização, na realidade deram seus votos para uma norma muito mais nefasta (que foi aprovada) e que inviabiliza nacionalizar as grandes mineradoras ou expropriar terras para devolvê-las ao povo mapuche.

Por outro lado, seu discurso inicial de “cercar” a Convenção Constitucional com mobilizações ficou nisso: puro discurso. Em nenhum momento o PC usou seu peso social e político para convocar mobilizações fora da Convenção que pudessem pressionar os constituintes a aprovar as demandas populares.

Da mesma forma que atuam na Convenção, atuam no governo. Hoje dizem ser amigos do povo mapuche, mas apoiam o envio de tropas das Forças Armadas para reprimir a luta pela recuperação de terras. Ao mesmo tempo em que dizem defender a nacionalização do cobre, a porta voz do governo, sua militante Camila Vallejo, aparece na televisão dizendo que a nacionalização não é parte de seu programa.

Em resumo, o que podemos concluir é que o principal objetivo do pacto que hoje governa o país – a Nova Concertação – não é, e nunca foi, mudar de fundo a realidade da maioria da população trabalhadora, acabando com as enormes desigualdades e o domínio das 10 famílias mais ricas e das transnacionais sobre o Chile. Seu objetivo vai ficando cada vez mais evidente: desviar as mobilizações para um beco sem saída da institucionalidade burguesa, reconstruindo o “pacto social” que permita à grande burguesia continuar saqueando o país.

As lutas dos trabalhadores e estudantes mostram o caminho

Mas nem tudo são más noticias. Nas últimas semanas, vários setores de trabalhadores e da juventude mostraram que o povo não está esperando sentado que as mudanças venham do novo governo ou da Convenção Constitucional.

Os trabalhadores subcontratados da ENAP deram um exemplo de luta e organização nas últimas semanas, buscando melhores condições de trabalho e também lutando pelo seu acordo base, o que questiona diretamente a lógica do subcontrato, exigindo negociações diretas com a empresa mandante (Enap). Estes trabalhadores têm sido duramente reprimidos pelos Carabineiros, sob ordens da delegada presidencial de Boric no Bíobio, mas continuam em greve e mobilizados. Esta luta deve ser um exemplo para os subcontratistas de todo o país. Já é hora que revivamos o grande movimento que deu origem às lutas mineiras, florestais e portuárias contra o subcontrato e pela dignidade dos trabalhadores.

Nos últimos meses, na mineração, também ocorreram diversas paralisações espontâneas de trabalhadores, muitas vezes sem apoio dos sindicatos. Em Chuquicamata subterrânea, depois de diferentes paralisações, os trabalhadores subcontratados conseguiram formar o Sindicato Interempresa da Mineração – SIM 18 de outubro – . Este Sindicato nasce ao calor da luta e pelas reivindicações imediatas e históricas dos trabalhadores da mineração. Por isso, o sindicato vem sofrendo uma intensa perseguição sindical, com a separação de seus principais dirigentes do seus postos de trabalho. Até agora conseguiram reincorporar 2 dos 3 dirigentes, mas ainda fica a luta pela reincorporação de Edu Gallardo e sua reintegração à seu posto.

Enquanto vão ressurgindo as mobilizações, a maioria das organizações que deveriam defender os interesses dos trabalhadores continuam apáticas, como a CUT (Central Unitária de Trabalhadores) ou a Confederação dos Trabalhadores do Cobre. A CUT prioriza sentar-se à mesa com o governo e os empresários da CPC (Confederação da Produção e do Comércio) para negociar a nova reforma de aposentadoria/pensões e o salário mínimo. Novamente, repete a fracassada fórmula de conciliação de classes com o grande empresariado em detrimento da organização e mobilização da classe trabalhadora. Já a Confederação de Trabalhadores do Cobre, importante Confederação surgida nas lutas dos trabalhadores subcontratados da mineração, se encontra completamente paralisada e afastada das bases. Seu principal dirigente, Manuel Ahumada, foi nomeado para uma Subsecretaria Regional do Trabalho do Trabalho em Santiago pelo governo, embora não pudesse assumir por não cumprir os requisitos exigidos pelo Estado. Como Miguel Ahumada, são vários os exemplos de dirigentes sindicais próximos à coalizão do governo que assumiram cargos no aparato estatal e abandonaram a luta e organização dos trabalhadores. Isto para não falar da maioria das organizações sindicais da classe trabalhadora que estão completamente corrompidas pelas burocracias sindicais e sobrevivem das migalhas da patronal.

Por outro lado, os estudantes também voltaram a manifestar. Hoje diversos colégios foram ocupados, há mobilizações das estudantes contra o assédio e também da juventude pelo aumento das bolsas de alimentação. Todas elas duramente reprimidas.

Vai ficando cada vez mais evidente que nem a Convenção Constitucional nem o novo Governo solucionará os problemas da classe trabalhadora e da juventude. Com o término da Convenção Constitucional, os trabalhadores e a juventude teremos que tomar uma posição em relação ao Plebiscito de 4 de setembro. Entretanto, ganhe o Aprovo ou o Rechaço, a realidade vem demonstrando que só com luta e organização será possível conquistar as mudanças que queremos. Isto nunca foi diferente.

As trabalhadoras, a juventude e os setores populares devemos reconstruir nossas organizações territoriais e sindicais para unificar nossas demandas em uma grande mobilização nacional, recuperando o caminho de 12 de novembro de 2019, quando a luta organizada das e dos trabalhadores e do povo pôde obrigar o governo e os partidos do regime a conceder o atual Processo Constituinte.

Devemos caminhar para unificar todos os movimentos sociais e de trabalhadores/as sob um programa de luta, que em nossa opinião, deveria conter os seguintes pontos:

1) Aumento do salário mínimo para 630 mil pesos imediatamente e 700.000 no final de 2022. Aumento imediato das bolsas de alimentação estudantil no nível do salário mínimo. Estes aumentos devem ser financiados com a confiscação dos lucros das grandes empresas, que hoje só servem para enriquecer as 10 famílias donas do Chile e os capitalistas internacionais;

2) Perdão total da dívida CAE (Crédito com Garantia Estatal), que sobrecarrega as famílias trabalhadoras. Boric deve cumprir sua promessa agora. Não podemos espera 5 ou 10 anos mais;

3) Congelamento de preços dos produtos da cesta básica, transporte público, combustíveis e contas de água, gás e luz;

4) Fim do subcontrato e incorporação de todos os trabalhadores à planta;

5) Fim imediato das AFPs e transferência dos Fundos para um sistema público de aposentadorias/pensões, sem afetar as poupanças individuais dos trabalhadores;

6) Plano imediato de expropriação de terras de grandes latifundiários e empresas florestais, sem indenizações e devolução das terras reivindicadas pelo povo mapuche;

7) Redistribuição das águas tendo como prioridade o consumo humano, a recuperação da natureza e os pequenos agricultores. Basta de monocultura!

8) Fim do Estado de Exceção em Wallmapu;

9) Anistia a todos os presos políticos chilenos e mapuche;

10) Nacionalização do cobre e lítio sob controle dos trabalhadores e do povo para investir em moradia, saúde e educação e criar um Fundo para que o país deixe de depender da exportação de matérias primas.

[1] Significa o quinto saque excepcional de 10% dos recursos da AFP (Fundo de Aposentadorias e Pensões), das respectivas contas individuais de capitalização de contribuições obrigatórias. NdT.

Tradução: Lilian Enck

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