seg nov 28, 2022
segunda-feira, novembro 28, 2022

Mulheres ucranianas: “butim” do capitalismo

Na guerra a violência não toma a forma apenas de bombas, não se realiza apenas sobre os territórios, não destrói apenas alvos estratégicos. Na guerra essa violência sempre se consuma inclusive sobre o corpo das mulheres: vimos isso na Bósnia em 1992 e em Ruanda em 1994, mas também na Síria, Iêmen, Birmânia, Nigéria, Somália, Congo, recentemente no Afeganistão. Infelizmente, o vemos também hoje na Ucrânia. Existem mulheres que combatem e que apoiam a resistência popular contra a agressão russa. Existem mulheres fugindo e caminhando dia e noite com os seus filhos nos braços para coloca-los em segurança sem saber se encontrarão ajuda ou se encontrarão algum outro perigo. Existem mulheres estupradas, espancadas, vítimas de violência em seu país e nos países onde são acolhidas. Existem mulheres que dão a luz em condições extremas e pelas quais carregarão consequências por toda a sua vida.

Por: Laura Sguazzabia

A violência sobre o corpo das mulheres

Na guerra as mulheres frequentemente se tornam “butim”[1] a ser roubado do inimigo, algo a mais a conquistar, e na guerra o estupro é frequentemente utilizado como uma real e verdadeira arma: violar o corpo das mulheres é um modo de humilhá-las e puni-las por causa do apoio que estão dando à resistência, como mães, esposas, filhas de combatentes ou – como no caso da Ucrânia – elas mesmas como combatentes; é um modo de quebrar o adversário que é punido pelo próprio fato de opor-se. Vimos e denunciamos isso na Palestina quando até altos expoentes do governo israelense incitavam os soldados a violar as mulheres palestinas, culpadas por gerar novos combatentes da causa. E ainda antes o vimos na Bósnia, onde as mulheres eram duplamente humilhadas, primeiro com a violência sexual e depois com a obrigação de levar a gravidez, consequência do estupro, até o final.

 O roteiro infelizmente está se repetindo também na Ucrânia. As mulheres que ficaram estão enfrentando a ameaça do estupro usado como arma de guerra: provas crescentes de violência sexual aparecem nas áreas reconquistadas das forças russas em retirada. Nesse momento é obviamente difícil quantificar a magnitude da violência sexual, mas enquanto as tropas russas se retiram das cidades e das periferias em torno da capital para reorientar o esforço militar, cada vez mais mulheres e meninas estão aparecendo para contar à polícia, à mídia e às organizações de direitos humanos as atrocidades que sofreram nas mãos dos soldados russos. Estupros coletivos, agressões ocorridas sob a ameaça das armas, estupros cometidos diante de crianças, homicídios após os abusos para silenciar as vítimas estão entre as denúncias que emergem dos relatos das sobreviventes e das reportagens fotográficas e jornalísticas. Relatos e imagens que estão girando pelo mundo, que se somam à magnitude do que está acontecendo a um povo que está resistindo à agressão armada de um inimigo militarmente mais forte e mais organizado.

Existem outros perigos graves dentro da Ucrânia. As quase 80.000 mulheres que deveriam dar a luz nos próximos três meses estão expostas ao risco de fazerem seus partos sem condições mínimas de segurança e higiene. Os nascimentos acontecem em condições deploráveis: por mais que se tente limpar e adaptar, um porão ou uma estação do metrô não são lugares ideais para um parto, não atendem as condições higiênicas mínimas e necessárias. Segundo as estimativas oficiais, se prevê que 11.000 dessas futuras parturientes possam ter complicações durante o parto e depois dele. Levando em consideração os danos causados aos edifícios e aos próprios hospitais, de fato, apenas a situação de que ocorram bombardeos já limita o acesso aos hospitais: as mulheres não ousam procurar assistência médica no meio de um bombardeio, logicamente. Ainda não está claro quantas mulheres sofreram abortos espontâneos, prolapso ou complicações derivadas da gravidez e do parto sem uma assistência médica adequada, colocando em risco a própria vida ou mesmo perdendo a vida nestas circunstâncias.

E nas estimativas oficiais, não entraram mulheres e crianças envolvidas no mercado das barrigas de aluguel, dado que a Ucrânia é um dos países europeus onde essa prática é permitida e praticada com uma dimensão considerável no mercado. Muitas famílias europeias renunciaram aos filhos das barrigas de aluguel deixando as mulheres grávidas sem cuidados médicos ou abandonando os recém-nascidos (segundo a lei ucraniana a adoção e/ou o reconhecimento da criança é possível apenas quando os futuros pais passam pelo menos duas semanas em território nacional).

Mas na guerra a violência infelizmente não tem fronteira. Até as mulheres que conseguem sair do território ucraniano encontram perigos sexuais. Segundo as Nações Unidas, mais de três milhões de pessoas fugiram da Ucrânia desde que a Rússia iniciou a sua invasão. A maioria são mulheres, a maior parte acompanhada de filhos ou de idosos ou de pessoas com deficiência. Na sua viagem à procura de salvação, no entanto, são frequentemente vítimas de ofertas de alojamento grátis ou de trabalho em troca de favores sexuais, como documentam diversos anúncios nas redes sociais, na Polônia, na Romênia, mas também na Itália. Basta entrar em um dos numerosos grupos que surgiram nas redes sociais para oferecer ajuda à população ucraniana para perceber que existem diversos anúncios perigosos, mais ou menos explícitos. As organizações presentes na fronteira ucraniana o denunciaram e relatam diversas dessas situações inclusive na Itália. Trata-se de iniciativas de indivíduos, ainda que numerosos, que se somam a uma ameaça muito maior nessa situação de extrema vulnerabilidade: a presença de redes de tráfico de pessoas, já operantes nos países vizinhos à Ucrânia.

O que fazer?

Kira Rudik, ex gerente da Amazon, agora parlamentar liberal e pró-europeísta (pró União Europeia) ucraniana, atualmente na Ucrânia alinhada contra a invasão russa, durante uma coletiva de imprensa há poucos dias, dirigindo-se aos comentaristas que sugeriram a condução de uma investigação em conformidade com as regras de guerra, exclamou com raiva e estupor: “Está me falando da Convenção de Genebra com relação às pessoas que mataram e estupraram mulheres diante de crianças? Está me falando da Convenção de Genebra, está brincando? O mundo está nos vendo morrer e você está falando da Convenção de Genebra!”.

Infelizmente, não, não se está brincando. Impressiona o espanto de Rudik porque se dirige a um mundo do qual faz parte e do qual continua a partilhar interesses e ideais: o mundo capitalista que mesmo nessa circunstância fez as próprias contas e decidiu não intervir, mas para lavar sua consciência e para não parecer totalmente indiferente, acena as suas bandeiras: as soluções institucionais, reformistas e burguesas. Aquelas mesmas soluções que na vida cotidiana culpabilizam cada mulher vítima de estupro, impedem as mulheres de um livre controle da sua própria capacidade reprodutiva, as condenam à pobreza e à dupla jornada de trabalho, as tornam frágeis e débeis social e fisicamente. A pandemia ontem, a guerra na Ucrânia hoje ampliaram o fato de que não há nenhum interesse por parte dos governos pela condição das mulheres, em especial por aquelas da classe trabalhadora, e que nem em paz nem em guerra nenhum governo se ocupará realmente de nós.

As mulheres ucranianas estão sofrendo, mas o seu sofrimento nos está indicando o caminho a seguir: a luta armada de um povo agredido, unido, em comunidade, lado a lado. Enquanto combatem e sofrem pela defesa e independência do seu país, avançam na conquista dos seus direitos. A sua coragem, a sua determinação, o seu sacrifício não são fatos novos na história da humanidade, mas demonstram mais uma vez que as mulheres quando lutam, o fazem com mais força porque as correntes que devem quebrar são duplas e mais grossas.

Como LIT-QI iniciamos uma campanha internacional de apoio à resistência dos trabalhadores, das mulheres e do povo ucraniano contra a invasão russa e faremos tudo o que pudermos para que as tropas russas sejam derrotadas, sem que isso represente algum apoio ou confiança política no governo de Zelensky nem na burguesia ucraniana que chama a resistir à invasão. Pedimos a todos os proletários do mundo o apoio a essa campanha, a mobilização para que sejam entregues à resistência ucraniana as armas e todo o material que necessitam (munição, alimento, remédios) diretamente e sem nenhuma condição.

[1]  Butim: conjunto de bens materiais e de escravos, ou prisioneiros, que se toma ao inimigo no curso de um ataque, de uma batalha, de uma guerra, Ndt.

Tradução: Nívia Leão

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