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O que estamos prestes a contar é a verdadeira e pouco conhecida história de um texto fundamental da história do movimento operário: a Introdução de Engels ao livro de Marx As lutas de classes na França 1848-1850.

Por: Francesco Ricci

É uma história que poderia ter sido inventada pela imaginação de Edgar Allan Poe: cartas desaparecidas, um testamento falsificado, enganos e erros e, finalmente, a solução do caso, não pelo monsieur Dupin, mas por David Riazanov e outros historiadores que conseguiram desvendar o mistério.

Esse texto de Engels é de 1895 e se passaram mais de 120 anos desde a sua publicação, mas a grande maioria dos livros e artigos sobre a história do marxismo continua a fornecer uma versão alterada do mesmo. Milhares de livros, milhares de artigos continuam contando uma história inventada desse texto. Já é uma lenda.

No entanto, é importante conhecer a verdadeira história dessa Introdução, porque a lenda serviu, e ainda serve, por mais de um século, a todos os oportunistas para justificar o seu oportunismo, para cobrir com a autoridade de Engels sua renúncia (explícita ou implícita) à perspectiva de uma conquista revolucionária do poder pela classe operária, seu abandono de um programa fundamental do marxismo: o domínio (ou ditadura) do proletariado como fase de transição para uma sociedade sem classes e, portanto, o fim da exploração do homem pelo homem.

Bernstein, o primeiro falsificador

É curioso que o primeiro a falsificar a história da Introdução tenha sido Eduard Bernstein, ou seja, a pessoa escolhida por Engels como executor de seu testamento literário. Bernstein, bancário, com confusas ideias, mais liberais do que socialistas, tinha aderido aos eisenachianos em 1871, como era chamado o partido socialdemocrata liderado por August Bebel e Wilhelm Liebknecht (pai de Karl, que foi morto em 1919, juntamente com Rosa Luxemburgo, pelo governo “de esquerda” que eles pretendiam derrubar). Os eisenachianos [de Eisenach, o local onde o partido foi fundado, ndt] eram próximos às posições de Marx e Engels e, em 1875, fundiram-se com o partido de Lassalle no Congresso de Gotha.

Como muitos dos líderes eisenachianos, Bernstein tinha um conhecimento superficial do marxismo e, também por isso, o partido fundado em Gotha nasceu com base em um programa que Marx dedicou uma dura crítica pelas muitas concessões feitas ao lassalleanismo (1). A formação marxista do grupo dirigente alemão foi tardia e baseada essencialmente na leitura do Anti-Dühring de Engels (1878).

Em 1881, Bernstein tornou-se diretor do Der Sozialdemokrat de Zurique e seus artigos naquele jornal conquistaram a confiança de Engels, tornando-se em breve, juntamente com Karl Kautsky (de quem foi amigo e mestre), seu principal colaborador. Engels confiava tanto em Bernstein que o nomeou seu testamenteiro literário. Bernstein e Kautsky, também com base na consideração que Engels tinha por eles, tornaram-se assim, depois da morte do companheiro de Marx, a principal referência teórica para toda a socialdemocracia organizada na Segunda Internacional.

Mas, em 1896, ou seja, um ano após a morte de Engels, Bernstein começou a publicar no Die Neue Zeit (principal revista teórica do partido alemão) uma série de artigos nos quais, de maneira cada vez mais forte, ataca questões fundamentais do marxismo de Marx e Engels. Esses artigos, lidos com crescente irritação por Kautsky (diretor da revista), são por fim sistematizados e publicados em um livro intitulado As Premissas do Socialismo e as Tarefas da Socialdemocracia (1899), que causou sensação na Internacional (2).

A tese de fundo do livro é clara: precisamos rever o marxismo, rejeitando dele a parte “envelhecida” e o que Bernstein define como os “esquemas da dialética”, e substituir a perspectiva da derrubada revolucionária da sociedade (teorizada em todo o trabalho e a vida de Marx e Engels) pela democratização gradual da sociedade, pelo parlamento.

Em alguns anos, o principal colaborador de Engels tornou-se o principal teórico de um “socialismo liberal”. Inicialmente, suas teorias não encontraram uma aceitação explícita no partido, graças ao total repúdio por parte de Kautsky (3).

Kautsky finalmente convenceu-se de que Bernstein era “irrecuperável para o marxismo” (como ele escreveu em várias cartas para outros líderes), mas temia que uma ruptura imediata e completa pudesse consolidar o setor revisionista ao redor das posições de Bernstein. Este setor foi crescendo na sombra do grupo parlamentar, que era cada vez mais numeroso e com uma prática sindical cada vez mais moderada.

O Congresso do SPD em Dresden, em 1903, condenou as posições revisionistas por ampla maioria e, nessa ocasião, August Bebel pronunciou uma acusação dura contra Bernstein. Mas as posições revisionistas, derrotadas em teoria, forçaram seu caminho em grandes setores do SPD: no sul da Alemanha, por exemplo, o partido votava regularmente pelos orçamentos dos governos burgueses; nos sindicatos liderados pelo SPD, as posições reformistas dominavam a atividade diária. E foi o próprio Bebel que, em 1907, abriu a porta para o conceito de “defesa nacional”, que levaria, sete anos mais tarde, ao colapso da Segunda Internacional, em 1914, com o voto pelos “créditos de guerra”, e assim ao apoio da maioria dos partidos socialdemocratas aos seus “próprios” governos envolvidos no massacre da Primeira Guerra Mundial. Mas voltaremos em outra oportunidade à história da socialdemocracia alemã; no momento, vamos nos deter na famosa Introdução e no uso que Bernstein fez dela.

A opinião de Bernstein em seu livro é: nos anos 1840 e 1850, Marx e Engels ainda estavam fortemente influenciados por posições “blanquistas” (veja o sentido deste termo mais abaixo), ou seja, viam a revolução como um golpe dado por uma minoria; porém, com a experiência adquirida, foram se afastando desse conceito e buscando a via parlamentar para o socialismo que, em suas palavras, Engels teria teorizado (embora não completamente) na Introdução que estamos comentando. A socialdemocracia, segundo Bernstein, deveria manter-se no caminho indicado pelo professor pouco antes de sua morte.

O erro de Rosa Luxemburgo

Diante de um Bernstein brandindo a Introdução como uma espada com a qual despedaçava o marxismo, os marxistas defendiam a teoria e prática de Marx e Engels, mesmo se sentindo desconfortáveis diante daquele texto que, objetivamente, era incompatível com sua estratégia.

Em 1899, em seu “anti-Bernstein”, o famoso Reforma ou revolução?, Rosa Luxemburgo fala de uma “revisão das táticas” de Engels, afirmando também que o texto nunca se refere a uma mudança de estratégia e maneja com um desconforto indisfarçável algumas contradições que o texto de Engels (ou melhor, o texto conhecido na época) contém (4). A grande revolucionária, em resumo, não hesita em defender o Engels revolucionário, mas não sabe bem como tratar a Introdução.

Vários anos mais tarde, no auge da revolução alemã, no Congresso de fundação do Partido Comunista Alemão (KPD), em 31 de dezembro de 1918, Rosa Luxemburgo pronuncia o Discurso sobre o programa, no qual uma parte importante é dedicada à Introdução de Engels (5). Aqui, claramente, Luxemburgo toma distância da Introdução: “Eu não quero dizer com isso que Engels, por causa destas declarações, tenha responsabilidade pessoal por todo o curso do desenvolvimento na Alemanha. Eu apenas digo: este é um documento clássico das concepções dominantes na socialdemocracia alemã, concepções que se tornaram fatais a ela“.

No entanto, tampouco neste caso, Luxemburgo entrega Engels aos revisionistas, e acrescenta que é preciso notar que “Engels escreveu o prefácio sob a pressão direta da bancada parlamentar no Reichstag“. E ela estava convencida de que, se ele não tivesse morrido logo depois, Engels teria protestado contra o uso que foi feito de seu texto. Ao afirmar isso, Rosa não sabia que estava muito próxima da verdade, uma verdade que ainda era ignorada naqueles anos, tanto por ela quanto pelos outros grandes revolucionários.

É importante lembrar que o debate sobre a Introdução desenvolvido ao longo da primeira parte do século XX não era puramente filológico, feito por intérpretes do marxismo. Pelo contrário, foi um debate de massas, intimamente entrelaçado com o retrocesso da socialdemocracia. Já em 1910, também Kautsky, considerado o “papa vermelho” da Internacional, depois de ter inicialmente combatido Bernstein, desloca-se progressiva e continuamente à direita. A partir desse ano (ou seja, o ano seguinte à publicação de Der Weg zur Macht [O Caminho do Poder], um livro ainda substancialmente marxista e reivindicado por Lenin, mesmo contendo ambiguidades), o confronto na Segunda Internacional deixava de ser apenas entre revolucionários e reformistas, mas se estendia para compreender a batalha contra as posições do “centro”, onde precisamente Kautsky se colocava. E, antes de Lenin, foi a própria Rosa Luxemburgo (que tinha a “vantagem” de conhecer diretamente o retrocesso do SPD, onde militava) que denunciou o “centrismo” de Kautsky.

Kautsky começou, nesse período, a teorizar sobre a existência de diferenças entre “Oriente e Ocidente”. Alterando a posição que sustentava até há poucos anos, indicava a Revolução Russa de 1905 como uma experiência única e diferente (Oriente), ao contrário das táticas e estratégias necessárias na Alemanha e no resto do “Ocidente”. Ele foi o primeiro a teorizar uma “estratégia de desgaste” diferente (embora não contraposta na época) da “estratégia de aniquilação”. Não temos aqui a possibilidade de aprofundar este debate, mas basta dizer que esse argumento kautskista seria retomado anos mais tarde (embora parcialmente modificado) por Gramsci nos Cadernos do Cárcere, e seria usado (também para além das intenções de Gramsci) pelos reformistas liderados por Togliatti [do PC italiano, ndt] e, finalmente, seria ressuscitado pelo eurocomunismo nos anos 1970.

Foi assim que Kautsky e Bernstein, duelistas no debate do início do século XX, encontram-se juntos em 1917 no partido centrista USPD (nascido de uma ruptura do SPD) e sentam-se juntos como subsecretários do governo de “esquerda” que assassinou Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht e afogou em sangue a primeira revolução alemã.

Lenin também cai na ambiguidade

São raras as referências de Lenin à Introdução de Engels em textos escritos antes de 1917. É mencionada em um artigo de 1901, Outro massacre, no qual debita a Engels (mesmo que especificando que era uma consideração relativa somente à Alemanha daquele período) o conceito de que “a luta de rua contra o exército moderno é impossível e sem esperança” (6). Este conceito realmente apareceu no texto da Introdução, tal como era conhecido na época. Outra menção à Introdução está em uma carta de 1916, escrita por Lenin para a líder bolchevique Inessa Armand, na qual enfatiza como o texto de Engels “foi distorcido em Berlim contra a sua vontade” (7).

Mas Lenin não faz referência à Introdução em seu livro mais importante daqueles anos, O Estado e a Revolução (publicado somente após a tomada do poder, mas que inspirou o giro bolchevique sinalizado pelas Teses de Abril, que mudaram o curso histórico de 1917), embora este livro consista de uma reconstrução cronológica detalhada das posições de Marx e Engels sobre o assunto do Estado.

A falta de referência a esse texto engelsiano é ainda mais significativa se se considerar que no “caderno azul” (O marxismo e o Estado), compilado em Zurique entre janeiro e fevereiro de 1917, um resumo de 48 páginas com todas as principais citações de Marx e Engels sobre o assunto, um esquema geral de O Estado e a Revolução, Lenin cita a Introdução, e também se refere a uma importante carta de 3 de abril de 1895. Nessa carta, Engels lamenta a Lafargue por Liebknecht (pai) ter lhe “pregado uma peça”, ao publicar no Vorwarts seu texto mutilado. Lenin também cita outra carta (de 1º de abril de 1895), neste caso a Kautsky, na qual Engels pede que o Die Neue Zeit publique seu texto integralmente.

Portanto, Lenin, em 1917, sabia que o texto da Introdução havia sido manipulado de alguma maneira pelos líderes socialdemocratas, mas não conhecia os fatos em detalhes e, sobretudo, não conhecia o texto original (que seria publicado apenas após sua morte), e então prefere não mencioná-lo [em O Estado e a Revolução, ndt]. Também para Lenin, em suma, a Introdução é um texto embaraçoso e dificilmente utilizável. De qualquer forma, Lenin exclui que ela tenha significado um “ponto de inflexão” do velho Engels e por isso abre O Estado e a Revolução sublinhando que “a necessidade de educar sistematicamente as massas nessa ideia (…) da revolução violenta é a base de todos os ensinamentos de Marx e Engels“. Em seguida, dedica uma grande parte do livro (em especial o capítulo IV: A degradação do marxismo pelos oportunistas) para demonstrar (em parte a si próprio, uma vez que ele percebeu o “centrismo” de Kautsky apenas quando explodiu) que também o Kautsky anterior à guerra, que aparecia como defensor da “ortodoxia” contra Bernstein, já havia sido infectado pelos germes do oportunismo.

Analisando o retrocesso que agora fica evidente ao longo dos livros de Kautsky, Lenin entende que o problema não era o que Kautsky tinha escrito, mas o que “escondera“, o que “fez desaparecer” (as expressões entre aspas são de Lenin): ou seja, a necessidade de “quebrar” a máquina de Estado burguesa e substituí-la pela ditadura do proletariado, a necessidade que Marx já havia expressado nos artigos de As lutas de classes na França, antecipando em teoria (por vinte anos) o que os trabalhadores parisienses de então traduziram na prática com a Comuna de 1871.

O interesse de Trotsky pelo assunto

Sendo toda a questão da Introdução muito intrincada, e no momento ainda parcialmente desconhecida, tanto Trotsky quanto Rosa Luxemburgo e Lenin, convencidos de que esse texto “destoava” do resto das obras de Engels e de toda a sua prática de líder revolucionário, avançaram em algumas críticas cautelosas.

Em seu livro sobre a revolução de 1905, Trotsky faz uma rápida menção crítica à Introdução (8). Depois, o tópico voltou a interessar-lhe, quando Riazanov publicou o texto original de Engels. Em uma carta de 1931 a seu filho Lev Sedov, um de seus principais assessores, Trotsky escreve: “Preciso da publicação de Riazanov (…) O que precisamos acima de tudo é a revista do Instituto [Marx-Engels, que Riazanov dirigia, ndt] na qual Riazanov restaurou o texto exato do prefácio de Engels a As lutas de classes na França” (9). Como Sedov não conseguiu obter a revista do Instituto, Trotsky, depois de algumas semanas, reescreve a seu filho sugerindo-lhe encontrar, pelo menos, a edição alemã: “é possível encontrar este livro na Alemanha. Seria desejável ter este livro (…)” (10).

Em 1935, sabendo do fato (embora, como veremos, apenas em parte), Trotsky voltou ao tema em um artigo que refuta toda leitura de um Engels gradualista. E afirma categoricamente: “a famosa Introdução de Engels (…) deu origem a inúmeras controvérsias. Na época, os alemães o alteraram e cortaram por um problema de censura. Nos últimos quarenta anos, filisteus de todas as cores afirmaram centenas e milhares de vezes que o ‘próprio Engels’ aparentemente renegou de uma vez por todas os velhos ‘métodos românticos’ da luta de rua. No entanto, se há algo que Engels essencialmente renegou foi a ideia do putsch, isto é, escaramuças fora de hora de uma pequena minoria; em segundo lugar, ele repudiou os métodos antiquados, ou seja, formas e métodos de luta de rua que não correspondiam ao progresso da tecnologia. (…) Era necessário que a terceira parte ou, melhor ainda, dois quintos do exército (…) fossem ganhos para o socialismo. Neste caso, a insurreição não será um putsch; as barricadas novamente serão utilizadas, claramente não as barricadas de 1848, mas as ‘novas’ barricadas que, sem dúvida, servem para os mesmos fins: parar a ofensiva do exército contra os trabalhadores e oferecer aos soldados a oportunidade e o tempo necessário para reconhecer o poder da insurreição e criar as melhores condições para o exército passar para o lado dos rebeldes” (11).

Mesmo ignorando muitos aspectos da atormentada história da Introdução de Engels, que contaremos em seguida, o chefe do Exército Vermelho compreendeu bem que Engels, apelidado não por acaso de “General”, só queria fazer considerações técnicas sobre a melhor forma de preparar a insurreição, como primeiro ato da revolução.

A gênese e a censura à Introdução

Ao contrário do que muitas vezes se lê, Marx não escreveu um livro intitulado As lutas de classes na França de 1848 a 1850. Tanto a escolha do título quanto a dos textos contidos nessa antologia foram feitas por Engels em 1895, a partir de uma seleção de artigos publicados na Neue Rheinische Zeitung (12).

A Introdução foi escrita por Engels entre meados de fevereiro e início de março de 1895. E é aqui que a história da falsificação começa. Para entendê-la, é necessário saber que Engels, ao escrever o texto, já impôs alguns limites para não criar problemas ao partido alemão, que vivia uma situação particular.

Em 1878, foram aprovadas leis especiais (sob o pretexto de uma alegada responsabilidade do SPD em ataques anarquistas contra o Imperador Guilherme I) na Alemanha de Bismarck. Essas leis levaram dezenas de líderes do partido à prisão, os círculos foram fechados, as publicações proibidas (como o famoso livro de Bebel, A mulher e o socialismo, de 1879, que foi lançado com a capa de outro livro). O SPD poderia continuar a apresentar-se às eleições, mas não poderia fazer propaganda direta ou reuniões do partido, e parlamentares eleitos não eram formalmente representantes do partido. O SPD teve que usar vários estratagemas, disfarçando a atividade política com as associações culturais e desportivas.

As leis especiais foram prorrogadas várias vezes e apenas foram suspensas em 1890, com a queda de Bismarck. Mas, em dezembro de 1894, o governo apresentou um projeto de lei “contra as atividades subversivas” e esse projeto entrou em discussão no parlamento apenas algumas semanas antes de Engels montar a antologia de Marx e escrever a Introdução.

Em 6 de março, Engels recebeu uma carta de Richard Fischer, líder do SPD e responsável pelas publicações do partido. Fischer pede a Engels para atenuar o tom de seu texto e fazer alguns cortes.

A resposta de Engels, em 8 de março, mostra sua preocupação com os argumentos usados por Fischer e vê neles uma atitude oportunista da direção do partido; uma falha semelhante àquelas que ele já combatia desde 1891, quando decidiu publicar a inédita Crítica do Programa de Gotha, de Marx, para preparar a batalha no iminente e importante Congresso que o SPD realizaria em Erfurt. Engels discute com Fischer e rejeita alguns pedidos de modificação, enquanto aceita outros.

É importante antecipar aqui, antes da reconstrução histórica que faremos, que esta troca de cartas entre Engels e Fischer não era conhecida por Rosa Luxemburgo, Lenin ou Trotsky, e que a resposta de Engels de 8 de março permaneceu inédita até 1967, quando foi publicada pelo historiador Hans Josef Steinberg (13).

A troca de cartas entre Engels e Fischer é muito importante, porque desmente totalmente várias teses falsas, não só a tese da “conversão” de Engels, mas a própria premissa dessa tese, ou seja, que a Introdução foi encarada por Engels como um “testamento”, no qual propõe uma mudança de estratégia. Mas as cartas também refutam aqueles que argumentam que, afinal, as alterações aceitas por Engels não mudaram a essência do texto. Esta última tese é destruída pela simples leitura da carta de Fischer de 6 de março. Nela, Fischer diz que acreditava ser necessário fazer cortes no texto, porque “(…) você mesmo deve admitir que um adversário mal-intencionado não teria dificuldades em apresentar, como a quintessência de seu texto, que: 1) se nós não fazemos a revolução atualmente é porque ainda não somos fortes o suficiente, porque o exército não está suficientemente infectado (…); 2) que, em caso de guerra ou qualquer outro conflito sério, nós levantaríamos, como no caso da Comuna, a bandeira da revolução contra o ataque do inimigo, etc.“.

O resumo de Fischer da versão original da Introdução é claro: embora Engels já se houvesse “autocensurado” para não dar mais pretextos para o governo aprovar novas leis especiais, o texto enviado para ser publicado, com algumas frases sinuosas, afirmava que: 1) era necessário preparar as forças na perspectiva da revolução; 2) era necessário “infiltrar-se” no exército, ou seja, ganhar uma parte dos militares para a causa socialista e, em seguida, “quebrar o Estado”; 3) em caso de uma nova guerra, o SPD teria de se alinhar contra o próprio Estado e contra o governo burguês, levantando “a bandeira da revolução contra o ataque do inimigo”.

Igualmente importante é a resposta de Engels, de 8 de março: “Eu levei em conta, na medida do possível, as suas graves preocupações. (…) No entanto, não posso admitir que você queira se submeter de corpo e alma à legalidade absoluta, legalidade a qualquer preço, legalidade até em relação a leis infringidas por seus próprios promulgadores. (…) Eu acho que você não tem nada a ganhar ao defender uma completa abstenção do uso da violência. Ninguém vai acreditar em você. (…) Eu também preciso levar em conta que os estrangeiros – franceses, ingleses, suíços, austríacos, italianos, etc. – também leem meus trabalhos e, de forma alguma, eu posso comprometer-me a tal ponto perante eles” (14).

Então, Engels admite a necessidade de alguma prudência tática na Alemanha naquelas semanas, mas rejeita decididamente a tentativa da liderança do partido de usar a situação para abraçar perigosas teorias “legalistas”, pacifistas, gradualistas. Acima de tudo, ele está preocupado porque sabe que seu texto seria lido pelos militantes das outras seções da Internacional e não queria que este fosse interpretado como a indicação de uma mudança de estratégia.

Em 14 de março, Fischer respondeu tentando diminuir as diferenças e, também, aceita o texto com as modificações que Engels, embora sem entusiasmo, tinha aprovado. Note-se, aliás, que, ao longo da troca de cartas, Fischer refere-se a Engels com o apelido pelo qual amigos e companheiros o chamavam: General. Um apelido que não se encaixa na imagem que, por mais de um século, têm tentado apresentar-nos, de um velho Engels que se voltou para o reformismo, que escreve esse “testamento” para defender uma via parlamentar para o socialismo.

O “erro vergonhoso”: a falsificação é somada à censura

Mas a história conturbada da Introdução não termina com os pedidos de censura de Fischer. Antes do texto duplamente censurado por Engels (a primeira vez durante a redação original, uma segunda vez após o pedido de Fischer) ser enviado para publicação, o principal jornal do SPD, o Vorwarts, publica um artigo com o título “Como as revoluções são feitas hoje em dia”, em 30 de março, no qual são selecionadas com cuidado algumas frases da Introdução tiradas do contexto, deformando uma vez mais o pensamento de Engels. O autor dessa operação é Wilhelm Liebknecht.

O General está furioso e começa a escrever cartas de protesto a todos os líderes alemães e de outras seções da Internacional, denunciando o abuso. Ao contrário da troca de cartas com Fischer, totalmente publicada apenas em 1967, a existência dessas cartas era pública desde 1909, como veremos.

Acrescentamos, no entanto, que não pode ser excluído que as cartas de nosso conhecimento não sejam todas as que, na verdade, Engels tenha escrito ou que nenhuma delas tenha sido destruída por seus executores (Bernstein e a liderança do partido), ou ainda perdidas. Porém, aquelas encontradas são suficientes para lançar mais luz sobre o fato (15).

Como vimos, Engels não estava nada satisfeito com os cortes feitos por Fischer e parcialmente aceitos. De fato, em uma carta a Kautsky, de 25 de março, ele escreve: “Meu texto sofre, até certo ponto, objeções apreensivas de nossos amigos em Berlim, por causa do Projeto de Lei de Subversão 428 – objeções que, nestas circunstâncias, eu tive que levar em conta“.

Mas a manobra de censura realizada por Liebknecht, sem qualquer aviso prévio, transforma Engels, como ele próprio denunciou em uma carta de 1º de abril a Kautsky, em um “pacífico defensor da legalidade a qualquer preço“. Trata-se de “um erro vergonhoso“, escreve Engels, que julga a censura de Liebknecht inaceitável. Por isso, acredita necessário que o texto completo seja publicado no Die Neue Zeit assim que possível.

Assinalamos aqui um ponto controverso: quando Engels pede a publicação no jornal dirigido por Kautsky, trata-se de sua versão original ou da versão com cortes que Fischer aceitou? Vamos tentar responder rapidamente.

É um fato que, no Die Neue Zeit, número 27-28 de 1895, a “versão Fischer” é publicada (que, repetimos, já havia passado pela autocensura de Engels e sofrido cortes parciais impostos pela direção do SPD).

Em 3 de abril, Engels escreveu a Paul Lafargue, dirigente da seção francesa, para dizer que “Liebknecht pregou-me uma bela peça. Tirou de minha Introdução (…) tudo o que poderia servir a ele para defender táticas pacíficas a qualquer preço e opostas ao uso da força e violência. Mas eu estou pregando essas táticas apenas para a Alemanha de hoje e mesmo assim com muitas reservas“. Em outros países, continua Engels, esta tática (ou seja, a utilização do parlamentarismo e espaços democráticos burgueses) não é aplicável hoje, “e na Alemanha ela poderia tornar-se inaplicável amanhã“.

A publicação da Introdução original

Foi necessário esperar 30 anos para que viesse à luz o texto da Introdução tal como escrito por Engels e enviado a Fischer, e que depois sofreria uma parte dos cortes pedidos a ele.

Foi o estudioso soviético David Riazanov, diretor do Instituto Marx-Engels, que publicou um artigo sobre o incidente no primeiro número da revista Unter dem Banner des Marxismus, em março de 1925, e que mais tarde publicaria o texto completo da Introdução, em 1930.

O artigo de Riazanov, no entanto, não explica a existência de duas etapas: em primeiro lugar, os pedidos de Fischer para cortar o texto; em seguida, a falsificação de Liebknecht no texto já autocensurado (16). Isso também é devido ao fato de que o próprio Riazanov não estava ciente de toda a troca de cartas com Fischer. Lendo seu artigo, pode-se pensar (e alguns assim o entenderam, acrescentando ambiguidade ao erro) que nas cartas a Kautsky e Lafargue, de 1º e 3 de abril, Engels estava se referindo à versão finalmente publicada no Die Neue Zeit e igualmente publicada no livro com os artigos de Marx, isto é, à que poderíamos definir como “versão Fischer”, enquanto seus protestos diziam respeito à falsificação exagerada de Liebknecht.

Um dos poucos que na época sabiam de toda a verdade e poderiam distinguir entre os dois episódios era Karl Kautsky, a quem Engels, como vimos, queixou-se dos pedidos de Fischer, assim como da “peça” pregada por Liebknecht. Mas, no prefácio à edição francesa de seu livro Le marxisme et son critique Bernstein (1899), Kautsky limita-se a negar que a Introdução pudesse ser lida como um “testamento” (17). E, dez anos depois, em 1909, em O caminho ao poder, ele faz referência à carta escrita por Engels para protestar contra os cortes de Liebknecht, mas não explica a troca anterior de cartas com Fischer e só faz uma breve menção sobre o pedido da direção do SPD a Engels para que se “autocensurasse” (18).

Outro que conhecia as diferentes etapas da história era, obviamente, Bernstein, mas este não podia revelá-la porque um dos pilares de sua revisão teria entrado em colapso: apresentar-se como o seguidor mais fiel da evolução de Engels. Então, para manter sua invenção do “testamento”, ele respondeu, em 1926, indiretamente à publicação de Riazanov, entregando à imprensa (ao Sozialistische Monatshefte) as cartas de Fischer a Engels de 6 e 14 de março, mas uma versão purgada. Assim, ele tentou confundir o fato mais uma vez, tentando provar que Engels fora avisado das mudanças. Era uma verdade parcial, tornada ainda mais parcial com a omissão da carta de Engels a Fischer de 8 de março. Desse modo, mantiveram-se ocultos seja o motivo pelo qual Fischer pediu os cortes (isto é, sua avaliação de que o texto era muito revolucionário!), seja a negativa de Engels a algumas modificações propostas, seja o esclarecimento de Engels sobre as modificações aprovadas (de má vontade), que não implicavam uma mudança de estratégia para o mundo inteiro.

Apenas em 1967, como já adiantamos, todo o fato foi compreendido graças à publicação completa da troca de cartas entre Engels e Fischer pelo historiador alemão Steinberg, na revista Review of Social History.

Seis introduções em lugar de uma

Como visto, o fato é mais emaranhado que um romance de Agatha Christie. Pois bem, como sempre faz Hercule Poirot na metade da história, vamos tentar resumir o que sabemos, e depois verificaremos como ainda hoje este fato é forjado, consciente ou inconscientemente, em grande parte, em livros muito recentes que discutem a questão.

Até agora, reconstruímos a existência de seis versões da Introdução de Engels. Vamos tentar enumerá-las.

Introdução n.o 1, é um texto virtual: o texto que Engels teria escrito se não tivesse se autocensurado para não criar problemas para o SPD naquele momento delicado de discussão de novas leis repressoras. Um bom filólogo poderia reconstrui-la, pelo menos em parte, examinando as correções de Engels em seu manuscrito. É claramente impossível conhecer as demais autocensuras que, pelas mesmas razões, Engels fez diretamente ao texto enquanto o escrevia. O importante, no entanto, é entender que também a versão considerada “original” foi escrita em uma situação social particular, que impedia a livre expressão.

Introdução n.2, é o primeiro texto que Engels enviou a Fischer. É um abuso falar deste texto como um “testamento”: seja porque Engels não queria propor qualquer mudança estratégica para alguma forma de gradualismo, seja porque, ao contrário, naqueles anos ele estava travando uma batalha (sua última batalha) contra o oportunismo e o gradualismo de alguns líderes do SPD. Mas voltaremos a isso em breve. Acima de tudo, é bom notar que Engels não suspeitava que sua morte ocorreria logo depois, como evidenciado pelo fato de que ele estava planejando uma série de outras obras, mencionadas em cartas, dando-lhes um peso maior que à Introdução. A Introdução teria tido um peso relativamente marginal para Engels, um dos inúmeros prefácios que escreveu para edições em várias línguas de seus textos e de Marx.

Introdução n.3, é outro texto virtual: seria a Introdução resultante das alterações requeridas por Fischer (isto é, pela direção do SPD), se fossem todas aceitas por Engels. É um texto que poderia facilmente ser construído a partir da troca de cartas entre Fischer e Engels.

Introdução n.4, é o texto de Engels reescrito a partir da aceitação de parte das alterações pedidas por Fischer. É um texto que não o deixa feliz (como explica a Kautsky na carta citada acima), porque poderia ser mal interpretado. Este é o texto que foi publicado no Die Neue Zeit e no livro com os artigos de Marx. Este é o texto que, durante anos, foi considerado a versão original. Até que Riazanov demonstrou que existia outra, publicando aquela à qual atribuímos aqui o número 2.

Introdução n.5, é o texto publicado no Vorwarts por Liebknecht, manipulando a Introdução n.o 4 até transformar Engels, como ele próprio disse, em um filisteu vulgar. É o texto que suscita a ira furiosa de Engels e que o leva a exigir que Kautsky publicasse a versão original.

Como se observa, não está claro neste ponto se Engels pede a publicação da Introdução n.o 2 (a versão que a direção do SPD não gostou) ou da Introdução n.o 4 (o texto trabalhosamente acordado com Fischer). A nossa impressão é que Engels estava se referindo a n.o 2, a única capaz de dissipar os equívocos produzidos por Liebknecht; e também porque a n.o 4 já havia sido entregue à imprensa com os artigos de Marx. Não se entende por que Engels teria tido a “pretensão” de que esta também fosse publicada no Die Neue Zeit. O mais provável é que a versão exigida para publicação fosse, portanto, o texto “desconfortável”, uma forma de refutar claramente os pastiches da direção do SPD, removendo cada erro na revista teórica, que era lida por todos os quadros do partido.

Introdução n.6, finalmente, é um texto que não existe nem no formato escrito nem no virtual, mas é o utilizado como referência por todos. Nós estamos falando do texto que, depois de Bernstein, todo bom reformista cita, sem necessidade de indicar as frases precisas nas quais Engels teria feito certas declarações que lhe são atribuídas. É um texto sempre evocado com um refrão: “no fundo, também o último Engels argumenta que …“. A Introdução n.o 6 não tem nenhuma relação com as outras versões; nem com a original nem com aquela autocensurada. Ela tem uma estreita relação apenas com a versão falsificada por Liebknecht, mas que nunca é reivindicada como prova, pois muitos já sabem ser falsa. É, portanto, apenas um título aludido como evidência de uma conversão inexistente de Engels, pouco antes de sua morte, ao pensamento dos filisteus reformistas, pelos apoiadores de um tipo de socialismo no qual a revolução é eliminada, ou completamente a favor da via parlamentar, ou, pelo menos, anestesiada (este é o uso que muitos oportunistas fazem dele), que atribuem um peso estratégico à participação nas eleições burguesas, em lugar do peso meramente tático sustentado por Engels. Quando se fala da Introdução como sendo um “testamento”, já se está fazendo uso desta Introdução que enumeramos como sexta: um texto “lembrado” de memória e inexistente, que nada tem a ver com Engels e com o marxismo.

O uso habitual do texto deturpado

O que definimos como “Introdução n.o 6″, o texto “lembrado”, não é apenas a única das seis introduções normalmente citada por historiadores e políticos, mas também é o texto mais citado “de” Engels, embora Engels nunca o tenha escrito!

Uma das duas principais editoras italianas de livros de Marx, e da Introdução engelsiana, a Editori Riuniti, contém um ensaio de Angelo Bolaffi afirmando a teoria de que Engels queria atribuir à Introduçãoo significado de um verdadeiro testamento político“, que contém uma “redefinição das coordenadas estratégicas” (19). No extenso e detalhado prefácio, Bolaffi paira sobre a verdadeira história do chamado “testamento”. Apenas em uma breve “nota de rodapé” refere-se aos pedidos de Fischer, mas ignora as respostas de Engels e não faz nenhuma menção à falsificação posterior de Liebknecht e do emprego de um texto mítico e inexistente repetido há mais de um século. Tudo isso não é casual, porque Bolaffi continua a usar o texto “lembrado” como prova da alegada mudança das “coordenadas estratégicas” do velho Engels. Assim, Bolaffi confirma a tese geral que o PC italiano defendia, na época o dono daquela editora.

Outra publicação importante em italiano é da editora Einaudi, feita por Leandro Perini (20). O prefácio de Perini não faz qualquer referência à questão da falsificação. Apenas em uma nota de rodapé fala de “correções e atenuações” feitas por Engels para atender “às preocupações de Fischer sobre a ameaça das leis antissubversão” e é assinalada rapidamente a questão da mutilação do texto publicado por Liebknecht no Vorwarts. Também aqui, todo o fato – que acompanha a história deste livro e atravessou e dividiu o movimento operário durante um século – é reduzido ao esclarecimento em uma nota de rodapé, que não permite ao leitor conhecer a manipulação feita do texto.

Poderíamos continuar longamente, citando dezenas de edições em diferentes idiomas, do livro de Marx e da introdução de Engels. O método é o mesmo: em alguns casos, a ignorância dos editores, em outros, minimiza-se o manuseio do texto para legitimar a lenda do “testamento”. Limitemo-nos à principal editora do mercado brasileiro de livros de Marx e Engels: a Boitempo Editorial dedica uma nota de exatamente duas linhas para se referir a “partes apagadas” pela vontade da direção do SPD. Os trechos excluídos, aqui como em outros casos que citamos, são publicados entre colchetes, mas não chamam a atenção do leitor para as manipulações sofridas pelo texto ou as condições nas quais foi escrito, não se percebe as importantes diferenças entre o texto original (que, mais uma vez, Engels já havia “autolimitado”) e o texto publicado. Tanto menos está claro ao leitor que o texto efetivamente utilizado em todos os debates, de Bernstein em diante, é o texto que definimos como “lembrado” (21).

Se considerarmos que a melhor biografia de Engels, escrita por Ernest Mayer, de quase mil páginas, não explica a gênese e a vida turbulenta do texto engelsiano (22), entendemos como há décadas os revisionistas de todos os matizes têm tido a perspicácia de usar Engels em apoio a suas teorias: limitam-se a “lembrar” a Introdução de 1895.

Um dos textos mais conhecidos nesse sentido – e que fez escola, sendo sucessivamente retomado e citado centenas de vezes em muitos livros – é o prefácio de Lucio Colletti, de 1970 (na época “marxista”, e que na velhice passou a ser senador de Berlusconi!), escrito para apresentar o livro de Bernstein no qual, pela primeira vez, o texto mutilado de Engels foi utilizado. Colletti distingue-se por ter conseguido dar crédito à lenda do “testamento”, ou seja, da “revisão” (inventada) de Engels, no momento da sua morte, e, ao mesmo tempo, não dizer uma palavra sobre o processo de “revisão” (isto sim, real) sofrido pelo texto. Tudo serve a Colletti para concluir que Engels teria defendido uma “nova perspectiva estratégica“, em que a revolução é substituída pelas eleições e a Introdução seria “um preâmbulo não consciente” do revisionismo (23).

Um caso especial é a interpretação da Introdução feita por Jacques Texier, um dos melhores especialistas franceses sobre o pensamento de Marx, que morreu há alguns anos. Texier consegue reconstruir mais ou menos corretamente o processo sofrido pela Introdução (os pedidos de censura feitos por Fischer, a falsificação de Liebknecht) para, então, minimizar a importância dessas mudanças na definição do texto e, portanto, aceitar a lenda do “testamento” sobre a qual se baseia uma longa série de antileninistas (24). Parecida é a reconstrução que Steinberg (de orientação reformista, próximo ao SPD da época), um dos mais importantes historiadores da Segunda Internacional, faz em 1976. Em seu principal livro, O socialismo alemão de Bebel a Kautsky, sublinha uma coisa verdadeira: que as cartas de protesto de Engels referem-se à publicação falsificada por Liebknecht e não à versão publicada no Die Neue Zeit (25). No entanto, para esclarecer isso, Steinberg minimiza as censuras anteriores solicitadas pela liderança do SPD e aceitas (em parte e com resistência) por Engels. Acima de tudo, não deixa claro que a grande confusão suscitada em torno ao texto de Engels facilitou o emprego da versão que definimos como “lembrada” do texto como uma legitimação de uma suposta conversão “parlamentar” de Engels. A interpretação errada de Steinberg é paradoxal, principalmente quando se considera que foi o próprio Steinberg que encontrou e publicou, em 1967, as cartas entre Fischer e Engels que esclarecem a história.

A verdadeira reconstrução da história

Antes de ver como a falsa reconstrução da história da Introdução continua resistindo até hoje, temos que assinalar que existe um pequeno número de estudiosos que a reconstruíram corretamente. Entre as centenas de interpretações que lemos para preparar este artigo, entre elas uma grande quantidade de reconstruções falsas, com omissões ou distorções, só encontramos quatro historiadores que oferecem a reconstrução verdadeira (não excluímos que existam outros historiadores informados sobre os fatos que analisam, mas em proporção não superior a 1% dos textos dedicados à questão).

O primeiro ao fazê-lo em detalhe, em 1969, foi o sueco Bo Gustafsson em sua monografia sobre o revisionismo, um dos textos mais importantes sobre a história da Segunda Internacional, traduzido em várias línguas (26).

A melhor e mais detalhada reconstrução de toda turbulenta história da Introdução de Engels, no entanto, está na monumental obra do estudioso e militante de origem trotskista Hal Draper: Marx’s Theory of revolution [Teoria marxista da revolução], publicada no final dos anos 1970 nos Estados Unidos pela Monthly Review (27). Draper esclarece como Bernstein, mesmo sabendo da troca de cartas entre Engels e Fischer, e conhecendo, portanto, a verdade, aproveitou seu papel de testamenteiro para ocultar por anos uma parte dos textos engelsianos (entre eles, a versão original da Introdução) e, assim, inventar a lenda do “testamento”. O mérito de Hal Draper também é o de ter esclarecido que a própria publicação integral da Introdução por Riazanov induziu muitos a confundir o texto falsificado por Liebknecht (que suscitou a ira de Engels) com a versão mutilada pelos cortes solicitados por Fischer. Uma confusão que persiste e que também foi assinalada por um dos mais recentes biógrafos de Engels, Manfred B. Steger (28).

Em tempos mais recentes, por fim, Hernan Ouvina, em uma antologia sobre a análise marxista do Estado, editada por Mabel Thwaites Rey, parte de uma correta reconstrução dos fatos, na qual demonstra as profundas alterações que a Introdução sofreu desde sua gênese. No entanto, seguindo a atitude quase unânime dos historiadores, Ouvina também conclui com uma manobra lógica e atribui o valor de uma “mudança de rumo” ao texto de Engels e o lê como uma espécie de antecipação de Gramsci e da substituição da “guerra de manobra” pela “guerra de posição”, isto é, une-se ao já avolumado coro que debita a Engels a renúncia à conquista do poder pela insurreição e à revolução (29).

A última batalha de Engels

Chegando a este ponto da história, resta-nos fazer uma pergunta: seriam necessários estudos filológicos para convencer-se de que Engels não quis deixar um “testamento” que contivesse uma abjuração do marxismo? Isto é, era necessário que Riazanov publicasse o texto original e que depois Steinberg publicasse as cartas? A resposta é categoricamente negativa.

E, vice-versa, para tornar a lenda do “testamento” aceita, era (e é) necessário ignorar não só toda a obra teórica e a ação prática de Marx e Engels, sobre cuja base, para repetir a citação de Lenin, está “a necessidade de educar sistematicamente as massas nesta (…) ideia da revolução violenta“, mas também foi e é necessário ignorar todos os escritos de Engels, de seus últimos anos de vida.

Além de editar as obras de Marx, e em particular completar o segundo livro de O Capital, publicado em 1885, e o terceiro, publicado em 1894, e também escrever alguns livros próprios, Engels tornou-se, depois da morte de Marx (1883), o principal guia de todos os partidos da Segunda Internacional (fundada em 1889), o ponto de referência teórico a quem os dirigentes apelavam para receber conselhos políticos.

Isso se confirma pela dimensão impressionante da correspondência que tinha cotidianamente com Bebel e Liebknecht (principais dirigentes da seção alemã), com Paul Lafargue e sua mulher Laura, filha de Marx (dirigentes da seção francesa), com Eleanor (outra filha de Marx) e Edward Aveling (dirigentes do movimento na Inglaterra), e com os dirigentes da seção austríaca, polonesa, e com os marxistas norte-americanos, russos, italianos e de muitas outras partes do mundo (30).

No entanto, lendo as cartas de Engels e seus livros do último período, não se encontra nenhuma pista da hipotética “revisão” que, segundo 99% dos historiadores, Engels quis fazer com a Introdução. Pelo contrário, descobre-se que Engels estava consciente dos riscos de um desvio oportunista da socialdemocracia e, em particular, dos primeiros germes do mal no maior partido da Segunda Internacional, o SPD, que estava crescendo exponencialmente em termos políticos e eleitorais (até chegar a 20% dos votos em 1890) e que dispunha de um aparato burocrático cada vez maior, com centenas de eleitos nas instituições, funcionários, jornalistas; como se disse: “um Estado dentro do Estado”.

Justamente por isso, em 1891, em plena discussão sobre o novo programa que o SPD adotaria no Congresso de Erfurt, Engels decide publicar no Die Neue Zeit a inédita Crítica do Programa de Gotha escrita por Marx em 1875, quando a unificação da socialdemocracia alemã ocorreu sobre bases confusas (31). A publicação do velho texto de Marx, que continha ásperas críticas aos dirigentes “marxistas” que sucumbiam ao reformismo dos lassalleanos, suscitou a cólera dos dirigentes, a começar por Wilhelm Liebknecht (que respondeu com um editorial no Vorwarts, rechaçando as críticas de Marx). Mas o velho texto de Marx foi um instrumento útil, junto com o novo texto elaborado por Engels naquelas semanas (e que ficou inédito até 1901): a Crítica do Projeto de Programa de Erfurt, enviado aos dirigentes socialdemocratas e a Kautsky e Bernstein, que de fato reescreveram o programa, descartando o primeiro rascunho (aquele ao qual se refere a Crítica), conseguindo aprovar em Erfurt o primeiro programa substancialmente marxista por um congresso da socialdemocracia (32). O essencial da Crítica de Engels (como Lenin notaria em O Estado e a Revolução) foi o ataque a cada ideia de gradualismo. É, portanto, verossímil que pouco depois o “General”, em guerra contra os oportunistas, se convertesse ao oportunismo?

Todos os demais textos de Engels daqueles anos, que não temos como examinar aqui, vão na mesma direção, todos são instrumentos para reforçar a batalha contra os primeiros sinais de oportunismo no SPD (33). Desafortunadamente, a morte (por um câncer no esôfago) o surpreende em 5 de agosto de 1895. A batalha que havia iniciado teve continuidade, por um período, por Karl Kautsky (que, logo depois, capitula), e até o final por Rosa Luxemburgo, Lenin e Trotsky.

O “filisteu socialdemocrata”

Alguns historiadores, mesmo conhecendo as pressões do grupo dirigente socialdemocrata sobre Engels para que modificasse a Introdução, como vimos, minimizam as diferenças entre o texto original e aquele efetivamente publicado no Die Neue Zeit (34). Para sustentar essa interpretação, é necessário, no entanto, esquecer-se de duas coisas: primeiro, do fato de que a própria direção do SPD considerava o texto demasiadamente revolucionário (como o demonstra a já citada carta de Fischer de 6 de março); segundo, que, prescindindo da interpretação dos dirigentes, a simples comparação do original com a “versão Fischer” publicada torna evidente as diferenças qualitativas entre os dois textos.

Como Riazanov já explicou ao publicar o original, os cortes são poucos, mas vão todos na direção de desnaturalizar o sentido do que Engels havia escrito. Engels escreve (embora se autocensurando) um texto que explica como as inovações técnicas e militares ocorridas depois de 1848 requerem… novas táticas para melhor enfrentar as batalhas de rua. O interesse do “General” pelas questões militares é percebido em cada linha: com precisas referências às modificações do armamento, do fuzil sem estrias à percussão de 1848 ao fuzil de repetição de pequeno calibre “que atiram quatro vezes mais longe, com precisão dez vezes maior e dez vezes mais rapidamente que as anteriores” [Boitempo Ed., ndt].

Que estranha conversão pacifista! Além disso, não há, nem no original, nem na “versão Fischer”, nenhuma confiança em uma via parlamentar ao socialismo. Engels escreve: “O proletariado descobriu que as instituições do Estado, nas quais se organiza o domínio da burguesia, admitem ainda outros manuseios com os quais a classe trabalhadora pode combatê-las” [Boitempo Ed., ndt].

Assim, Engels é inequívoco: dá uma definição de Estado como Estado burguês (rechaçando a ideia reformista do Estado “neutro”) e depois afirma que, em determinadas circunstâncias (está pensando na Alemanha do período), é possível combater o Estado burguês utilizando instrumentalmente o parlamentarismo.

É isso que explica por que Liebknecht não se conformou com os cortes feitos e fez outros ainda mais profundos. E isso explica também por que os reformistas (de ontem e de hoje) preferem não citar sequer o texto já censurado, mas referir-se apenas a um inexistente, que evocam com o descarado título de “testamento”.

Como Engels escreveu em um texto daqueles anos, o prefácio de 1891 à Guerra civil na França de Marx: “E eis que o filisteu alemão foi novamente tomado de um saudável terror com as palavras: ditadura do proletariado” [Boitempo Ed., ndt]. É um terror de hoje e de ontem: não por acaso, o editor (isto é, o partido) preferiu substituir a expressão “filisteu socialdemocrata” pelo menos ofensivo (para os próprios editores!) “filisteu alemão“. Mas é de alguns dirigentes socialdemocratas que Engels estava falando, não de indeterminados “alemães”.

Marxismo e blanquismo

A atenção de Engels, naquelas semanas de 1895, estava dirigida a trabalhos considerados mais importantes que a Introdução, como o livro de Marx sobre as Teorias da Mais-valia, conhecido também como o “quarto” livro de O Capital (e que seria publicado por Kautsky). Ao mesmo tempo, iniciou outros trabalhos: sobre os escritos do jovem Marx, sobre a correspondência entre Marx e Lassalle, sobre a história da Internacional e, além disso, tinha em mente uma biografia de Marx.

Quando envia o texto da Introdução a Fischer, não imagina o uso que se fará dela depois de sua morte. Notamos, pois, de passagem, ser verdadeiramente paradoxal que a Introdução tenha sido apresentada por décadas como o ponto de partida do reformismo, esquecendo-se que foi escrita para introduzir justamente os textos de Marx em que aparece pela primeira vez de forma explícita a expressão “ditadura do proletariado” (que já estava presente no Manifesto, mas só como conceito).

Bernstein foi o primeiro (de centenas) a utilizar a Introdução para ver nesta uma crítica de Engels a um hipotético “blanquismo” do marxismo de 1848 e dos anos iniciais do socialismo científico. Para defender essa tese, Bernstein primeiramente caricaturou Auguste Blanqui, por quem, no entanto, Marx e Engels tiveram grande consideração e a quem definiram “cabeça e coração do proletariado francês“. Desde então, o reformismo (e o stalinismo) sempre usou uma imagem caricaturesca de Blanqui para rechaçar, junto a seu “substitucionismo” da classe, o próprio conceito de partido de vanguarda, e para rechaçar, junto à redução blanquista da revolução à insurreição (e da insurreição às barricadas), a própria revolução. Mas Marx criticava o blanquismo como o pensamento de um revolucionário de outra época, de traços utópicos, enquanto Bernstein e os reformistas criticavam (e criticam) Blanqui como revolucionário (35).

É Trotsky, em Terrorismo e Comunismo, quem esclarece a questão em polêmica com Kautsky: os blanquistas, diz, “compreendiam a importância do governo revolucionário, mas não tornavam a questão da conquista do poder dependente religiosamente dos aspectos formais da democracia“. E é isto que define a divisão entre o heroico Blanqui e seus críticos reformistas. Mas os bolcheviques, completa, ao contrário de Blanqui, construíram um partido enraizado na classe operária (não um grupo que a substituísse), e viram na insurreição não um substituto concentrado da revolução, mas seu ato conclusivo (36). E é Trotsky que volta ao tema esclarecendo, indiretamente, a posição de Engels expressada no assim chamado “testamento”. Vale a pena fazer uma longa citação da História da Revolução Russa:

A insurreição é uma arte e, como toda a arte, ela tem as suas leis. (…) O erro de Blanqui consistia não no seu teorema direto, mas no recíproco. Do fato de que a incapacidade tática condenava a revolução ao fracasso, Blanqui deduzia que a observação das regras da tática insurrecional era capaz, por si mesma, de assegurar a vitória. Somente a partir daí é legítimo opor o blanquismo ao marxismo. A conspiração não substitui a insurreição. A minoria ativa do proletariado, por mais bem organizada que seja, não pode conquistar o poder independentemente da situação geral do país. Nesse ponto, o blanquismo é condenado pela história. Mas somente por isso. O teorema direto conserva toda a sua força. Para a conquista do poder, ao proletariado não basta uma insurreição espontânea. Necessita uma organização correspondente, um plano, uma conspiração. É assim que Lenin coloca a questão.

A crítica de Engels dirigida contra o fetichismo da barricada apoiava-se na evolução da técnica em geral e da técnica militar. A tática insurrecional do blanquismo correspondia ao caráter da velha Paris, ao proletariado semiartesanal, a ruas estreitas e ao sistema militar de Luís Filipe. Em princípio, o erro de Blanqui consistia em identificar a revolução com a insurreição. O erro técnico do blanquismo consistia em identificar a insurreição com a barricada. A crítica marxista foi dirigida contra os dois erros. Considerando, de acordo com o blanquismo, que a insurreição é uma arte, Engels descobriu não somente o lugar secundário da insurreição na revolução, mas também o papel declinante da barricada na insurreição. A crítica de Engels nada tinha em comum com uma renúncia aos métodos revolucionários em proveito do puro parlamentarismo, como tentaram demonstrar em seu tempo os filisteus da socialdemocracia alemã, em cooperação com a censura dos Hohenzollern. Para Engels, a questão das barricadas continuava sendo a questão sobre um dos elementos técnicos da insurreição. Os reformistas tentaram deduzir da negação do papel decisivo da barricada a negação da violência revolucionária em geral” (37).

Uma lenda difícil de romper

Quem estiver realmente interessado em aprofundar hoje o estudo de Engels conta com elementos de conhecimento (que faltaram a Luxemburgo e Lenin) que já não justificam uma leitura equivocada da famosa Introdução.

No entanto, é difícil romper com a lenda do “testamento”. Se olharmos a recente História do Marxismo (em três volumes) publicada há poucos meses pela Editora Carocci, vemos que também um bom conhecedor de Marx como Stefano Petrucciani insiste em uma interpretação privada de fundamento quando, mesmo assinalando as solicitações de modificação pela direção do SPD e a falsificação posterior de Liebknecht, conclui que a Introduçãofoi a ocasião para fazer emergir (…) as mudanças que mudaram as concepções políticas do próprio Engels, que enfatizou fortemente a importância das batalhas eleitorais e parlamentares” (38).

Mas os equívocos ocorrem mesmo em alguns estudiosos que se opõem à leitura de um Engels convertido ao reformismo. Damos dois exemplos. O primeiro é o de Paul Kellogg que, na prestigiosa revista Science and Society, em um artigo especialmente dedicado a esclarecer a história do “testamento” em polêmica com Colletti e com outras leituras análogas, em lugar de explicar a gênese do texto, confunde os dois episódios distintos que já contamos: as solicitações de cortes feitas por Fischer (episódio que Kellogg parece não conhecer) e os cortes praticados por Liebknecht pelas costas de Engels. É verdadeiramente paradoxal para um artigo que quer esclarecer a intriga! (39).

O segundo exemplo concerne a um historiador brasileiro, Valério Arcary. Vale a pena deter-se neste exemplo, porque aqui o paradoxo é elevado à máxima potência: embora Arcary dê ao tema do assim chamado “testamento” uma grande importância pelo uso que dele se fez na história do movimento operário, ao ponto de voltar a ele com insistência em praticamente todos os seus livros, parece que também caiu vítima, infelizmente, dos equívocos desta história emaranhada.

Em As esquinas perigosas da História (de 2004, quase quarenta anos depois da publicação integral da troca de cartas entre Engels e Fischer), é dedicado um capítulo específico ao nosso tema, mas o argumento é retomado como um fio condutor de todo o livro (40). Arcary polemiza corretamente com a leitura (que já citamos) do francês Texier e rechaça a tese da Introdução engelsiana como premissa do reformismo. No entanto, não explica os dois diferentes episódios de manipulação que o texto sofreu, limitando-se a assinalar que foi publicado com “cortes”, em uma nota de rodapé. A impressão é que está sobrepondo os dois episódios distintos (as pressões de Fischer e a falsificação de Liebknecht).

Mas é no livro seguinte de Arcary que a incompreensão da história torna-se evidente e mais grave. De fato, no livro de 2006, O encontro da revolução com a História, Arcary dedica ao tema o capítulo central da obra, intitulado: “Controvérsias sobre a teoria da revolução no ‘Testamento’ de Engels”. É um capítulo que ocupa cerca de 50 páginas: provavelmente a análise mais ampla dedicada à Introdução engelsiana entre os livros de história dos últimos vinte anos. Mas, embora o título prometa oferecer ao leitor uma definitiva explicação das citadas “controvérsias”, Arcary, pelo contrário, limita-se a falar de uma edição cortada “por decisão de Bebel” (provavelmente está se referindo ao episódio do Vorwarts, confundindo Liebknecht com Bebel), mas não faz nenhuma menção ao episódio anterior, isto é, à censura solicitada por Fischer. Pior, o nome de Fischer e a troca de cartas com Engels (indispensável para compreender a Introdução) não aparece nunca nas cinquenta páginas dedicadas ao tema, deixando-nos em dúvida se Arcary, embora fale da Introdução em todos os seus livros, tenha caído de boa fé no erro da interpretação predominante (41). De qualquer forma, infelizmente, a reconstrução frustrada da história que, por si mesma, bastaria para refutar o mito do “testamento”, termina por debilitar a correta polêmica com as teses ao estilo Texier, porque Arcary se expõe à acusação de não conhecer a matéria sobre a qual escreveu muitas vezes e por muitos anos (42). Esclarecemos, no entanto, que isso não tira em nada o interesse dos livros desse intelectual brilhante.

Conclusão

Devido à obra infatigável dos reformistas, autênticos falsificadores do marxismo, o assim considerado “testamento” de Engels converteu-se em uma lenda que, como todas as lendas, são difundidas sem nenhuma necessidade de provas, tanto que até historiadores e estudiosos sérios já não conseguem distinguir, na história complicada que contamos, o falso do autêntico. No entanto, a verdade histórica demonstra – se fosse necessário – que, quando até hoje algum reformista ou semirreformista tenta usar a Introdução para encontrar nela um salvo-conduto para velhas e novas empreitadas oportunistas, aludindo a uma hipotética centralidade nas eleições ou na conquista de algum acento no galinheiro do parlamento burguês, só está tentando enganar seu público, tal como aquele “filisteu socialdemocrata” mencionado por Engels há mais de um século. Porque hoje, como ontem, os filisteus continuam a ser identificados por sua “subalternidade” aos governos e ao poder da burguesia, por seu “terror saudável” diante da perspectiva do poder dos trabalhadores.

Notas:

Só são citados nas notas os textos principais aos quais se faz referência direta no artigo. Para uma bibliografia mais profunda, recomenda-se utilizar os livros indicados pela própria bibliografia e ao longo do texto.

(1) A crítica de Marx ao programa de unificação da socialdemocracia alemã é conhecida como Critica do Programa de Gotha (Massari Editorial, 2008). O texto, enviado a alguns dirigentes (Bracke, Bebel, Liebknecht, Geib e Auer) tornar-se-ia público por Engels só em 1891, no número 9 do Die Neue Zeit.

O termo “lassalleanismo” refere-se a Ferdinand Lassalle (1825 -1864), um dos pais históricos do reformismo, fundador da Associação Geral dos Operários Alemães em 1863, cujo programa pôs no centro a luta pelo sufrágio universal e a formação de associações operárias subvencionadas pelo Estado. Após sua morte (em agosto de 1864, pouco antes da fundação da Primeira Internacional), sua Associação (agora dirigida por von Schweitzer) teve como rival à esquerda a União das Associações Operárias dirigida por Liebknecht e Bebel. Em 1869, em Eisenach, estes últimos fundaram o Partido Operário Socialdemocrata, influenciado pelas posições de Marx. Em 1875, a organização de Lassalle e a organização “marxista” unificaram-se com um programa confuso, ao qual Marx dedicou sua Crítica. O novo partido (Partido Operário Socialista Alemão) assumiria o nome de Partido Socialdemocrata Alemão (SPD) em 1890.

(2) Eduard Bernstein, As premissas do socialismo e as tarefas da socialdemocracia (1899). Edições Laterza, 1968, com prefácio de Lucio Colletti.

(3) O ataque de Kautsky é contido em vários artigos no Die Neue Zeit, finalmente recopilados no livro: Le marxisme et son critique Bernstein (1899). Consultamos a edição em francês do livro, publicada por PV Stock Editeur, Paris, 1900 (trad. de Martin Leray), em PDF na internet.

(4) Rosa Luxemburgo, Reforma ou revolução? (1899). Editori Riuniti, 1973.

(5) Rosa Luxemburgo, “Discurso sobre o programa”, em: Escritos selecionados, p. 651. Einaudi, 1976.

(6) V. I. Lenin, “Uma nova matança”, em: Obras completas, volume 5, p. 17. Editori Riuniti, 1958.

(7) V. I. Lenin. Carta a Inessa Armand de 25 de dezembro de 1916, em: Obras completas, volume 35, p. 185. Editori Riuniti, 1958.

(8) L. Trotsky, 1905 (1906 -1909), pág. 261. Ed. Nova Itália, 1970.

(9) L. Trotsky, Carta a Lev Sedov, 6 de julho de 1931, em: www.marxists.org/francais/trotsky/oeuvres/1931/07/19310706.htm

(10) L. Trotsky, Carta a Lev Sedov, 26 de setembro de 1931, em: www.marxists.org/francais/trotsky/oeuvres/1931/09/19310926.htm

(11) L. Trotsky, “O ILP e a Quarta Internacional. No meio do caminho”, 18 de setembro de 1935, em: Escritos, Volume IV, pág. 352. Ed. CEIP.

(12) Os artigos de Marx foram publicados no Neue Rheinische Zeitung sob os títulos: “De 1848 a 1849”; “13 de junho de 1849”; “Repercussões do 13 de junho sobre o continente”; um quarto artigo publicado em “A situação atual: Inglaterra” permaneceu inédito. Aos artigos, publicados na antologia sob novos títulos (respectivamente: “A derrota de junho de 1848”; “O dia 13 de junho de 1849”; “Decorrências do 13 de junho de 1849”), Engels adicionou um artigo posterior de Marx: “A supressão do sufrágio universal de 1850”.

(13) A troca de cartas foi publicada por Hans Josef Steinberg em “Revolution und legalitat” na revista International Review of Social History, volume 12, n. 2, pp. 177-189, 1967.

(14) Ver nota 13, citado também por Liana Longinotti em “Friedrich Engels e a ‘revolução da maioria’”, em Studi Storici, ano 15, n. 4, 1974. Note-se que L. Longinotti reconstrói corretamente a história do texto engelsiano, mas saca conclusões funcionais ao defender as políticas oportunistas do PCI, que na época editava a revista Studi Storici (que contém, para além das posições que expressa, artigos interessantes).

(15) Utilizamos as cartas tomadas da edição em inglês publicada no volume 50 de Marx and Engels Collected Works. Letters 1892-1895, que pode ser localizado na web na versão em PDF da edição Lawrence & Wishart. A tradução do inglês é nossa. O conjunto das cartas também está contido na antologia em língua francesa: Karl Marx et Friedrich Engels, La social-democratie allemande, 1975, a cargo de Roger Dangeville, em: www.marxists.org/francais/marx/works/00/sda/sda.htm

(16) O artigo de Riazanov sobre a Introdução de Engels foi publicado na revista Unter dem Banner des Marxismus, 1925-1926, n. 1. Consultamos a versão em francês “Introduction de Engels aux Luttes de classe en France, 1848-1850”, em: www.marxists.org/francais/marx/works/00/sda/sda_6_1.htm

(17) K. Kautsky, Le marxisme et son critique Bernstein (1899): ver nota 3.

(18) K. Kautsky, O caminho do poder, p. 65. Edições Laterza, 1974.

(19) Trata-se da clássica edição de K. Marx, As lutas de classes na França de 1848 a 1850, com a tradução a cargo de Palmiro Togliatti e várias vezes reimpressa. Consultamos a edição de 1987.

(20) Na edição Einaudi de 1976 aparece sob o título: K. Marx, Revolução e reação em França. 1848-1850.

(21) Boitempo Editorial, de 2011.

(22) G. Mayer, Friedrich Engels (1936). Em italiano só existe uma versão reduzida, publicada por Einaudi, 1969. Usamos a versão integral da tradução ao espanhol (de W. Roces), publicada pela Fondo de Cultura Económica (FCE), 1978. A questão do texto de Engels é abordada nas pp. 857 e seguintes, inclusive enfatizando que a Introdução não contém nenhuma “revisão” por parte de Engels; Mayer não fornece nenhuma indicação sobre as alterações que o texto sofreu.

(23) O prefácio de Lucio Colletti é ao livro de Bernstein, As premissas do socialismo e as tarefas da socialdemocracia, ver nota 2. O texto de Colletti também foi reeditado em sua antologia Ideologia e sociedade, sob o título: “Bernstein e o marxismo da Segunda Internacional”. Trata-se de um texto traduzido em várias línguas.

(24) O texto de J. Texier está em Aa.Vv., Friedrich Engels, savant et révolutionnaire, apresentado no “Colloque Engels” organizado em Paris em 1995 (Edições Puf, 1997). A mesma interpretação de um Engels “revisionista” e precursor de Bernstein também é retomada no livro por Christian Saves.

(25) Ver as pp. 91 a 94 do livro de Steinberg, Il socialismo tedesco da Bebel a Kautsky (1976). Editori Riuniti, 1979.

(26) O livro de Bo Gustafsson foi publicado na Alemanha em 1969. Não existe em tradução italiana: consultamos o livro na edição em espanhol: Marxismo y revisionismo, Ed. Grijalbo, 1974; as referências ao fato que nos interessa estão nas pp. 81 em diante.

(27) Hal Draper, Marx’s Theory of revolution. Monthly Review Press, 1977-1990. A história do hipotético “testamento” de Engels é reconstruída no volume V, “War & Revolution”.

(28) Manfred B. Steger, “Engels and the origins of German revisionism: another look” em Political Studies, vol. 45, n. 2, junho de 1997, pp. 247-259. Steger assinala o equívoco no qual Paul Kellogg também caiu, ao qual já nos referimos.

(29) O ensaio de Hernan Ouvina, “Reforma e revolução. A propósito do ‘testamento político’ de Engels”, é encontrado em Mabel Thwaites Rey (organizadora), Estado e marxismo: um século e meio de debates (Prometeo Livros, 2007).

(30) Para um primeiro aprofundamento sobre as batalhas políticas de Engels, ler nosso artigo “1895 – 2015, a 120 anni dalla morte di Friedrich Engels. Il generale della rivoluzione” em: www.alternativacomunista.org, e traduzido em espanhol, português, francês e inglês no site www.litci.org.

(31) ver nota 1.

(32) Frequentemente, o texto de Engels é lido como se fosse uma crítica ao programa aprovado em Erfurt, que é indicado por alguns como o começo do reformismo; na realidade, a Crítica de Engels refere-se ao primeiro esboço, que foi depois modificado radicalmente por Kautsky e Bernstein seguindo suas sugestões. Por isso, Lenin (em 1899) disse que era necessário “imitar” o programa (na versão concluída) aprovado em Erfurt. Ver Lenin, “Projeto de programa do nosso partido” em: Obras completas, volume 4, pp. 229. Editori Riuniti, 1958.

(33) Entre os textos de Engels escritos depois da morte de Marx (1883), recordamos: A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884); Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã (1886), onde há um apêndice com a inédita e importante Teses sobre Feuerbach que Marx havia escrito em 1845; o prefácio a A guerra civil na França, de Marx, onde reivindica a Comuna como primeiro embrião de ditadura do proletariado; e depois um grande número de prefácios às novas edições de suas obras ou de Marx, ou de ambos: em nenhum desses textos aparecem sinais de uma vontade de “revisar” o marxismo.

(34) Entre o texto escrito por Engels e a versão afinal publicada com suas “autoemendas” há diferenças substanciais. Por exemplo, na parte onde está falando das barricadas, Engels escreveu esta passagem, que depois suprimiu, citamos da edição da Editori Riuniti [da Boitempo Editorial, em português]: v. nota 19:

Porventura isso significa que no futuro a luta de rua não terá mais nenhuma importância? De modo algum. Isso significa que, desde 1848, as condições se tornaram bem menos favoráveis para os combatentes civis e bem mais favoráveis para os militares. Uma luta de rua no futuro só poderá ser vitoriosa se essa situação desfavorável for compensada por outros momentos. Por isso, no início de uma grande revolução ela ocorrerá mais raramente do que em seu decurso e terá de ser empreendida com efetivos bem maiores. Mas, nesse caso, estes decerto preferirão o ataque aberto à tática passiva das barricadas, como ocorreu em toda a grande revolução francesa, no dia 4 de setembro e no dia 31 de outubro de 1870 em Paris”.

Como se vê, não há em Engels nenhum gramscianismo ante-litteram (ao contrário do que é defendido por Texier e muitos outros, v. nota 24), nenhuma teorização da “guerra de posição”.

(35) Auguste Blanqui (1805 -1881), extraordinária figura de revolucionário intransigente, passou a metade de sua vida na cadeia, também foi preso durante a Comuna. Mesmo com as diferenças que mencionamos neste artigo, bem sintetizadas por Trotsky no capítulo “Marxismo e blanquismo”, é necessário recordar que, do blanquismo, o marxismo retoma, e reelabora, o conceito de “ditadura” do proletariado tal como aquele de partido “centralizado”.

(36) O tema da comparação entre o blanquismo e o bolchevismo é abordado por Trotsky no terceiro capítulo de Terrorismo e Comunismo (1920).

(37) Leon Trotsky, História da revolução russa, citação do capítulo “A arte da insurreição”, pág. 1.067. Mondadori, 1969.

(38) A posição de Stefano Petrucciani está no ensaio “De Marx ao marxismo por Engels”, publicado na recente História do marxismo, 2015, em três volumes, publicados por Carocci (vol. I, p. 11).

(39) O artigo de Paul Kellogg é “Engels and the Roots of ‘Revisionism’: A Re-Evaluation” em: Science and Society, 55, 1991.

(40) Valério Arcary, As esquinas perigosas da história. Ed. Xamã, 2004. A nota citada é da p. 280.

(41) Valério Arcary, O encontro de revolução com a História. Ed. Xamã, 2006.

(42) O tema do “testamento” de Engels também é retomado por Arcary em seu mais recente livro: O martelo da história, Ed. Sundermann, 2016. Mas aqui também o tema das alterações do texto engelsiano não encontra a necessária explicação.

Tradução: Marcos Margarido