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Primeiro artigo da série “Os primeiros passos de Trump”

Estão em curso as primeiras semanas de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O que está acontecendo nesses dias pode ser descrito de diversas formas, mas nenhuma delas será “tranquilidade”.

Por: Alejandro Iturbe

Por um lado, Trump promulgou uma verdadeira metralhadora de decretos (as executive orders) sobre diversos temas, procurando mostrar que já começaria em ritmo acelerado e que suas propostas de campanha seriam cumpridas. Por outro, se acentua a divisão entre os diferentes setores burgueses norte-americanos (e no mundo) e, em um fato inédito na história do país para um presidente que recém assumiu, houve numerosas mobilizações de alcance nacional contra seu governo e algumas de suas medidas. Os Estados Unidos parecem ter entrado em um desses períodos em que a história se acelera e se concentra, produzindo situações novas e impensadas.

Uma hipótese que começa a se confirmar

Em vários artigos anteriores na revista Correio Internacional 16, analisamos que a eleição de Trump era a expressão de crescentes elementos de crise do regime político da burguesia imperialista norte-americana e de seus dois partidos (o Republicano e o Democrata). Que a base objetiva desse processo era a permanente deterioração das condições de vida dos trabalhadores e das massas norte-americanas e, com isso, o fim do “sonho americano” (o progresso econômico constante) para as massas que dava solidez a esse regime. Isto se expressava em uma desconfiança cada vez maior no sistema político bipartidário, que setores crescentes das massas viam como o sistema do “1% mais rico” (como expressava o movimento Occupy).

No caso do Partido Democrata, esse descontentamento se expressou dentro e fora do partido. Em primeiro lugar, na alta votação de Bernie Sanders nas primárias democratas (apresentando-se como de “esquerda”). Sanders logo abandonou seus seguidores e chamou a votar em Hillary Clinton, se negando a impulsionar uma alternativa independente com o argumento de que fazer isso seria “abrir as portas a Trump”.

Finalmente, nas eleições passadas isso se refletiu na opinião negativa ou rechaço que muitos potenciais votantes tinham sobre ambos os candidatos e também, no importante percentual de “insatisfação” dos votantes com as opções que lhes eram apresentadas.

São elementos de crise do regime que afetavam de modo desigual a ambos os partidos. Desde a derrota do projeto de Bush filho, esses elementos eram muito mais profundos entre os republicanos, divididos de fato em três frações quase autônomas: a velha-guarda republicana (ao redor de figuras como Bush ou McCain), o Tea Party e o setor pró-Trump. Os democratas se mostravam mais coesos, mas a frustração com Obama e suas promessas e o carisma nulo de Hillary Clinton se expressaram no desgaste eleitoral e na ruptura de uma parcela minoritária, mas importante, do seu eleitorado. Antes havia se expressado em processos de mobilizações independentes, como as da comunidade e da juventude negras (tradicional base democrata) contra a violência e os assassinatos praticados por policiais. A aparição de Trump e sua vitória eleitoral se explicam como uma expressão desse processo, que ele soube aproveitar com sua demagogia populista e, com o apoio de um setor do eleitorado, ganhar a presidência.

Assinalamos que, ainda que existisse a possibilidade de que Trump derrotasse o movimento de massas e, com isso, pudesse abrir um período de estabilidade reacionária, acreditávamos que a hipótese mais provável era que seu governo agravasse o quadro de crise.

Para esta segunda hipótese, consideramos que as propostas de Trump, por um lado, entravam em choque com as políticas que setores centrais da burguesia imperialista norte-americana e mundial vinham aplicando (com a reação democrática). E que, ao avançar na aplicação dessas propostas, se abriria uma grande distância com esses setores burgueses.

Por outro lado, ao transformar essas propostas em medidas concretas, estava levantada uma resposta do movimento de massas, já esboçada nas mobilizações do dia em que se confirmou sua eleição. Embora tenha se passado pouco tempo de governo, sendo portanto prematuro apontar definições, os acontecimentos dessas três primeiras semanas de governo parece confirmar a hipótese anterior.

Nesse sentido, Trump e suas medidas aprofundaram a polarização política e da luta de classes, com processos à direita e à esquerda na superestrutura e nos setores sociais, que já se esboçavam em todo o período anterior.

O perfil de Trump

Trump encabeça um governo que, sem utilizar métodos fascistas, devemos definir política e ideologicamente como de ultradireita. E que, desde o início, desfere duros golpes sobre as massas. Mas não nasce como um governo forte. Primeiro, pelas divisões interburguesas que expressa. Segundo, por haver conquistado menos votos populares do que Hillary Clinton e sustentar-se em cerca de 25% dos possíveis votantes. Terceiro, porque as pesquisas apontam 40% de “aprovação” no momento em que assumiu, o percentual mais baixo de um governo recém-eleito desde que se mede este índice. Mesmo antes de assumir, Trump já enfrentava mobilizações contra ele.

Por outro lado, Trump conta com o apoio de alguns setores burgueses (como veremos no segundo artigo desta série) e de parte importante dos trabalhadores brancos, que têm expectativas nele. E também com o apoio de um setor importante da burocracia sindical (como expresso pela direção da AFL-CIO) enquanto outro setor, mesmo sem apoiá-lo, permanece passivo ou paralisado.

Logo que começou de fato seu governo, Trump começou com uma sequência de decretos para mostrar que falava sério durante a campanha eleitoral e que atuaria com rapidez. Aqui entra um fator que, sem ser o determinante nos processos históricos, nesse momento tem muita importância: o papel dos indivíduos e de sua personalidade, já que Trump conduz agora o governo do principal Estado imperialista. Trump chega à política como alguém “de fora” (é um outsider). É um grande empresário, acostumado a se comportar de modo arbitrário em suas empresas e a disputar ferozmente os negócios e os espaços de mercado. Um perfil psicológico que ficava evidente em seu programa televisivo “O Aprendiz” (no qual vários postulantes competiam por um lugar de executivo júnior em suas empresas) quando eliminava algum participante com a frase “You are fired” (“Você está despedido”).

Até sua postulação como pré-candidato presidencial republicano, sua relação com a política burguesa imperialista era a de financiar candidatos e comprar (ou assegurar) medidas que favorecessem seus negócios. É um homem com baixo nível cultural geral que não compreende os complexos fatores estruturais e superestruturais que se combinam na política internacional e nacional, nem conhece por dentro os mecanismos de negociação permanente da democracia burguesa. Compreende menos ainda os processos da consciência das massas, especialmente os que geram a luta de classes.

Enquanto se tratava de enfrentar primeiro os aparatos republicanos e, depois, os democratas, Trump aproveitou habilmente a crise desses dois partidos e acabou eleito presidente. Mas, quando se trata de governar de fato, essa autossuficiência e a política que deriva dela se chocam com os limites da realidade e já estão fazendo com que pague seu custo. Pior ainda, Trump parece atuar como “um elefante na cristaleira”.

Por isso, embora seja prematuro fechar definições, nos parece que tende a se confirmar a hipótese do agravamento de ambos os processos (elementos de crises do regime e aumento das rupturas interburguesas, por um lado, e um possível ascenso dos trabalhadores e das massas por outro). Como já foi dito, se trata de uma situação em grande medida inédita nos Estados Unidos.

Este é o primeiro de uma série de artigos em que desenvolveremos os diferentes aspectos dessa situação.

Tradução: Arthur Gibson