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Quinto artigo da série “Os primeiros passos de Trump”

Nos artigos anteriores, mostramos que, nos Estados Unidos, está ocorrendo uma combinação do aprofundamento dos elementos de crise do regime e de uma fissura interburguesa, por um lado, com um incipiente ascenso de massas, por outro.

Por: Alejandro Iturbe

Dissemos que o governo Trump, até agora, não só não fecha este quadro como também o agrava. Dissemos que é um ascenso que tem bases objetivas muito profundas e a realidade nos mostra que continua expressando-se em um processo de mobilizações que não parou praticamente desde o final do ano passado (ver no quarto artigo desta série “A resistência do movimento de massas”). Pode-se dar qualquer nome a esta situação. Mas o importante é debater o conteúdo da análise que fizemos e a definição de que é uma situação nova no país, em grande parte histórica, já que há décadas que esses elementos não se apresentavam juntos.

A partir daí, podemos considerar várias hipóteses sobre as possíveis dinâmicas desta situação. Certamente, é impossível formular todas as variantes e combinações possíveis a partir da perspectiva que temos hoje. Mas analisaremos algumas delas para depois poder contrastá-las com o curso da realidade.

Dissemos que uma das alternativas possíveis dessa situação é que Trump consiga derrotar os trabalhadores e as massas norte-americanas e, nesse caso, se abriria uma situação ou onda reacionária. Um caminho para isso (embora o vejamos como o menos provável) seria através de mobilizações reacionárias que esmagassem o ascenso por meio de grandes confrontos. Outro caminho é que a derrota das massas seja realizada por meio da repressão institucional, uma vez que o governo consiga a aprovação das leis no Parlamento ou dos decretos executivos na Suprema Corte. Porém, acreditamos que nenhum desses caminhos (ou uma combinação de ambos) poderá ser levado até o fim sem um prévio aumento extremo da polarização social e fortes lutas e confrontos.

No outro extremo, está a hipótese de que o ascenso se desenvolva e derrote claramente Trump, inclusive que ele seja derrubado por meio das ações das massas. Esta alternativa requereria, evidentemente, um salto nas características do ascenso e em sua unificação. Fundamentalmente, deveria superar o obstáculo que representam suas atuais direções políticas e sindicais, muitas delas estreitamente ligadas ao Partido Democrata. Quase diríamos que deveria “passar por cima” dessas direções. Essa é a alternativa na qual jogaremos todas as nossas forças e ao que nossas propostas apontam.

Entre ambos os extremos, surge toda uma série de variantes intermediárias. Uma delas é que, caso cresça a fissura interburguesa e as mobilizações ameacem romper os “diques de contenção”, um setor majoritário da burguesia decida tirar Trump por meio de um processo de impeachment parlamentar. Não seria a primeira vez que isso acontece no país: já foi feito no passado com Richard Nixon, em 1974, na reta final da derrota na Guerra do Vietnã. Essa variante precisaria do voto de 2/3 dos integrantes de ambas as câmaras, em que os republicanos são a maioria (mesmo divididos em três frações). Ou seja, para levar isso adiante, seria necessário um acordo dos democratas com importantes setores republicanos. Mas não podemos descartar que isso seja concretizado, se a situação se agravar, como uma tentativa de controlá-la “dentro das instituições”. Claro que isso teria um custo de profundo enfraquecimento do regime, mas assim a burguesia evitaria males maiores.

A última alternativa que analisaremos é aquela em que os democratas e as direções consigam manter o ascenso sob controle e o utilizem para desgastar Trump, enquanto este faz o trabalho sujo contra as massas. Ao mesmo tempo, a utilizariam para pressionar Trump a “retificar-se”. Uma política que seria fortalecida se o governo sofresse uma derrota nas eleições parlamentares no final de 2018. Nessa hipótese, a situação atual não daria um salto, mas os democratas e outros setores burgueses conseguiriam “domesticar” Trump e transformá-lo em uma ferramenta de suas políticas “racionais”. Acreditamos que esse é o objetivo desses setores e a alternativa mais favorável para eles. Claro que, inclusive nesta variante menos “traumática”, não cabe esperar que Trump, por suas características pessoais que já analisamos, aceite passivamente este caminho, mas sim que resista e que se produzam crises, ainda que muito menores que nos casos anteriores.

As tarefas que propomos

Por tudo o que analisamos, um dos nós da situação e sua dinâmica passa pela relação dialética entre as mobilizações e as lutas, por um lado, e a política de dividi-las e mantê-las sob o controle das atuais direções (ou a cooptação das novas que estão surgindo ou que possam surgir no próprio processo), por outro lado.

Em vários artigos da revista Correio Internacional 16 (e em outros publicados neste site), apresentamos propostas de lutas gerais e para cada setor, escritas pelas organizações da LIT-QI nos EUA (Voz de los Trabajadores e Corriente Obrera) e dirigentes sindicais combativos. Por isso, não vamos repeti-las.

Neste artigo, queremos enumerar alguns critérios que guiam as nossas propostas. O primeiro é que chamamos a impulsionar com tudo a luta contra Trump e seu governo e não dar a ele um minuto de descanso. É o que expressamos nas palavras de ordem “Fora Trump!” e “Todos às ruas!”.

O segundo critério é que é necessário evitar a armadilha da divisão dos trabalhadores e das massas que Trump e a burguesia norte-americana querem impor. Por exemplo, entre trabalhadores brancos das indústrias e os dos serviços, negros, latinos e outros imigrantes. É necessário unir a luta de todos os explorados e oprimidos em um só caminho comum. E, como primeiro passo, ser solidário com todo setor atacado.  A grande solidariedade com os muçulmanos diante do “muslim ban” ou a importante participação dos trabalhadores e jovens brancos anglo-saxões nas recentes mobilizações do “dia sem imigrantes e refugiados” (em Milwaukee, Los Angeles e várias outras cidades) são bons exemplos a seguir e ampliar.

O terceiro: é necessário impulsionar a entrada dos trabalhadores no processo de lutas com sua organização e seus métodos (como as greves). Não apenas por suas reivindicações específicas, mas também pelas reivindicações dos outros setores atacados, como a comunidade negra, os imigrantes, as mulheres etc. É necessário exigir das direções sindicais que estão apoiando Trump (como a da AFL-CIO) que rompam esse apoio e se somem à luta. E, daquelas que não apoiam, que saiam de sua passividade. Que sigam o exemplo do sindicato dos taxistas de Nova York diante do “muslim ban” ou o dos portuários de Oakland-San Francisco. Se não fizerem isso, será necessário que as bases “ultrapassem” suas direções para lutar e enfrentar Trump.

O quarto critério é que, no calor desta luta, seja impulsionado o surgimento de novas direções em cada um dos setores mobilizados (trabalhadores, negros, latinos, outros imigrantes, oprimidos, etc.) independentes de ambos os partidos burgueses, especialmente dos democratas. E continuar avançando na coordenação dessas direções para a ação unificada. Um exemplo pequeno, mas que mostra o caminho a seguir, é a plataforma Labor Rising Against Trump (Resistência dos Trabalhadores contra Trump) formada na Área da Baía de San Francisco.

A proposta sintetiza-se em pôr em marcha um grande movimento independente dos trabalhadores e das massas contra Trump. No dia 8 de Março, em mais de 20 países, estão sendo convocadas uma paralisação e mobilizações pelo dia internacional da mulher. É uma excelente oportunidade para avançar neste sentido nos Estados Unidos. A outra será o 1º de Maio, dia tradicional de luta dos trabalhadores do mundo.

Neste caminho, trata-se também de avançar na tarefa mais estratégica: a construção de um partido revolucionário socialista com a perspectiva mais profunda do poder para os trabalhadores e as massas. A base para esta tarefa existe na realidade. Várias pesquisas do ano passado mostravam que a porcentagem de pessoas que simpatizavam com o “socialismo” crescia cada vez mais. Como reflexo disso, milhares de jovens afiliam-se a organizações que se reivindicam socialistas, algumas das quais têm duplicado seus apoiadores desde o ano passado. É, evidentemente, uma adesão inicial e ampla ao conceito de “socialismo”, mas ocorre em um país em que a burguesia e os meios ao seu serviço, há mais de um século, sempre atacaram o socialismo como “inimigo”. É necessário abrir um diálogo com estes milhares de jovens e trabalhadores que se radicalizam.

Nenhuma dessas tarefas que propomos é fácil. Porém, a situação objetiva (que, como dissemos, é inédita na história do país) coloca a possibilidade de que sejam levadas adiante. A LIT-QI e seus militantes nos Estados Unidos se colocam ao serviço delas.

Tradução: Kélvia Trentin