Boletim Eletrônico



Santos-Uribe-Farc: Triângulo das Bermudas? PDF Imprimir E-mail
COLÔMBIA
Escrito por Luis García   
Sáb, 21 de Julho de 2012 15:32
Aparecem como os vértices do triângulo, cada um puxando para o seu lado e buscando imprimir às águas turbulentas o seu próprio movimento. O governo Santos e seus projetos, a oposição burguesa- narcotraficante- proprietários de terras de Uribe acorrentada a seus próprios métodos e defendendo seu passado e a guerrilha das FARC ansiosas por uma “solução política negociada ao conflito social e armado.”
O aristocrata grande burguês e suas locomotivas
Santos foi reacomodando os grandes projetos de uma poderosa burguesia tradicional, solidamente unida ao imperialismo e às grandes multinacionais, que avidamente estão desenvolvendo um acelerado roubo aos imensos recursos naturais de um país que até pouco tempo estava praticamente inexplorado. Nesse terreno, as diferenças com Uribe são praticamente insignificantes e empurram as águas do redemoinho na mesma direção.
O investimento estrangeiro continua chegando abundantemente (em relação ao peso da economia do país) e fomentada por todo tipo de tributação, de superexploração de mão de obra, de facilidades para exportação imediata de suas mercadorias etc. Já estamos chegando a tal extremo, que já é apontado que o “México e a Colômbia tem hoje mão de obra muito mais barata que na China” (Entrevista de María Isabel Rueda a George Friedman, El Tiempo, 28/5/2012).
Além de recompor as relações diplomáticas com a vizinhança (Venezuela e Equador), que tinham sido destroçadas por seu antecessor, o governo Santos se posicionou como um interlocutor válido para os autodenominados “governos de esquerda” da América Latina e consolida com essas burguesias bons negócios.
Avança a integração energética com a Venezuela. O mega projeto do oleoduto transandino permitirá trazer diretamente ao Pacífico colombiano (para embarcar até a China) centenas de milhares de barris diários de petróleo da Cuenca Del Orinoco venezuelana.
Graças à combinação de todas essas circunstâncias, a economia colombiana manteve um ritmo de crescimento suficientemente aceitável, os níveis de lucros dos burgueses se mantêm e aparecem ainda como falsas desgraças e angústias à que estão imersos os governos e burguesias de outros países, no meio da crise capitalista mundial.
TLC: colhendo o plantio uribista


Além disso, sem fazer rodeios e de cara lavada, Santos começa a desfrutar a colheita semeada por Uribe, a quem agradece nos discursos. O maior acordo comercial do país com os Estados Unidos, depois de anos de batalhas e obstáculos, foi ratificado pelo governo norte-americano, entrando em vigência e começando a ser implementado desde 15 de maio.
Esse acordo significa um duro golpe para uma faixa pequena e média dos empresários nacionais e abre de par em par as portas do país ao roubo e à superexploração dos recursos naturais e mão de obra aos grandes imperialistas.
Os pequenos e médios empresários nacionais, como o presunto do sanduíche, serão, igual a sempre, devorados pelas contradições econômicas e pela luta de classes. Por um lado superexploram seus trabalhadores (que por sua vez começam a se defender) e, por outro lado, são asfixiados pelas grandes economias, o capital financeiro e as transnacionais.
 Apenas a cabeça erguida, honesta mas completamente confusa, os senadores do PDA clamam no deserto por um desenvolvimento capitalista democrático, autônomo, que solucione pacificamente a contradição entre o trabalho assalariado e o capital. Ilusão de iludidos. No voraz redemoinho de interesses do capital mundial e das transnacionais, as vozes da oposição pequeno-burguesa encabeçada pelo senador Robledo não significam mais que pequenas turbulências.
Aqueles que durante meses e anos apareceram como obstáculos para a ratificação do TLC – Tratado de Livre Comércio - (ameaças e assassinatos de dirigentes sindicais, violação dos direitos de contratação e associação) seguem produzindo... mas agora não aparecem como “falsos positivos”, agora são “santos positivos”. Quer dizer, são parte da rotina e do cotidiano do exercício de poder no país, através de um regime político profundamente reacionário, para o qual o trânsito de um governo para o outro não passa de um acessório, igual à troca de roupa entre o pano inglês usado pelo aristocrata Santos e o dril Fabricato do tropeiro Uribe.
No entanto, existe uma diferença significativa politicamente. Enquanto cada dirigente sindical assassinado durante o governo Uribe era apontado pelos porta-vozes do alto governo como um colaborador da guerrilha, o governo Santos, ante esses fatos solicita à fiscalização “investigações exaustivas”, que dormirão o sono dos justos. Entretanto, os chefes de departamento pessoal das empresas (muitas vezes oficiais reformados das Forças Armadas) continuam contratando capatazes para que ameacem de morte e assassinem qualquer ativista ou dirigente que se atreva a iniciar o processo de organização de um sindicato.
O que agita as águas Uribe-Santos?
Se tudo que foi dito anteriormente é verdade, quais são as profundas razões que conduzem, tal como louco frenético, a que Álvaro Uribe lance diariamente gorjeios contra o governo Santos, levando alguns a recomendarem inclusive, que o tampem a boca com um esparadrapo, que o coloquem numa camisa de força e o amarrem as mãos?
O governo Uribe desequilibrou muito o regime bonapartista colombiano, regime que de todo modo tem que conjugar, no exercício do poder, a função de diversas instituições. Durante o último governo Uribe, fundamentalmente, se concentrou ao máximo o poder e a capacidade de decisão na camarilha que se organizou na “Casa de Nari”, a qual era conduzida com gritos estrondosos pelo mesmíssimo “Furibe”.
Nesse caminho, pisoteou e maltratou a magistrados severos, na cabeça da Corte Suprema, fiéis e leais defensores do mesmo regime, que reivindicam dos demais poderes estatais um tratamento de igualdade. A negociação com os paramilitares abriu a caixa de Pandora dos agentes e representantes políticos e sócios empresariais desses bandos de criminosos; o que já levou várias dezenas deles ao cárcere.
Uribe não conseguiu se perpetuar no governo. Seu projeto de uma segunda reeleição fracassou pela pressão combinada do imperialismo (que já não o via como um objeto útil e considerou conveniente começar a empurrá-lo para a cesta de lixo), e as frações burguesas locais que viam com pânico a desestabilização institucional acelerada que ele encabeçava. Santos – agente incondicional de todo o plano político, econômico e social de Uribe durante seu governo - apareceu como o fator de equilíbrio do barco no meio da tormenta.

E equilibrar o barco significa redistribuir as cargas, buscando salvar o fundamental. Santos buscou seu “Angelino” para acalmar as tempestades sociais em gestação e contou com a traição aberta ou passividade cúmplice da enorme maioria da burocracia sindical. A mudança agora é que o “trato” é cordial, amável e sem os agressivos insultos de seu antecessor; o do anterior vice-presidente que não teve dúvidas em propor que os estudantes que saíam às manifestações fossem eletrocutados. Dois estilos diferentes, sem a menor dúvida. E o estilo conta! Desta vez, Santos negociou pacientemente com o aparato judicial quais são as contraprestações e “indenizações” que reclamam pelos abusos de que foram vítimas durante o governo Uribe. A reforma da justiça, a ponto de aprovação, sintetiza tais acordos e concessões mútuas.
Santos, igualmente, está disposto a colocar alguns panos quentes na purulenta chaga de seis milhões de camponeses sem terra, de quem foi tirada a terra a sangue e fogo. A Lei de Restituição de Terras tem esse como um dos seus objetivos adicionais; sendo o principal conseguir uma institucionalização e legalização do mercado de terras, imprescindível para o desenvolvimento dos grandes negócios da agromineração que está se desenvolvendo.
Todo o anterior desequilibra as relações com a fração burguesa encabeçada por Uribe, que participou avidamente do furto de guerra dessas terras expropriadas dos camponeses.
Os danos colaterais
Adicionalmente, a mudança do governo Uribe para o de Santos obrigou a danos colaterais significativos, nos quais não se há acordo. Aprisionados, fugindo para o exterior e processados pela justiça se encontram muitos e significativos membros do governo Uribe. Há causas mais que suficientes para atuar judicialmente contra o mesmo ex-presidente. Contudo, a “Comissão de Absolvições” da Câmara, controlada por suas forças, fornece a blindagem suficiente.
Insistentemente Uribe brada defendendo os seus “honoráveis” funcionários. Aconselha uns a fugir para o exterior, outros a passar para a clandestinidade. Acusa e vocifera aos quatro ventos sobre o abandono de seus “ovinhos” por parte de Santos. Incita aos militares na reserva para que façam todo tipo de insinuações de descontentamento dos ativos com relação ao modo com o qual Santos tem feito o confronto político e militar com a guerrilha, o tribunal militar, etc.
Não custa recordar que Uribe, quando viu perdida a possibilidade de sua segunda reeleição, se jogou totalmente ao triunfo de seu bispo, sua grotesca reencarnação, o “Uribito”, que atualmente se encontra processado e preso por movimentação fraudulenta de dinheiro do Estado em Agro Ingreso Seguro, para financiar sua própria campanha eleitoral. “Uribito” esteve a ponto de ganhar a interna do Partido Conservador, derrotado por Nohemí Sanín por poucos milhares de votos.
No meio da desenfreada batalha, nenhuma ação é descartável por parte desta fração burguesa, caso considere que tal ação convém a sua defesa ou a conquista de seus interesses. Não é de graça que o próprio Santos já tenha apontado o início de uma “extrema direita” frente a diversos fatos que chegariam a cobrir, segundo hipóteses manipuladas publicamente, desde o assassinato de dirigentes camponeses que reivindicam terra, até atentados de clara índole terrorista como o atentado a seu ex-ministro Fernando Londoño.
O outro vértice do triângulo: as FARC
Do lado oposto do triângulo das Bermudas da política colombiana, se encontra um conflito armado de mais de 50 anos, que pode ser personificado atualmente nas FARC; impossível de solucionar com diálogos, conversações, ofensivas militares, planos de arrasamento, nem Plano Colômbia com o respaldo do imperialismo. Todos os meios foram tentados e todos fracassaram. E mutuamente todos têm suas respectivas culpas.
Uribe culpa Chávez e a Coréia por supostas políticas cúmplices e de colaboração com as FARC e coloca o retrovisor contra o governo Pastrana por seus diálogos com Caguán. Santos se abraça com Chávez para conseguir sua colaboração na entrega de algumas dezenas de acusados da guerrilha. Uribe acusa Santos de desmotivar as Forças Armadas, produzindo sua desmoralização. O ELN(Exército de Libertação Nacional) declara publicamente que o atentado a Londoño foi da extrema direita, enquanto Santos aponta publicamente que tudo indica que foram as FARC, mas que continua buscando provas que o demonstre. No intervalo, as FARC ocasionam grandes baixas militares a poucos metros da fronteira venezuelana e o ministro sai pra buscar seu relógio Rolex de $23 milhões, que perdeu em um atentado no qual houve 2 mortos e dezenas de feridos. Santos por sua vez, clama a seus generais: “uma ordem aos senhores generais, aos senhores membros de nossas Forças Armadas: É necessário intensificar suas ações contra as FARC, mais chumbo, mais chumbo contra as FARC!” (El Espectador, edição digital, 2 de junho de 2012; retirado do elespectador.com). Na Colômbia o chumbo está barato e não o nega a ninguém!
Cada um dos adversários no campo burguês, alojados nos vértices opostos um ao outro do conflito, toma esse ponto como referência para suas ações e declarações. Quase sempre as FARC são acusadas, correta ou falsamente – para o caso isso não interessa – de toda ação armada. Poderia se dizer que, para o regime político colombiano manter suas características atuais, o conflito armado é uma condição necessária, mutuamente benéfica para todos, exceto para o próprio povo, as comunidades indígenas e camponesas que sofrem constantemente e o resto dos ativistas revolucionários que sem serem participantes do mesmo, são constante e falsamente acusados de serem agentes das forças em conflito.
O Exército leva às zonas de combate, para filmar os fogos da guerra, os jornalistas, que se consideram suficientemente protegidos por seu passaporte de um país imperialista e pelas vestes militares que usam. O “Angelino”, desde a vice-presidência, considera estas atuações erradas e o Exército informa que continuará fazendo. Entretanto, as FARC retêm como prisioneiro de guerra o já citado cinegrafista para depois pedir desculpas por usar tal qualificativo e solicitar o favor de viajar para a França para levar uma cartinha a um governo “amigo da Colômbia”. Tudo indica que Hollande (com suficientes problemas com a crise capitalista que conduziu à queda de Sarkozy) não tem o menor interesse em se meter em mais problemas e despacha o assunto publicamente, indisposto e apontando que não “interferirá” em assuntos colombianos.
Acabar com o triângulo
Existe apenas um caminho para escapar do redemoinho. Uma gigantesca e forte corrente tem que entrar em jogo e destruir o macabro triângulo que parece devorar tudo. Essa corrente só pode ser um massivo e organizado movimento de massas, que levante um conjunto de exigências que abrigue as necessidades e expectativas de milhões de explorados e oprimidos, que desenvolva como método fundamental de luta a mobilização, a greve e o protesto de rua, organizada e decidida democraticamente.
O ano passado os milhares de estudantes que enfrentaram o plano educacional de Santos demonstraram que é possível. Para conseguir é indispensável construir, no calor das lutas e mobilizações parciais e cotidianas que se dão e uma nova direção política e sindical para o movimento operário e popular.
Tradução: Cynthia Rezende

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