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Os desafios dos jovens: Defender o modelo ou transformar a realidade? PDF Imprimir E-mail
ARGENTINA
Sáb, 16 de Junho de 2012 00:44

No passado 27 de abril, com a desculpa de se cumprir nove anos desde a vitória de Néstor Kirchner nas eleições presidenciais contra Carlos Menem - no estádio do Vélez Sarsfield repleto de militantes – a presidenta Cristina Kirchner se dirigiu à juventude de nosso país: “São vocês, as novas gerações, que têm que tomar a dianteira e a bandeira para seguir com os ideais de 200 anos de história”. Acrescentou ainda: “Sinto que os verdadeiros vigilantes deste legado histórico não somos nós que estamos neste cenário, que já estamos velhos, muitos de nós, mas vocês, que não irão permitir jamais que se dê um passo atrás”.

Desse modo, dentro de muitos outros temas, Cristina disse certamente que somos nós, os jovens, que devemos tomar as rédeas de nosso futuro, que devemos ”tomar a dianteira” e escrever nossa própria história. Os ventos da mudança sopram por todo o planeta. Já ninguém nega que estejamos imersos em uma profunda crise econômica que os bancos e as multinacionais provocaram, e que em todas as partes tentam que sejamos nós a pagar pelos pratos partidos. E é em todo o mundo que se resiste a esta injustiça. Dia após dia vemos a juventude trabalhadora, os estudantes e os jovens provenientes de setores populares pondo-se à cabeça dos combates que enfrentam esses ataques que atentam contra nossas condições de vida. Vemos a juventude como protagonista central das revoluções anti-ditatoriais no Norte de África e no Oriente Médio. São os jovens desocupados que enfrentam os planos de austeridade no continente europeu e a base fundamental do movimento dos “indignados”. Apesar dos obstáculos, sentimo-nos parte dessa juventude que desafia os pilares desse sistema que sempre nos disse que temos que esperar, enquanto os ricos são cada vez mais ricos e, pouco a pouco, se fecham as portas de um futuro para nossa geração e as vindouras.

Por isso não concordamos que a maneira de transformar essa realidade, que se apresenta hostil às grandes maiorias juvenis, seja sendo “vigilantes” desse modelo, que devamos defendê-lo e aprofundá-lo como nos propõem. Pelo contrário: acreditamos que a pena necessária para escrever nossa própria página na História só será empunhada se formos capazes de construir um modelo superador; que não se resigne com algumas migalhas da festa de uns poucos; que ultrapasse os freios que nos tentam impôr e escamoteiam o processo revolucionário a que assistimos, todos os dias, à escala mundial.

Por isso nós, os militantes do PSTU, formamos parte da Liga Internacional dos Trabalhadores. Porque acreditamos que apenas poderemos aproveitar essa oportunidade se formos capazes de impôr medidas de fundo que não fiquem pelo caminho, que se concretizem em um programa e por uma organização capaz de levá-las por diante, à escala mundial. Objetivamente, para nós, essa luta não é outra que a luta por um mundo socialista, a única que pode levar até o final as lutas contra o imperialismo e acabar com esse sistema capitalista que dia após dia nos puxa mais para uma crise sem saída. Em síntese, acreditamos que a única saída é lutar por um governos que os que nunca governaram: um governo dos trabalhadores e do povo.
 
Sem embargo, nós da juventude do PSTU, queremos estabelecer um diálogo respeitoso com aqueles que procuram transformar essa sociedade considerando que há que apoiar o atual governo. Ainda que alertemos sobre a impossibilidade de que esse governo realize ditas transformações, concordamos que estamos em um momento decisivo em que a juventude, como protagonista central da classe trabalhadora e do povo, é chamada a ser um ator principal nos tempos que correm. Por isso, enquanto o vamos debatendo, convidamos-te a lutarmos juntos por algumas medidas que possam transformar de maneira substancial nossa realidade, em benefício do povo trabalhador. Convidamos-te a que tragas tuas próprias propostas, para ver como nos organizamos para alcançá-lo. Sabemos que tudo que conseguirmos depende unicamente de nossas forças e de nossa capacidade de mobilização para poder impor nossos objetivos. Por isso mesmo, convidamos-te a lutar juntos por uma saída de fundo que nos permita viver melhor.
 
Quem são e o que representam as organizações da juventude kirchnerista?  
 
É verdade que há vários anos que o apoio de setores juvenis ao governo aumenta, o que se manifesta no crescimento das organizações dessa índole. Esse apoio deu um salto em 2008, com a chegada da crise econômica mundial e a localização que teve o governo ao redor da luta pela resolução 125, contra a patronal do campo. A postura equivocada da imensa maioria da esquerda (que deixou alguns, apoiando os setores mais reacionários do campo e a outros próximos da contenda, numa suposta postura neutral) deixou caminho livre ao governo de Cristina para capitalizar politicamente e fortalecer-se. Apesar de não poder votar dita resolução, por mais limitada que esta fosse, o governo foi visto pela sociedade como representante de um suposto enfrentamento com as patronais e o imperialismo. É nesse contexto que começam a tomar relevância os agrupamentos juvenis kirchneristas. Entre eles, La Cámpora é, indubitavelmente, o mais favorecido pela presidenta.
 
Por isso, longe do que alguns meios e setores reacionários tentam demonstrar, milhares desses jovens que se juntaram a essas organizações o fazem com um são espírito transformador, acreditando que desde ali se pode mudar as coisas. No entanto, em nosso entender, ditas organizações e seus dirigentes não encarnam esse instrumento de mudança necessário, por estarem atados a um modelo capitalista que cada vez mais evidencia mais sintomas de crise. Pelo contrário, são um dique de contenção para conter todo esse potencial revolucionário dentro das margens do “possível”e do “menos mal”. São uma tentativa de encaixar, nos limites do sistema, uma juventude que o teria rejeitando, sendo protagonista da revolução do Argentinazo, em Dezembro de 2001.
 
Daí, esse empenho ousado por dar seu “relato”da História, onde Cristina e o conjunto das organizações que a apoiam tentam construir a falsa ideia de que a juventude regressou à política pela mão do modelo nacional e popular do próprio governo, traçando uma ponte entre a geração da década de 70 e a atual juventude kirchnerista, como se não tivessem existido experiências militantes de “outros jovens” pelo meio.
 
O certo é que não é a primeira vez que os jovens tomam parte da política, massivamente. Inclusivamente, integrando cargos importantes no mesmo Estado. José Natalson, diretor do jornal progressista Le Monde Diplomatique ,  de cujas páginas apoia o governo atual, sustenta o seguinte:  “Desde o começo, desde antes inclusivamente de sua chegada à presidência em 1983, o alfonsinismo [1] se apoiou na Coordenadora [2], um agrupamento de jovens surgidos no final dos 60, em pleno governo de Onganía (…), com o objetivo de renovar o radicalismo apartir de uma proposta que incluía a defesa da democracia e a recusa à, nesse instante, muita na moda via armada. Uma vez no poder, os integrantes da Coordenadora – jovens brilhantes provenientes, a maioria deles, da política universitária – operaram como o núcleo mais dinâmico do governo, onde chegariam a ocupar lugares destacadíssimos: Enrique “Coti” Nosiglia, Ministro do Interior; Facundo Suarez Lastra, Intendente de Buenos Aires; Jesús Rodríguez, Ministro da Economia”.
 
Do mesmo modo, ainda que os dirigentes krichneristas tentem ocultá-lo, é o próprio Natalson que sustenta o seguinte: “Ainda que as análises mais comuns insistem em recorrer à comparação com os Montoneros [3], e ainda que, por vezes, eles mesmos confundam com seus cânticos extemporâneos, o certo é que os jovens kirchneristas têm pouco que ver (…). E é que a realidade dos jovens camporistas tem mais a ver com o pluralismo, a ginástica eleitoral e a linguagem dos direitos incorporados à política nos 80s, resultado, em boa medida, do êxito dos do alfonsinismo e seus jovens-guardiães. Por isso, assim como rever a experiência alfonsinista é crucial para entender o kirchnerismo,  analizar a derrota da Coordenadora é chave para, em um exercício de juventudes comparadas, vislumbrar o futuro de A Cámpora.”
 
Por último, expõe: “pareciam ter tudo e, sem embargo, fracassaram, unanimemente e sem matizes”. Finalmente, todos os integrantes da Coordenadora votaram as leis de obediência devida e ponto final [4] e apoiaram os ajustes econômicos do governo de Alfonsín. O mesmo sucedeu com a juventude do Frepaso [5] em finais dos 90s, que logo na Aliança despertou enormes expetativas e uma profusa militância juvenil, desembocando em uma enorme frustação com a fuga por helicóptero do governo de De la Rúa [6].
Por sua vez, Cristina e seu grupo de intelectuais tentam ocultar que houve muita militância da juventude antes da sua chegada ao governo, essencialmente contra as instituições do sistema. Uma simples contagem dos mortos que deixo o Argentinazo nos permite comprovar que foram os jovens que encheram o peito e estiveram na vanguarda das jornadas revolucionárias de 2001. As organizações de desocupados, as assembleias de bairro e o conjunto das lutas operárias e populares que cortavam as ruas do país estiveram impregnadas da força de milhares de jovens organizados em distintos partidos e movimentos. As direções estudantis queexpulsaram a “Franja Morada” da FUBA [7] e de grande parte das Federações estudantis; os novos dirigentes operários que enfrentaram a burocracia (ferroviários, subterrâneo, etc.), os militantes que perderam sua vida como Kosteky e Santillán em 2002 e Mariano Ferreyra mais recentemente, demonst am que existe uma grande força militante que não apoia este governo e que, no entanto, intervem de forma ativa na política desse país.
 
A liturgia setentista [8]
 
Alberto Fernández, o outrora chefe de gabinete do primeiro governo kirchnerista, e principal operador político, deixou algumas reflexões sobre qual é a relação entre as organizações kirchneristas e sua retórica setentista: “Longe do que alguns analistas consideram, La Cámpora não reconhece um sustentáculo ideológico coeso nem trabalhado, ainda que exiba uma certa simbologia próximas daquela Juventude Peronista. No entanto, sua direção exibe uma escassa formação política, à qual se soma uma conduta particularmente submissa frente ao poder político. Não são, como foi a Juventude Peronista dos anos setenta, interpeladores do poder, mas seus celosos guardiãos. Seu discurso exalta as figuras de Kirchner e Cristina e constrói uma mística emotiva. Ironicamente, para além da sua aparência revolucionária, esse discurso duro que só refere os acertos governamentais e que exige “um alto sacrifício militante” não condiz com esse modo de exercer a política silenciando as críticas, terminando no centro próprio das superestruturas, disfrutando das comodidades de desfilar pelos tapetes vermelhos do poder sem desafiá-lo”. Se bem que hoje este personagem já não faça parte do governo atual, ninguém poderá dizer dele que não conhece bastidores do governo kirchnerista ou quem mantem algum simpatia pela esquerda.
 
Ou dito por outro protagonista: “Uma primeira impressão é que o incentivo que o kirchnerismo oferece aos jovens de hoje com a liturgia setentista tem pouco a ver com a agenda, as práticas e as ideias dos 70s (…) Como bem assinala Carlos Altamirano, aos olhos de um militante dos 70s a palavra “progressista” indicava pusilanimidade, o kirchnerismo seria um processo redistribucionista e não um tentativa de mudar as estruturas sociais”.
 
Esse apelo permanente ao espírito rebelde da juventude dos 70s deve-se a que a atual juventude é filha direta das jornadas revolucionárias de 19 e 20 de dezembro, cujos ensinamentos existem na memória da atual geração de jovens. Mas como tentámos demonstrar, mais além do relato dos atuais dirigentes dos agrupamentos juvenis kirchneristas, estes têm maiores pontos de contato com os velhos guardiães subordinados ao poder da Coordenadora radical, que com o espirito revolucionário de quem persegue uma verdadeira mudança. De todos os modos, além das aparências, sempre será dificil tentar tapar o sol com a peneira.
 
Lutemos juntos por uma saída de fundo 
 
Nós, os jovens e o conjunto do povo argentino, estamos “por recuperar as Malvinas para nossas instituições, porque já são parte de nossa História e de nossa geografia”, como diz a presidenta. Agora: qual é o caminho para alcançá-lo? Há que ir unicamente à ONU, compartilhar a mesa do verdugo que há anos se pronunciou e que nunca conseguiu sequer convencer os ingleses a negciar? Há que realizar apenas ações pela via diplomática enquanto suas multinacionais e seus bancos ficam com todas nossas riquezas? Acreditamos que não.
 
Consideramos que devemos aproveitar o apoio dos países latinoamericanos para ir além. Ou por acaso as empresas britânicas que roubam nosso petróleo nas ilhas não são as meas que fazem o mesmo aos nossos poços da Patagônia? É momento de avançar com medidas concretas para apanhá-los onde mais lhes dói.
 
A grande maioria da população viu com agrado a expropriação de 51% da Repsol. Longe dos temores que tentam impôr, a crise imperialista os impediu avançar já contra nosso país. Por isso devemos ir mais além, devemos ir com tudo. O de YPF demonstra que se pode, só é necessário impulsionar uma ampla unidade para o alcançar e tomar a decisão política de mobilizar o conjunto da população para travar todas as multinacionais que saquem nossos recursos e contaminam nosso meio ambiente.
 
Além disso, necessitamos pôr-nos em movimento para deixar de pagar a dívida externa, porque, longe de ter desaparecido o problema de nossas vidas, este ano representa à volta de 15.000 milhões de dólares. É uma quantidade imensa de prata que hoje colocamos nas mãos dos usurários e que deve ser utilizada para levar por diante um plano de obras públicas que solucione o problema da habitação, da saúde, da educação e o emprego do povo trabalhador.
 
Estas podem ser algumas medidas que permitam mudar, de uma vez por todas, a situação em nosso país. Dos setores patronais nos dirão que isso é impossível, que teremos de ir pouco a pouco, que temos que fazer algo que seja “possível”. Mas foi justamente esta resignação que nos trouxe a esta situação. Na realidade, o que realmente se trata de uma utopia é pensar que nós, os trabalhadores e o povo, podemos não pagar a crise sem tomar medidas de fundo.
 
A crise econômica não deixa espaço para meias-medidas. O caminho das meias-tintas é um beco sem saída, uma via direta para a frustração. Do PSTU e da LIT te propomos algo diferente. Não há lugar para discursos. Há que avançar na mobilização e organização por medidas concretas. Em definitivo, como nas barricadas daquele maio francês de finais dos 60s, é hora de “sejamos realistas, exijamos o impossível”
 
Notas:
[1] Corrente interna da União Cívica Radical, dirigida por Raul Alfonsin, presidente da Argentina entre 1982-1989.
[2] Coordenadora: Junta Coordenadora Radical, organização juvenil de muito peso no alfonsinismo e no seu governo.
[3] Montoneros: organização político militar da esquerda peronista na década de 70.
[4] Leis de obediência devida e ponto final: leis aprovadas no governo de Alfonsin para impedir o julgamento e castigo pelos crimes da Ditadura cometidos pelos militares de menor patente. Só seriam julgados e condenados os generais
[5] Frepaso: Frente País Solidário, nome da organização que rompeu com o peronismo na  década de 90. Aliou-se com a UCR nas eleições de 1999, na Aliança.
[6] Fernando de la Rua dirigente radical, eleito presidente em 1999 pela Aliança. Foi derrubado pelo “argentinazo” em dezembro de 2001.
[7] Franja Morada: organização da UCR nas universidades, FUBA Federação Universitária de Buenos Aires (espécie de DCE da UBA).
[8] Liturgia setentista:quer dizer os aspectos formais da militância de esquerda na Argentina nos anos 70 (linguagem baseada numa mística da revolução).

Fonte: Avanzada Socialista n.25, maio de 2012.
Tradução: Rui Magalhães

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