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6 de maio em Moscou: Putin não pôde, mas nós sim. Imprimir E-mail
RÚSSIA
Escrito por POI – Rússia   
Dom, 03 de Junho de 2012 15:41
  Uma grande surpresa: o que é bom para o povo é mortal para Putin
A manifestação de 6 de maio foi vista por todos. Os prognósticos antecipavam uma derrota que foi esperada pelo regime. O mesmo esperava os organizadores da convocatória e até os participantes não acreditavam muito no êxito. No entanto, todos foram à manifestação cumprir seu dever, surpreendendo o regime e a direção da “Marcha do milhão” com uma presença de dezenas de milhares de pessoas.
Velhos e jovens, homens e mulheres, russos e outras nacionalidades, moscovitas e habitantes de outras regiões como São Petersburgo, regiões próximas e mesmo Ulyanovsk, lugar onde Putin está instalando uma base militar da OTAN. Todos confluíram em uma massa de enfurecidos com o regime usurpador. Rússia sem Putin! Putin ladrão! Não à reforma da educação! Recuperemos o petróleo para o povo! Abaixo o czar! Soava pela capital russa no momento em que “o grande forte líder” se preparava para sua coroação, encerrado nas quatro paredes do Kremlin grotescamente rodeado de barricadas e de veículos militares, carros lança-água, ônibus cheios de policiais e incontáveis cordões de policiais de choque.

Quando o ladrão grita “pega ladrão!”
A manifestação pacífica acabou em enfrentamento. Hoje o governo diz que “as desordens foram provocadas” e que investigará para encontrar os culpados. Os meios de comunicação de massa, servos de Putin, acusam os manifestantes pelo acontecido. Mas justamente o governo fez todo o possível para fazer fracassar o ato. Até o último momento demorou para responder sobre o local da manifestação[1]. Na véspera da manifestação, os grandes meios de comunicação davam a versão de que todos os jovens que “violaram a lei e a ordem” seriam obrigados a servir ao exército. Outra versão indicava que um grupo de “terroristas daguestanês” se havia instalado na cidade. Nas regiões ao redor de Moscou foram detidos ônibus e foi cancelado um trem com destino Nijniy Novgorod–Moscou que levava pessoas à manifestação. Desde a manhã, a polícia não deixava passar equipes de som para montar o palco e quando dezenas de milhares de pessoas chegaram à Praça Bolotnaya formaram um cordão na entrada não deixando as pessoas passarem. Isto provocou a justa insatisfação e os primeiros choques. Entre a multidão havia um grande número de provocadores instigando e começando os confrontos com os policiais, o que era indispensável para o regime justificar a repressão contra o protesto. Mais tarde prenderam todos os organizadores da marcha, dando por derrotado o ato. Logo chegou a “limpeza” da praça por parte da polícia de choque, praça da qual ninguém planejava sair. Disto se pode encontrar muito na internet, já que existem vários vídeos com imagens de como a polícia bate em manifestantes pacíficos e prende qualquer um que caia em suas mãos. Depois disso tudo, fica clarísimo, que o único provocador é o governo, ele que sente pânico por seu próprio povo.
A primeira batalha do povo contra o regime
Até hoje o “trabalho” da OMON, a tropa de choque da polícia, sempre consistia na repressão de ativistas pontuais. Mas no dia 6 de maio pela primeira vez na era Putin, deu-se choques entre as massas e a OMON. Pela primeira vez esteve frente a frente com milhares de pessoas furiosas com a impunidade de Putin. Pela primeira vez o governo utilizou gás lacrimogêneo contra seu próprio povo. Em resposta às ações violentas da OMON, o povo por iniciativa própria se auto-organizou, formou correntes humanas e rechaçou vários ataques policiais. Pela primeira vez as hordas da OMON receberam golpes nos dentes e alguns foram feridos. Os que estiveram na praça puderam ver como os esgotados e espantados policiais pela primeira vez se viram incapazes de “cumprir as ordens”. Sem dúvida que os manifestantes não tinham forças para vencer a polícia, por isto não restou outra opção que a de abandonar a praça. Além disso, poucas pessoas viam a possibilidade de passar a noite ali. Mas é importante que o povo, a saber, o povo russo, nós, pudemos rechaçar as agressões da OMON. Neste 6 de maio o povo deu uma lição ao regime.
O governo e seus defensores expõem os policiais feridos para testemunhar a “selvageria” dos manifestantes. Quando é o governo de Putin, que se dedica há 12 anos a golpear o povo através da OMON, se trata de um exemplo de vida, mas quando o povo responde é, incondicionalmente, interpretado pelo governo como um “jogo sujo” e como “desordens”. Quando o governo agride cidadãos está tudo bem, mas quando os cidadãos resistem às agressões aos olhos do poder isto é inaceitável. O governo se faz passar por pacifista mas sem deixar de bater no povo com cassetetes. Não ansiamos por nos enfrentar com a polícia em nossos protestos. Os enfrentamentos são causados pelo próprio governo. O povo tem direito à auto-defesa. Qualquer pessoa honesta em tal situação sempre fica do lado do povo. Nós reivindicamos os manifestantes que com suas próprias forças enfrentaram a polícia.
 Conclusões do 6 de maio
Com sua reeleição Putin queria “encerrar” o período de protestos e consertar as brechas em seu próprio regime que produziram as massivas manifestações. Evidentemente ele contava que as manifestações acabassem. Mas o governo não conseguiu. Sua coroação foi feita em um Kremlin assediado pelas massas e a OMON, três dias depois das manifestações se viu obrigada a caçar ativistas, dezenas e inclusive milhares se reúnem em vários bairros do centro de Moscou. Justamente ali é onde se organizaram acampamentos permanentes similares aos do movimento “Occupy Wall Street” onde permanentemente existem centenas de ativistas discutindo os problemas do país, falando sobre o que pensam e onde todos se unem sob o sentimento de liberdade e ódio ao corrompido regime repressivo. Antes, isso era impossível de imaginar.
O regime não encontra a maneira de enfrentar as “caminhadas populares” [2]. Não se via algo assim na Rússia desde há muito tempo. Este fato vai pressionar Putin de maneira similar à marcha do Domingo Sangrento [1905] que pressionou Nicolau II. Neste 6 de maio, Putin sofreu uma derrota política e possivelmente maior do que nos parece à primeira vista, e o autor desta derrota não é ninguém mais que as massas que tomaram as ruas.
Qual é a correlação de forças e o que fazer?
Agora se pode dizer que se abriu uma nova etapa política no país. Quais são suas principais características?
O regime não pode encerrar a crise política. Ao contrário, no 6 de maio, por causa dos enfrentamentos nas ruas, apareceram novos elementos que aprofundam a crise do regime.
Manifestações massivas. A contracorrente e sua energia refletem a profundidade dos processos que estão ocorrendo no país, que a insatisfação das massas é muito mais forte do que parece e levará a um ascenso.
Ocorreu uma proletarização das manifestações. No dia 6 de maio, na manifestação, não esteve nem Projorov [3] nem Kudrin [4] nem a “juventude de ouro” [5]. Tampouco houve pessoas em casacos de pele [6] e não somente porque estamos na primavera. Uma grande parte dos liberais se negou a confraternizar com a manifestação. Os membros do partido “Yabloko” Mitrojin e “o defensor dos direitos humanos da presidência da Federação Russa” Lukin se uniram ao coro do regime contra a manifestação. Yavlinsky chamou a encerrar as manifestações e esperar novas eleições daqui a 6 anos. Com o fim do período eleitoral a “rebeldia” de muitos liberais se dissipou. Diferentemente da manifestação em Sajarov, a de 6 de maio foi muito mais vermelha. Pode-se dizer que na manifestação cresceu o peso dos setores populares.
Cai o prestígio do Partido Comunista e outros partidos de oposição por dentro do sistema.
Deu-se um aumento de greves no país no primeiro mês deste ano, ainda que todavia distantes do nível necessário. Mas no que diz respeito às perspectivas estratégicas, justamente a aparição de lutas operárias e sua unificação com as manifestações de rua pode ser um elemento decisivo.
O regime atua nesta nova etapa manchado pela falta de legitimidade da presidência, do parlamento, do sistema de partidos e nestas condições o regime tem que levar a cabo duras medidas econômicas contra o povo.
Nas palavras do Secretário de Imprensa de Putin, no 6 de maio, à polícia foi que “deveria ter atuado muito mais duramente” e que “pelos policiais feridos deveriam ter arrastado os fígados dos manifestantes pelo asfalto” o que claramente dão a entender que o regime não se dispõe a mudar nada. Em outras palavras, os de cima vão governar como antes, mas, em condições adversas em um momento em que a paciência das massas se acaba. O acampamento em Chistie Prudi é a primeira demonstração do que está por vir.
 
Claro, não vale a pena esperar o desenvolvimento linear da situação quando é demasiado cedo para tirar conclusões. Mas a tendência geral se dirige para um aprofundamento da crise do regime e a aceleração da destruição de seus suportes. Esta tendência geral se conservaria até que Putin consiga acabar com o período de manifestações, mas não conseguiu ainda, pelo contrário: esta situação não faz mais que piorar as circunstâncias. (...)
 
Não ao regime repressor autoritário! Não à impunidade policial!
 
Venha e convide seus familiares, conhecidos e amigos às ações de protesto. O dia 6 de maio demonstrou que quando somos muitos podemos derrotar o regime. Una-se à coluna da esquerda!
 
Nacionalização de 100% das indústrias extrativistas e produtoras de matérias primas e dos bancos.
 
Abaixo o regime anti-popular dos oligarcas, bandidos e ladrões!
 
Abaixo o Czar!
 
O que vem depois?
 
As contradições do movimento se fizeram evidentes na manifestação. Quando a polícia prendia a todos os organizadores, os quais se mostraram “tranqüilos” e o povo estava pronto para defendê-los, a mobilização ficou sem direção. O mesmo regime provocou um vazio de poder na manifestação. Diante dos participantes surgiu a pergunta ”O que fazer?” O próprio povo não conhecia o passo seguinte, mas sabia que não queriam ir embora da praça e simplesmente passeava por ela. O cenário sem dirigentes não desmoralizou as muitas pessoas. Estava claro que não haviam ido à manifestação para escutar a seus poucos prestigiosos dirigentes e deles não esperavam muito, mas sim que os manifestantes só vão às ruas em sinal de protesto. Aqui houve uma ausência de organização: em condições de vazio de poder na manifestação, nenhuma organização estava pronta para tomar a iniciativa de dirigir o movimento organizando, como por exemplo, realizar uma mini-plenária. Quando começaram as corridas e escaramuças dos policiais, as pessoas começaram a se auto-organizar: formaram correntes humanas e se defendiam das agressões da polícia.
 
Neste momento, os representantes liberais que permaneceram, chamavam a atacar as forças policiais ou a desarmar as correntes e colocar tendas de acampamento. É óbvio que uma ou outra opção não colocaria fim aos ataques da OMON. Os liberais necessitam apenas de escândalos e bonitas fotos da repressão para seu álbum de prestígio político; para os liberais os manifestantes não são mais que carne de canhão e os manifestantes corretamente ignoraram seus chamados. A “Frente de Esquerda” de Udaltsov, que se constitui como uma organização de um “Líder”, ficou sem direção e tampouco pôde mostrar o caminho. Em condições de ausência de forças suficientes para enfrentar a OMON e manter ocupada a praça, a melhor decisão foi se retirar da praça de modo organizado e digno, permitindo evitar mais prisões e enfrentamentos.
 
Na manifestação houve uma clara necessidade de direção alternativa. Hoje mesmo está claro que a última gota transbordou o copo e derramá-lo de novo é impossível. O movimento precisa de uma direção alternativa aos liberais, aos que se constroem ao redor de um “líder”, à “Frente de Esquerda” com sua estranha política e suas provocações à polícia. Queremos dizer diretamente que: necessita-se de uma alternativa de esquerda, a construção de um pólo classista que se posicione diante das lutas da classe trabalhadora e a juventude. Esta direção é imprescindível, primeiro para que o movimento não se detenha e não se desvie para o aventureirismo sob a atual direção. Para o dia 12 de junho, se chamou uma nova manifestação e é preciso uma boa preparação para a mesma. Segundo, para que seja um catalisador, fortaleça e unifique outras lutas. As manifestações no país possivelmente crescerão. Por isto se torna evidente que a questão da direção se torna um problema essencial.
1 – Na Rússia as manifestações não podem acontecer sem a aprovação dos órgãos de poder. Organizar uma manifestação sem autorização implica em prisões e multas.
2 – Já que se reunir e manifestar requer autorização, os manifestantes organizaram as “caminhadas populares”, manchas encobertas e disfarçadas de passeio que têm o objetivo de continuar a luta, inclusive indo mais além da organização de manifestações, sem pedir autorização aos órgãos de poder.
3- O oligarca mais rico da Rússia. Nos recentes comícios eleitorais participou como candidato a presidente.
4 – O ex-ministro das finanças de Medvedev. Em uma das primeiras manifestações participou como orador clamando por evitar uma “revolução”.
5 – Se refere aos jovens moscovitas de classe média que tomaram parte na primeira manifestação em 4 de dezembro de 2011.
6 – Na primeira manifestação, que foi bastante policlassista, destacaram-se as senhoras com casacos de pele.
Abaixo estão os vídeos sobre os acontecimentos de 6 de maio.
Tradução: Arthur Gibson  

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Última atualização em Dom, 03 de Junho de 2012 15:54