Boletim Eletrônico



Grécia, França, Itália: Só as lutas podem parar o ataque burguês PDF Imprimir E-mail
ITÁLIA
Escrito por Valerio Torre   
Dom, 13 de Maio de 2012 19:39
Normalmente, quando as eleições administrativas italianas não envolvem uma grande parte do eleitorado[1], se costuma dizer que não se trata de um “teste político”. Todavia, este argumento aparentemente de bom senso não vale no quadro no qual as eleições dos dias 6 e 7 de maio se desenvolveram:  não só pelo fato de que se tratava das primeiras eleições da era pós-Berlusconi, mas também porque ocorreram imediatamente depois das eleições políticas na Grécia e das eleições presidenciais na França. E de fato, o conjunto deste quadro nos ajuda, fornecendo-nos hoje os principais elementos de análise do resultado italiano.
 
O resultado eleitoral na Grécia
 
O resultado das eleições políticas gregas representou um claríssimo e plebiscitário voto popular de rejeição da Troika[2] e dos seus planos de ajuste estrutural aprovados com o objetivo de manter o país na zona do euro[3]: foram punidos os dois partidos, de centro direita e centro esquerda (Nova Democracia e Partido Socialista), que sustentaram o governo Papademos responsável de jogar a Grécia em um abismo econômico e social sem saída, impondo aos trabalhadores e às massas populares um retrocesso histórico para salvar os bancos; cresceram todas as outras forças que, de algum modo, eram opostas a estas políticas, da coalizão de esquerda “radical” Syriza ao Partido Comunista (KKE) e a Esquerda Democrática, até – no lado oposto – ao partido neonazista “Amanhecer Dourado”.
 
No momento, parece problemática a formação do novo governo por causa da fragmentação das forças no parlamento e da incompatibilidade dos programas expressos.
 
As eleições presidenciais na França
 
Na França o eleitorado puniu o presidente candidato Sarkozy, premiando por outro lado a opção política de François Hollande e o Partido Socialista e confirmando a “regra” pela qual, nesta fase, é castigado aquele partido que governou por último. E, assim como na Grécia, a Frente Nacional da extrema direita fascista, com Marine Le Pen à cabeça cresceu enormemente no apoio do eleitorado, interceptando grande parte do mal estar popular e canalizando-o para um programa populista reacionário, xenófobo e racista.
 
O fato é que, para além do discurso eleitoral de Hollande contra as regras da austeridade ditadas pela Alemanha, os interesses do imperialismo francês, embora conflitantes com aqueles alemães, coincidem com estes últimos no projeto de domínio sobre a Europa, com o objetivo de descarregar os efeitos da crise sobre a periferia do continente. Assim, a hipótese mais plausível no futuro imediato é que Angela Merkel fará qualquer concessão de fachada ao recém-eleito presidente francês, que se contentaria assim para salvar a sua cara.
 
O quadro político depois das eleições administrativas na Itália
 
Feitas as devidas diferenciações com Grécia e França, as eleições administrativas na Itália delinearam um quadro geral semelhante com aquele da Grécia e França. Também na Itália, o anseio de mudança determinou, passando pelo espelho deformado das eleições burguesas, notáveis contradições que analisaremos especificamente em textos que serão publicados no site e no jornal Proggeto Comunista.
 
Em linha geral, podemos afirmar que emerge uma difusa rejeição às políticas de austeridade, que se exprime seja no crescente abstencionismo, seja na responsabilização dos partidos que implementaram estas políticas nos últimos anos, aprofundando-as na atual fase política e, tornando ainda mais pesados os efeitos da violenta crise econômica.
 
Neste sentido deve ser lida a grande queda do PDL – Povo da Liberdade - e da Liga Norte, sobre a qual influenciaram também os numerosos escândalos (dos sexuais de Berlusconi aos financeiros que envolveram o estado maior do partido de Bossi). O apoio ao governo Monti e as suas draconianas medidas constituí uma razão a mais da derrocada. A mesma razão pela qual o PD [Partido Democrático] de Bersani, ainda que não tenha registrado uma sangria de votos, contudo não foi visto como uma real alternativa e sofreu uma sensível perda no apoio (91.000 votos a menos, em respeito as regionais de 2010). Não se salvaram o IDV - Itália dos Valores - de De Pietro (menos 55.000 votos) e a UDC - União de Centro - de Casini, que perde os 6,5% do apoio recebido em 2010, mostrando em particular os limites do projeto moderado do Terceiro Pólo, sobretudo no quadro do seu entusiástico apoio ao governo do tecnocrata Monti.
 
O resultado dos “grillini”
 
O Movimento 5 Estrelas do comediante Bepe Grillo é o único real “vencedor” desta jornada eleitoral, confirmando um crescimento anunciado nas precedentes consultas eleitorais. Esta controversa formação política – sobre a qual já no passado fornecemos uma análise (1) – conseguiu atrair (e consolidar) o difuso apoio de setores populares em virtude de uma proposta populista de fundo reacionário e individualista. Graças, pois, à capitulação da esquerda governista (PRC – Partido da Refundação Comunista e SEL – Esquerda, Ecologia e Liberdade) e às posições liberais do PD, apresentando-se com uma fachada aparentemente radical, se beneficiou dos votos dos desiludidos daqueles partidos. Enfim, a conotação ambígua “anti-sistema” que o “grillismo” encarna, permitiu ao Movimento 5 Estrelas drenar também as simpatias de grande parte do apoio dos eleitores da Liga Norte que de outra forma, cúmplices dos escândalos destas últimas semanas que demonstraram a perfeita integração da Liga Norte no corrupto sistema da política burguesa, caminhariam para o abstencionismo.
 

Todas estas razões explicam o ótimo resultado, em geral, desta formação e, em particular, a sua afirmação, sobretudo no Norte e nas chamadas ex “regiões vermelhas”.
 
O voto da esquerda governista…
 
No que toca ao voto à esquerda, enquanto continua o declínio do que resta do Refundação Comunista, SEL de Vendola viu muito reduzida as próprias expectativas.
 
Seguramente, a violenta crise econômica e a escolha do PD de Bersani de “governar” as medidas de rigor impostas pela Troika, através do apoio ao governo Monti fizeram com que a situação de SEL como “ala esquerda” do PD determinasse também a sua estagnação. Também a obsessiva competição com o PD, por parte de Vendola, através da participação nas primárias da coligação levou ao envolvimento do SEL no jogo sujo destes [PD] e a percepção, em uma parte dos setores que olhavam com atenção o SEL, de exaurir-se a “novidade”. Tudo isto explica porque SEL não recebeu o apoio que todas as sondagens preconizavam até poucas semanas, atingindo cifras bem mais modestas que constrangem Vendola, se é verdade que só agora inicia a incitar Bersani (PD) a começar a pensar em romper com Monti (2).
 
Refundação (PRC), ao contrário, confirma sua parábola declinante, a despeito das análises de alguns de seus dirigentes (3). Basta ver os dados das eleições administrativas anteriores nas mesmas cidades que votaram agora nos dias 6 e 7 de maio para verificar o redimensionamento numérico de um partido em forte crise política, de militância e até econômica. Só alguns exemplos: em Genova, em 2007 o PRC teve mais de 15.000 votos e o PdCI quase 6.500; hoje, juntos na Federação de Esquerda (FDS), tiveram pouco menos de 5.300. Em Pistoia passaram dos mais de 2.100 votos do PRC e dos quase 4.200 do PdCI aos atuais 1.172 da FDS. Em Parma, dos 3.200 de 2007 aos 1.290 de hoje, do Refundação. Em Taranto, dos mais de 2.500 aos atuais 725… E poderíamos continuar.
 
A consciência dos dirigentes do PRC desta situação explica porque gastam seus últimos recursos para tentar esconder a realidade atrás de uma espécie de hiperativismo – como, por exemplo, a manifestação nacional convocada para o próximo dia 12 de maio em Roma – a ausência de uma real proposta política alternativa e a vontade (sempre mais explícita) de fechar o mais rápido um acordo com Bersani para as eleições de 2013.
 
… e da centrista
 
Sobre o resultado das forças centristas – Esquerda Crítica e PCL (Partido Comunista dos Trabalhadores) – à esquerda do PRC não é necessário gastar muitas palavras.
 
A primeira, que se afunda sempre mais na crise do próprio projeto internacional e nacional (4), apresentou uma única chapa em uma pequena cidade da Romagna (realmente pouco para um partido que frequentemente se orgulha de ser grande), colocando depois em exibição o resultado no próprio site e indicando como uma espécie de exemplo para o conjunto da esquerda...
 
O segundo partido, que anunciou há alguns meses sua participação nas eleições para provar um enraizamento nacional do partido, se encontra com um punhado de resultados (absolutos e percentuais) na média (ou inferiores) com o resto das forças – a nossa inclusive – que se colocam à esquerda do Refundação (5).
 
O sentido da nossa participação nas eleições
 
O problema está exatamente aqui. O PdAC não está interessado em embaralhar as cartas dos números das eleições burguesas, das quais participa só para desfrutar de uma extraordinária tribuna na qual expõe às massas o próprio programa, com o objetivo de construir a direção revolucionária das lutas a qual ainda não existe mas que, sobretudo hoje, é preciso.
 
Já escrevemos também na nota há pouco publicada no site (6). Os resultados das nossas candidaturas em Lecce e em Verona, embora – como os dos outros “concorrentes” à esquerda – modestos de um ponto de vista numérico, constituem um resultado político que medimos nas novas forças militantes e em um alargamento da área simpatizante do nosso partido. Aqueles que ao contrário constroem o próprio grupo na lógica do eleitoralismo não recolhem nada politicamente e sofrem ainda o boomerang das pequenas porcentagens, e depois são constrangidos a explicar com artifícios contábeis ou com o silêncio (como fez ao menos até hoje o grupo dirigente do PCL, que tinha tocado por semanas o bumbo triunfal: "somos o único partido à esquerda do Refundação", "somos um partido de 1%" etc.).
 
Nós preferimos, ao contrário, de investir os ganhos de visibilidade e de contatos recolhidos nas eleições, na construção, no calor das lutas das quais participamos quotidianamente, do partido revolucionário no quadro de uma Internacional revolucionária. A primeira data importante depois das eleições será domingo próximo, 13 de maio, quando em Verona daremos continuidade a extraordinária experiência da candidatura de Ibrahima Barry – imigrante, operário, trotskista – a “sindaco”[4] de uma das cidades mais racistas da Itália, reunindo os mil que nos votaram, os imigrantes que não puderam fazer (porque não tem direito de voto) e a todos aqueles que querem empenhar-se na construção de algo muito mais importante que uma porcentagem de votos: um partido para contrapor-se à burguesia e aos seus governos, para repelir as políticas de austeridade, para sustentar uma saída operária e revolucionária à crise do capitalismo.
 
(1) “A demagogia reacionária de Grillo: a outra face da crise governista”, http://www.alternativacomunista.it/content/view/1358/47/ .
(2) Entrevista com Nichi Vendola no jornal L’Unità de 9/5/2011.
(3) Pegolo (http://web.rifondazione.it/home/index.php/democrazia-e-istituzioni/6968-elezioni-amministrative-una-prima-lettura-dei-risultati) e Grassi (http://www.claudiograssi.org/wordpress/2012/05/serve-una-scossa-a-sinistra/), contentando-se com um resultado de 2,3 – 2,5%, semelhantes – sustentam – aos resultados das regionais de 2010. O fato é que, ainda que se valendo daqueles dados (que não constituem um instrumento de comparação correto), deve ser lembrado que em respeito àquela eleição o PRC e SEL perderam no conjunto 12.000 votos (menos 16%!).
(4) Do qual constitui um reflexo o resultado decepcionante do NPA (Novo Partido Anti-capitalista) francês nas recentes presidenciais.
(5) Vale a pena recordar os dados de Genova, na região de um dos dois dirigentes nacionais, na qual o PCL não só foi superado pelo partido de Marco Rizzo (um dos alvos de constante polêmica de Ferrando & Companhia: talvez porque ambos “pescam” na mesma faixa eleitoral e tem a mesma concepção midiática e virtual de construção), como ainda perdeu cerca de metade dos votos que tinha nas eleições administrativas anteriores.
(6) “Se aprofunda a crise dos partidos burgueses. Mas a solução virá das lutas, não das urnas”, http://www.alternativacomunista.it/content/view/1637/51/.
 
 
Tradução: Rodrigo Ricupero.


[1] As eleições administrativas italianas não ocorrem simultaneamente em todas as cidades.
[2] União Europeia, Banco Central Europeu e FMI.
[3] Moeda comum da União Européia.
[4] Espécie de prefeito, ndt.

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