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Dilma na ONU: um discurso, vários temas e muitas contradições PDF Imprimir E-mail
MUNDO
Escrito por Diego Cruz   
Ter, 04 de Outubro de 2011 02:12
Em Nova Iorque, presidente pinta um Brasil imaginário para exportação e defende ocupação militar do Haiti
 
Cercado por muita expectativa, a presidente Dilma Rousseff abriu, no dia 21 de setembro, a 66ª reunião da Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque. Apesar de o representante do Brasil abrir todas as reuniões das Nações Unidas desde 1947, o discurso adquiriu contornos históricos por ser a primeira mulher a abrir uma reunião da entidade.
 
Ciente disso, Dilma permeou todo o discurso pela questão de gênero. “É com humildade pessoal, mas com justificado orgulho de mulher, que vivo este momento histórico” enfatizou logo no início, como forma de melhor legitimar o que diria a seguir. Em sua fala, a presidente tratou de temas como a crise econômica, a necessidade de uma “reforma” na estrutura da ONU, as revoluções árabes e a questão palestina.
 
O ineditismo de uma mulher abrindo a assembleia geral e a defesa da criação de um Estado Palestino ganharam destaque na imprensa. O tom supostamente crítico em relação aos EUA e aos países desenvolvidos, por sua vez, ajudaram a atrair a simpatia de muitos setores críticos em relação ao seu próprio governo. Internautas chegaram a criar a “tag” (expressão) #Dilmaday (Dia da Dilma) no twitter. Num aspecto geral, a imagem que se difunde é a do país emergente que desponta no cenário externo e manda seu recado em pé de igualdade aos poderosos do globo.
 
No mundo real, porém, a coisa é bem diferente. Entre omissões, distorções e meias verdades, o discurso de Dilma não trouxe nenhuma novidade, apesar do simbolismo de sua própria presença naquele palanque.
 
Crise econômica e um Brasil para exportação
 
Dilma reforça o caráter preocupante da crise econômica internacional, que “se não debelada, pode se transformar em uma grave ruptura política e social”. Para ela, mais do que apontar os culpados pela crise, é necessário encontrar soluções. E quais seriam? Recursos aos países desenvolvidos não seria problema, afirma Dilma, que dá uma ideia de quais seriam: “uma parte do mundo não encontrou ainda o equilíbrio entre ajustes fiscais apropriados e estímulos fiscais corretos e precisos para a demanda e o crescimento”.
 
Logo a seguir, a presidente afirma que o Brasil, “um país emergente, um país que vive praticamente um ambiente de pleno emprego”, teria muito a contribuir, junto com os países ricos, na resolução dessa crise. Ao lado do binômio “ajuste fiscal” e “ajuda aos bancos e empresas”, Dilma defende a ação coordenada dos países, a fim de evitar a guerra cambial e o avanço do protecionismo. Também defende a regulação do sistema financeiro. Até aí nenhuma novidade no estoque dos discursos pós-setembro de 2008 que marcaram as sucessivas reuniões do G5 e do G20.
 
Dilma oferece, então, o Brasil como modelo aos demais países, construindo a imagem de um país para exportação que pouco tem a ver com a realidade. “Com sacrifício, mas com discernimento, mantemos os gastos do governo sob rigoroso controle, a ponto de gerar vultoso superávit nas contas públicas – sem que isso comprometa o êxito das políticas sociais, nem nosso ritmo de investimento e de crescimento”, diz, em parte do discurso.
 
No mundo real, o governo Dilma cortou R$ 60 bilhões do Orçamento, o maior corte já realizado na história. Como parte disso, mantém a precarização dos serviços públicos, cancelou os concursos agendados para este ano, nega-se a reajustar os salários dos servidores, interrompeu em 2010 os já tímidos reajustes no salário mínimo e para 2012 já avisou que oito milhões de aposentados não terão aumento. Já o crescimento econômico teve uma freada brusca no segundo trimestre e poucos acreditam na meta de 4,5% do governo para o ano.
 
A presidente ainda afirma que “estamos tomando precauções adicionais para reforçar nossa capacidade de resistência à crise, fortalecendo nosso mercado interno com políticas de distribuição de renda e inovação tecnológica”. Se tem alguém que está experimentando uma forte distribuição de renda, além dos bancos, são os empresários e grandes indústrias, agraciados com isenção bilionária de impostos sem qualquer contrapartida. Aos trabalhadores e à grande maioria da população, resta o endividamento e os altos juros cobrados pelos bancos.
 
Haiti, Palestina e revoltas árabes
 
Apesar de a imprensa não ter destacado, Dilma defendeu a posição do Brasil de líder da missão da ONU de “estabilização” do Haiti, a Minustah. Num momento em que chovem denúncias de abusos por parte das tropas de ocupação, e um vídeo em que um garoto haitiano é estuprado por soldados uruguaios corre o mundo, a presidente diz que o Brasil “tem o orgulho de cooperar para a consolidação da democracia naquele país”.
 
Na liderança da Minustah, temos promovido, desde 2004, no Haiti, projetos humanitários, que integram segurança e desenvolvimento”, discursou, colocando um tom triunfalista em um dos mais tristes e vergonhosos capítulos da política externa brasileira. Apesar do discurso oficial, fica cada vez mais evidente o verdadeiro caráter estritamente repressivo das tropas da ONU comandadas pelo Brasil.
 
Sobre a Primavera Árabe, Dilma foi enfática: “Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis”. Só não explicou, claro, a razão da condescendência com que o Brasil trata a ditadura síria de Bashar Al Assad, que empreende uma violenta repressão contra seus opositores.
 
Apesar de a presidente ter defendido o Estado Palestino e sua representação na ONU, não criticou Israel e sua política de extermínio da população palestina. Tampouco mencionou a adesão do Brasil ao Tratado de Livre Comércio Israel para cooperação militar, que garante intercâmbio de tecnologia militar entre os dois países e um convênio entre o Exército brasileiro e uma das principais indústrias militares de Israel, a Elbit Systems.
 
Opressões
 
“Certo, o governo tem alguns problemas, mas Dilma representa um avanço no combate às opressões”, poderia questionar alguém. Seria mesmo assim? Infelizmente, essa visão parece ser um tanto ingênua (em alguns casos, não tão ingênua). Basta lembrar que, na disputa eleitoral com Serra, Dilma se prontificou a não descriminalizar o aborto, bandeira histórica dos movimentos feministas.
 
A política econômica implementada por seu governo, além disso, atinge principalmente as mulheres, que recebem os menores salários, são mais prejudicadas pelo desemprego, a miséria, déficit habitacional, entre outras mazelas sociais que infestam o país, mas que passaram ao largo no discurso da ONU. As “mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos” que Dilma afirmou estar representando naquele palanque são as mais afetadas pela política levada a cabo por seu governo.
 
Por fim, Dilma lembrou sua condição de ex-presa política torturada a fim de mostrar seu apreço por valores como democracia, justiça, direitos humanos e liberdade. Não disse, porém, que seu governo mantém os arquivos da ditadura em segredo, e trabalha por uma “comissão da verdade” sem condições de investigar os crimes do período.
 
O discurso de Dilma foi bonito. Seria melhor, porém, que fosse embasado na realidade, para que o entusiasmo de tanta gente, em especial a de mulheres trabalhadoras, não fosse em vão.
 
Fonte: pstu.org.br 

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