Boletim Eletrônico



As classes populares salvadorenhas e a política de segurança do Governo PDF Imprimir E-mail
EL SALVADOR
Escrito por Jorge Metztli   
Qua, 07 de Setembro de 2011 16:53
Até março deste ano foram assassinadas 854 pessoas em nosso país, uma média de 12 pessoas por dia [1].
 
Hoje se sabe, através de um informe da Unidade Central de Análises e Tratamento da Informação (UCATI) da Subdireção de Investigadores da Polícia, que, até 30 de junho deste ano, 75 dos assassinados eram estudantes, segundo publicação em um dos principais meios de comunicação da direita [2]. Graças a estas preocupantes estatísticas e o imposto aos grandes capitais para a segurança - que o governo propõe aos capitalistas salvadorenhos para resolver o problema - é que, nos últimos dias o debate sobre a violência social em nosso país tem sobressaído.
 
A política de segurança do governo atual: continuação da política de ARENA.
 
A política de segurança dos governos da ARENA tinha como linhas principais a construção de mais prisões (Zacatrás, construída durante o mandato de Francisco Flores); leis de viés autoritário da “Mão de Ferro” contra as gangues: a inclusão das Forças Armadas em tarefas policiais, mediante os Grupos de Tarefa Conjunta (GTC); Leis de exceção e juízes blindados (durante a gestão de Tony Saca); política essa que o atual governo de “esquerda” dá continuidade e se aprofunda: os GTC, agora Grupos de Conjuntos de Apoio à Comunidade, estão no interior das escolas e institutos de educação; em termos gerais se conclui a militarização do país; Funes sancionou na televisão a Lei que “prescreve as gangues”; anunciou, demonstrando uma enorme ignorância quanto ao tema, o serviço militar obrigatório de meninos de ruas. Esta política de segurança de viés tradicional direitista, aplicada agora pelos sócios de “esquerda”, desembocou na criminalização social e política da atividade juvenil. Isto quer dizer, na prática, criminalizar, sem exceção, os jovens das classes populares e daquelas concentrações urbanas onde operam as gangues.
 
Da nossa perspectiva, apenas uma saída estrutural resolve o problema e essa saída se chama investimento na educação estatal, gratuita e de qualidade, e emprego digno para todos e todas.
 
Um dos elementos fundamentais para o funcionamento do sistema capitalista consiste no exército industrial de reserva, isto é, aquela população economicamente ativa que não encontra emprego. É uma necessidade para o sistema que existam estas centenas de milhares de desempregados, assim como as centenas de milhares de trabalhadores informais: todos eles formam parte deste exército industrial de reserva: força de trabalho que faz pressão pela queda nos salários. Os assassinatos de jovens da classe trabalhadora são parte dos efeitos de um sistema econômico que necessita regular o exército industrial de reserva do capital. Os jovens são levados a se matar entre eles, nessa dupla condição de vítimas e assassinos [3], o que é instrumentalizado pelos meios de comunicação, além de deixar créditos políticos eleitorais, minimiza ou torna invisíveis outros problemas – causas estruturais do referido fenômeno da violência juvenil, a saber: o processo abortado da industrialização do país e da América Central em geral; a negação sistemática da educação; a cultura e a arte para as classes populares como produto da superexploração a que são expostas; a falta de emprego digno; muitos dos jovens, tanto vítimas como assassinos “... são filhos de pais que não conheceram emprego estável e, em muitos casos, netos de avós que tampouco o tiveram...”[4]. Isto é o que leva a estabelecer que, na atual ordem das coisas, é impossível encontrar uma solução efetiva para o problema da violência social.
 
A nossa política: aumento de impostos aos ricos e aos grandes capitais para financiar a educação obrigatória, gratuita e de qualidade a todos os níveis. Redução da jornada de trabalho.
 
Assim, da nossa perspectiva, cremos que só uma saída estrutural - que resolva principalmente os problemas que têm que ver com o financiamento da educação a todos os níveis, para que seja gratuita, obrigatória e de qualidade, e que assegure um emprego digno para todos e todas - é a solução para o problema da violência social e criminalidade que aflige não só o nosso país, mas toda a região. Nesse sentido discordamos e denunciamos a política de segurança atual por ser de viés autoritário e por criminalizar social e politicamente a atividade juvenil.
 
É por isso que cremos que a ideia de taxar os grandes capitais, por si só, seja insuficiente. Por isso, consideramos que, também, se deve impulsionar uma reforma tributária onde se eleve o Imposto sobre a Renda (ISR) para os que mais ganham, isto é, para os ricos ou empresários. Com [Alfredo] Cristiani se reduziu a esta classe social 50% de ISR, e com isto o país possui a mais baixa carga tributária na região, porque a burguesia salvadorenha nunca gostou de pagar impostos.
 
A diferença do que nos propõe o governo é que esses ingressos devem ser destinados para garantir aos jovens educação obrigatória, gratuita e de qualidade a todos os níveis, e como complemento indispensável se assegure empregos dignos com salários suficientes que permitam o acesso generalizado à cultura e à arte, e não como está sendo colocado atualmente: para investir em mais polícias, soldados, e prisões. Para assegurar esse complemento, se deve impulsionar a redução da jornada de trabalho e que se abram mais turnos de trabalho, para gerar mais emprego para a juventude e incrementar a produtividade. Só assim acabaremos com o problema estrutural da delinquência e a violência social que se abate sobre nosso país.
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[1]Disponível em: http://www.elsalvador.com/mwedh/nota/nota_completa.asp?idCat=6358&idArt=5659263
[2] Disponível em: http://www.laprensagrafica.com/el-salvador/judicial/203989-policia-confirma-75-crimenes-de-estudiantes.html
[3]Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (Secretaría Geral) Pandillas Juveniles y Gobernabilidad Democrática En América Latina y el Caribe / ed. Luis Guillermo Solís Rivera. – 1a. ed. – San José, C.R.: FLACSO, 2008.
[4]Ídem.
 
Fonte: Jornal El Proletario – UST de El Salvador
 
Tradução: Rui Magalhães

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