Boletim Eletrônico



A moral deles em declínio, a nossa em ascenso PDF Imprimir E-mail
OPINIÃO
Escrito por Cecília Toledo, de Liverpool   
Qua, 31 de Agosto de 2011 02:44
Moral. Eis a questão da Inglaterra hoje. Depois das rebeliões do início do mês em Londres e outras importantes cidades na Inglaterra, o primeiro-ministro David Cameron, do Partido Conservador, declarou que os “distúrbios provocados pelos jovens negros” eram um indício do “colapso moral” da sociedade inglesa.  Com isso tentava justificar as penas especiais que os juízes estão aplicando contra os quase trezentos jovens que foram presos. Em um caso inédito na Inglaterra, as regras da justiça estão mudando para melhor “punir os jovens negros”. Eles estão sendo condenados a penas absurdas, alguns terão que ficar presos durante quatro anos simplesmente porque foram acusados de “incitar as rebeliões” pelo Facebook. Os imigrantes serão deportados sem qualquer direito, o que significa desemprego, marginalização e prisão em seus países de origem.
 
Em contrapartida, nem uma palavra sobre o assassinato de Mark Duggan, nem uma palavra sobre os policiais que atiraram nele. Tampouco o governo comenta as inúmeras fotos feitas por amadores, que estão aparecendo nos jornais, mostrando a polícia agredindo violentamente os jovens negros, muitos já imobilizados, sem poder reagir. Inúmeros testemunhos de pessoas que andavam pelas redondezas também confirmam as agressões policiais, sem que o governo faça qualquer comentário, num completo desrespeito às comunidades negras. Silêncio total.
 
Blair e Cameron: a mesma política
 
O único que se manifestou foi Tony Blair, do Partido Trabalhista, que foi primeiro- ministro da Inglaterra de 1997 a 2007. Ele fez um violento discurso criticando o governo por acusar os jovens negros de responsáveis pelo declínio moral da sociedade inglesa. Antes de começar a sua crítica, Blair admitiu ter tido a mesma reação de Cameron em 1993, quando do assassinato do menino James Bulger, de apenas dois anos de idade. “Em 1993, por causa da morte de Bulger, eu fiz uma declaração muito parecida a essa, de que está havendo um colapso moral na Inglaterra. Agora eu acho que aquele discurso era uma boa política, mas uma má orientação. Temos que focar no problema específico para poder chegar a uma solução apropriada. Igualar isso à perda de moral da Inglaterra não é correto; poderemos nos deprimir, desnecessariamente, diminuir nossa própria reputação e, pior, perder a chance de tratar do problema da única forma que podemos” (The Observer, 21/08).
 
À primeira vista, Blair parece fazer uma crítica “à esquerda” ao governo Cameron, mas, na verdade, o ex-líder do Labour Party acusa o governo de estar sendo brando com os jovens. Enquanto a mídia mostrava cenas de arrepiar os cabelos dando conta da extrema brutalidade com que os policiais tratavam os jovens negros, ele pedia mais suporte para a polícia. “A polícia precisa saber que tem um forte apoio”, disse Blair. “Ela precisa sentir esse apoio por parte dos políticos e da população”.
 
Blair também se insurgiu contra “a direita e a esquerda”, que, segundo ele, não entendem a razão dos conflitos. Para ele, nem a desigualdade social, nem a falta de responsabilidade pessoal são a raiz do problema. “Da mesma forma que em todas as nações desenvolvidas, a Inglaterra tem que lidar com um grupo de pessoas que está além dos limites. A grande causa é o grupo de alienados, jovens desafetos que estão fora da sociedade principal e que vivem numa cultura desregrada, sem qualquer cânone de um comportamento apropriado. Em minha experiência, eles conformam um problema específico que requer uma solução profunda e específica. A esquerda diz que eles são vítimas da desigualdade social, a direita diz que eles precisam ter responsabilidade pessoal em suas ações; ambas perdem o foco. Um programa social convencional não os ajudará. A chave está em compreender que eles não são um sintoma da sociedade como um todo. A Inglaterra como um todo não está em declínio moral”.
 
E completa: “A verdade é que muitas dessas pessoas vêm de famílias que são profundamente disfuncionais, operando em termos completamente diferentes do restante da sociedade, seja classe média, sejam pobres. É um fenômeno do passado século 20. Existe em praticamente todas as nações desenvolvidas. Está além de qualquer política geral ou programa tradicional de investimento ou tratamento”.
 
O ex-líder Trabalhista disse que, no final de seu mandato, percebeu que a solução era a intervenção família por família, uma reforma na justiça criminal em torno ao comportamento antissocial, o crime organizado e as gangues. O programa para isso, segundo ele, foi concebido em seu governo para ser aplicado por seu sucessor, Gordon Brown, mas “teve que enfrentar um ataque constante por parte da oposição, esquerda e direita, no terreno das liberdades civis e por entender que estávamos estigmatizando os jovens”. (The Observer, 21/08)
 
Blair reconhece que não fez nada para resolver o problema da desigualdade social, apesar de suas promessas de campanha e do próprio programa do partido ao qual ele pertence, o Labour Party, que sempre diz aos trabalhadores que vai resolver o problema da pobreza. Em outras palavras, tanto Blair quanto o Labour mentiram à classe trabalhadora o tempo todo.
 
Blair também reconhece que seu partido nunca encarou os jovens negros e pobres como parte do conjunto social, parte da classe trabalhadora inglesa, mas, sim, como párias, marginais, gangues que precisam ser exterminadas. Essa é a política do Labour Party, que não difere em nada da política atual do Partido Conservador, de reformar a justiça para melhor punir. É uma política de punição, de criminalização, e não uma política de erradicação da pobreza, de acesso ao ensino público, de qualificação profissional e de pleno emprego, sem qualquer tipo de discriminação. Fortalecer a polícia, aumentar o número de cadeias, reformar a Justiça para melhor punir: essa é a solução proposta por Blair, ao contrário do que “diz a esquerda”, de que é preciso acabar com a desigualdade social.
 
“Bolsa Família” ao estilo inglês
 
Em solene discurso para os seus eleitores e num claro recado aos banqueiros, milionários e o conjunto dos países europeus, o primeiro-ministro David Cameron prometeu ajudar as 120 mil famílias “mais problemáticas” como parte da política do governo de coalisão (Conservadores e Liberais) de criar uma retaguarda de segurança contra o que ele chamou, solenemente, de “lento colapso moral” da Inglaterra (Guardian, 16/08). Disse que seu programa para as próximas eleições terá o firme propósito de concentrar todas as suas forças em criar um programa de ajuda a essas famílias. Analisando as causas dos conflitos – entre as quais ele jamais menciona a política do governo de cortes nos serviços públicos -, Cameron jogou a responsabilidade nessas famílias, “que vivem uma complexidade social múltipla e enfrentam problemas econômicos”, e disse que, para evitar uma quebra nos valores morais da sociedade britânica, é preciso reabilitar essas 120 mil famílias. “Nós precisamos de uma ação urgente sobre essas famílias que algumas pessoas chamam de ‘problemáticas’, outras chamam de 'turbulentas'. Todo mundo conhece uma família assim no seu bairro e sempre evita contato com ela.”
 
Cameron disse que iria pedir à chefe da organização Action for Employment (Ação pelo Emprego), Emma Harrison, que indicasse essas “families champion” (família-modelo), para usar sua experiência em tratar com famílias problemáticas em três áreas piloto a fim de evitar os problemas burocráticos que prejudicaram a rápida expansão do programa similar criado pelo Labour Party em 2006.
 
Em 2008, o então primeiro-ministro Gordon Brown, do Labour Party, prometeu atender “mais de 110 mil famílias problemáticas com jovens desajustados”. Os últimos dados oficiais mostram que, em 2009-2010, somente 3.518 famílias foram de fato incluídas no programa e que este só ajudou 7.300 famílias desde seu lançamento em 2006. (Guardian, 16/08)
 
É um programa tipo “bolsa família” do governo Lula, no Brasil, que mapeia as famílias em situação de extrema pobreza e entrega cestas básicas ou uma pequena renda mensal. Não se trata de erradicar a pobreza, mas apaziguar a fome e, sobretudo, mostrar que o governo está fazendo alguma coisa e deve ser reeleito, mostrar que a Inglaterra não está afundando, como todos pensam que está. Esse tipo de programa criado pelo Partido Trabalhista é uma forma de marginalizar ainda mais as famílias mais pobres, mapeando-as e separando-as em uma espécie de “gueto da pobreza” para que o governo possa exercer um maior controle sobre elas.
 
A pobreza na Inglaterra
 
A desigualdade social, à qual se refere Blair de forma irresponsável, é profunda na Inglaterra. E vem se aprofundando cada vez mais. Todas as pesquisas mostram que, hoje, uma em cada três crianças vive na pobreza extrema na Grã-Bretanha, um dos países mais industrializados do mundo. Isso é muito grave, porque a pobreza provoca um impacto profundo na criança, nas suas famílias, criando uma situação de exclusão social, bem como dificuldade de aprendizagem, problemas mentais e físicos que prejudicam esses seres humanos para o resto da vida.
 
O desemprego também avança. O sindicato GMB informa que 10% da força de trabalho no nordeste da Inglaterra já está desempregada. O número varia entre as regiões, sendo que o maior índice de desemprego está em Nottingham, com dramáticos 14,8%. Paul Kenny, secretário-geral do GMB, disse temer que a recessão fique ainda mais grave com os cortes nos serviços públicos que o governo vem fazendo. “Com o governo cortando milhares de empregos no setor público e com a privatização do setor, a situação em muitas áreas chegará à beira da falência”, disse Kenny (Morning Star, 24/08). Na opinião de Kenny,o governo tem que priorizar o crescimento: “Investimento em construção civil, construção de casas e escolas, energia e transporte são necessários e podem criar empregos e fazer crescer todos os setores da economia”.
 
A moral deles e a nossa
 
Kenny tem razão. Mas deve explicar claramente às suas bases que o governo está fazendo justamente o contrário. Por isso a pobreza não se restringe às 120 mil famílias que Cameron classifica como “problemáticas”. A pobreza vem se espalhando por todo o país e a perspectiva num futuro próximo é piorar ainda mais. A situação já está ficando dramática e medidas compensatórias, como “bolsa família”, estão destinadas ao fracasso. A classe trabalhadora precisa urgentemente declarar-se em greve geral nacional para forçar o governo a interromper imediatamente a política de cortes, e começar a taxar os milionários e os bancos e, com isso, investir em obras públicas e uma política de pleno emprego para todos, incluindo os imigrantes e os jovens negros das comunidades. Não existe outro caminho para resolver a questão das rebeliões e aplacar a ira dos jovens que, com toda a razão, saíram às ruas para protestar.
 
A situação de pobreza que vem crescendo na Inglaterra é fruto da moral que rege os negócios da burguesia e do imperialismo, a moral do lucro, da exploração, da marginalização dos setores mais desprotegidos, como as mulheres, os imigrantes e os negros. É essa moral burguesa imperialista que leva o governo a intervir em outros países para oprimir os povos e fazer com que se ajoelhem e desistam de lutar por seus direitos. Por isso a Inglaterra intervém na Líbia, na Síria, na Índia e outras nações que estão lutando contra os governos locais. Porque, para a Inglaterra, país cuja burguesia está acostumada a exercer uma política imperialista e extorsiva sobre outras nações, não interessa a liberdade dos povos, mas a garantia dos lucros e da exploração tranquila do petróleo e outras riquezas.
 
Tinham razão Marx e Engels quando nos ensinaram que a moral tem um caráter de classe. A moral da burguesia não tem limites quando se trata de explorar os povos. O teatrólogo alemão Bertold Brecht gostava de dizer que, para os banqueiros, “primeiro vem o lucro, depois vem a moral”. E que, por isso, os trabalhadores não podem jamais confiar na burguesia. Mas a nossa moral, a moral da classe trabalhadora, dos que são oprimidos e explorados, sim, tem limites. É a moral da solidariedade de classe, a moral avessa à propriedade privada das riquezas, que beneficia alguns e deixa a maioria à míngua. A nossa moral é a moral da defesa da autodeterminação dos povos que lutam por sua libertação e pelo controle de suas riquezas para que todos possam viver dignamente.
 
Hoje, na Índia, o povo vem se manifestando diariamente contra a corrupção que tomou conta do governo. No Chile, os jovens vêm lutando bravamente pelo ensino público. Na Inglaterra e no conjunto da Europa, na Líbia, na Síria e demais nações árabes, os trabalhadores e o povo pobre enfrentam a dominação capitalista imperialista e conseguem grandes vitórias. Assim, estão elevando sua estatura moral contra a moral burguesa, em decadência total. Como disse Cameron, o problema moral é sim um problema atual na Inglaterra. Um problema para a burguesia, porque a sua moral está em declínio e a nossa, em ascenso.

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