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É preciso chamar as coisas pelo seu nome: o que Chávez fez é entrega e traição PDF Imprimir E-mail
OPINIÃO
Escrito por Bernardo Cerdeira   
Sex, 06 de Maio de 2011 12:27
Os fatos são bem conhecidos: há alguns dias, o governo venezuelano deteve e deportou para a Colômbia o jornalista colombiano Javier Pérez Becerra, diretor da agência de notícias ANCOLL.
 
No momento da prisão, o governo emitiu um comunicado onde justificou sua ação alegando que Pérez era procurado pela Interpol e haveria uma “circular vermelha” acusando seus delitos relacionados com a guerrilha colombiana (“conspiração, financiamento do terrorismo e administração de recursos relacionados com atividades terroristas”).
 
O governo do presidente Chávez aceitou a acusação feita pelo governo colombiano de que Pérez Becerra é o “dirigente da frente internacional das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) na Europa” e culpado de múltiplos atos de terrorismo e o entregou em menos de dois dias, sem lhe dar sequer o direito de defender-se perante a justiça venezuelana.
 
Este episódio é um marco na política do governo Chávez para os militantes de esquerda procurados por regimes repressivos. Joaquín Pérez Becerra era um refugiado político na Suécia, país que lhe concedeu asilo após conseguir fugir da Colômbia como sobrevivente do massacre de mais de cinco mil militantes da União Patriótica. Há dez anos, concederam-lhe a cidadania sueca e ele optou por abrir mão da cidadania colombiana.
 
A deportação provocou indignação entre militantes de esquerda de todo o mundo, muitos deles “chavistas” ou simpatizantes do governo Chávez. A indignação é justíssima e necessária. Mas é preciso ir além destas primeiras reações. Se quisermos extrair as lições deste episódio, é necessário buscar as relações profundas que explicam esta repugnante ação do governo Chávez.
 
Entregar um refugiado político a um regime ditatorial viola qualquer princípio democrático
 
O regime colombiano é conhecido em todo o mundo pelas mais graves violações dos direitos humanos. Segundo denúncias de numerosas organizações não governamentais, há mais de 50 mil desaparecidos na guerra desencadeada pelas Forças Armadas e os grupos paramilitares.
 
Há também mais de mil casos de “falsos positivos”, civis assassinados pelo exército e depois vestidos como guerrilheiros para figurar como “baixas” do inimigo e assim contar “pontos” para os batalhões do exército. E nos referimos somente aos casos reconhecidos pelas Forças Armadas e pelo próprio regime.
 
Nesta sinistra atividade repressiva contrarrevolucionária, o regime colombiano conta com o apoio militar, treinamento e logística do imperialismo ianque, fornecidos no marco do Plano Colômbia.
 
Portanto, entregar refugiados políticos a este governo e seu regime assassino é entregá-los a um estado paramilitar, fantoche do imperialismo, e condená-los à tortura, anos de prisão e, talvez, à morte. Ao entregar um refugiado político a um estado que não vai garantir a sua integridade física nem seu direito democrático de defesa, o governo venezuelano viola os princípios democráticos mais elementares e se transforma em cúmplice do governo de Santos e do imperialismo.
 
E nesse ponto é preciso esclarecer uma coisa. Não estamos falando de princípios revolucionários, nem de princípios comuns à esquerda, já que não podemos exigir de Chávez o que ele nunca teve. O que estamos dizendo é que o governo venezuelano abandonou os mais mínimos princípios democráticos, tais como o asilo político e o direito de defesa. Portanto, é necessário chamar as coisas pelo seu nome: trata-se de uma enorme traição.
 
Chávez é o responsável direto pela entrega
 
Antes de qualquer coisa, é necessário dizer que este episódio também serviu para desmascarar o velho conto de que Chávez se “equivoca” porque está mal assessorado e rodeado de corruptos, mas se mantém “íntegro”.
 
O próprio Chávez encarregou-se de desmentir isso. Perante a indignação de setores que o apoiam e acusavam somente o ministro de Relações Exteriores, Nicolás Maduro, e o ministro de Informação, Andrés Ivarra, Chávez deixou claro que a responsabilidade pela entrega de Pérez Becerra era totalmente sua. No ato que reuniu a direção do PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela) no Teatro Teresa Carreño, ele disse várias vezes, e de forma provocativa, “queimem a mim”, e afirmou que não aceitava que o “chantageassem”:
 
“Eu vi aí uns dos senhores que estavam queimando (o boneco com o rosto de) Nicolás, em vez de queimarem a mim, por que não me queimam? Ponham a minha cara no boneco porque eu sou o responsável, não Nicolas. Nicolás cumpriu uma ordem. Tarek El Aissami (ministro do Interior e Justiça) cumpriu uma ordem minha, porque eu tomo as decisões e assumo minhas responsabilidades. Aqui não irão me chantagear”, disse Chávez.
 
Além disso, insistiu em deixar claro que a ordem de deportação veio dele, repetindo a estória da solicitação da Interpol: “Eu respeito seus critérios (dos manifestantes), mas me respeitem, e não queimem os meus ministros, queimem a mim porque sou o responsável por ter enviado este senhor ao governo da Colômbia, eu dei a ordem porque ele era procurado pela Interpol”.
 
Chávez mente
 
No mesmo discurso, Chávez tentou responsabilizar ainda o governo da Suécia, as pessoas que convidaram Pérez Becerra para ir à Venezuela, e até o próprio Pérez Becerra, por deixá-lo com uma “batata quente” nas mãos que o obrigou a tomar a decisão de deportar o refugiado político:
 
“Por que o senhor Pérez pegou um avião lá na Suécia, para sair da Suécia, se ele era procurado, como era, pela Interpol com código vermelho? Por que o deixaram sair da Suécia? Quem o convidou para vir à Venezuela? (...) Esse senhor desceu de um avião, fez conexão. Por que não o detiveram na Alemanha? Não tenho a menor dúvida de que o plantaram aqui para deixar-nos com uma batata quente, de modo que se eu o pego sou mau e se não o pego também sou mau. Cumpri minha responsabilidade e o capturamos e ele está lá, que ele assuma sua responsabilidade. (Pérez Becerra) também deveria dizer quem o convidou para vir para cá, quem o colocou na armadilha, porque o colocaram em uma armadilha, trouxeram-no para cá e o estavam caçando, todo o mundo sabia, a CIA, a Interpol, sabiam até o que ele comeu no avião. Infiltrados, são movimentos infiltrados até a medula.”
 
Chávez mente conscientemente. Em nenhum momento foi obrigado a entregar Pérez Becerra ao governo colombiano. Se considerava que sua estadia na Venezuela traria problemas ao Estado venezuelano, poderia tê-lo devolvido à Suécia, país onde ele vive e tem cidadania.
 
A verdade é que a vergonhosa e traidora entrega de Pérez Becerra responde não à suposta circular da Interpol, mas a um pedido do presidente Juan Santos da Colômbia. Isso foi deixado claro pelo próprio Santos em uma declaração ao jornal El Tiempo de Bogotá: “No sábado, liguei para o presidente Chávez e disse a ele que um sujeito das FARC muito importante para nós chegaria em um voo da Lufthansa naquela tarde a Caracas e se podiam detê-lo. Ele não titubeou. Mandou capturá-lo e vai entregá-lo para nós.” Chávez nunca desmentiu esta declaração.
 
Uma política consciente de colaboração com Santos, com o imperialismo, com a Interpol e a CIA
 
Esta não é a primeira vez que Chávez entrega supostos guerrilheiros ao governo da Colômbia. A política de colaboração com o regime colombiano e o imperialismo já existe há muito tempo. Nos primeiros quatro meses e meio de 2009, a Venezuela extraditou 15 supostos guerrilheiros do ELN (Exército de Libertação Nacional). No início de maio, foram extraditados Carlos Emiro Bustamante Rincón, Diego Armando Pérez Medina, Yaneth Fernández, Benjamín Terán e Gregoria Monterrosa.
 
Esta colaboração incrementou-se após a eleição e posse de Santos, a partir de meados do ano passado. Em novembro de 2010, Chávez extraditou Osvaldo Espinoza, suposto militante das FARC-EP, e Priscilla Ayala e Nelson Navarro, supostos guerrilheiros do ELN. Em janeiro deste ano, extraditou Nilson Terán Ferreira, suposto líder do ELN. No fim de março, deportou dois supostos membros do ELN, Carlos Atirado e Carlos Pérez.
 
Trata-se, portanto, de uma política consciente e sistemática. As razões podem ser encontradas tanto na situação interna da Venezuela, que vive uma crise econômica que debilita o governo, como no plano externo, em que as pressões do imperialismo aumentam. A colaboração com o governo da Colômbia aparece como uma solução para Chávez, tanto no terreno econômico (ao voltar a aumentar o comércio entre os dois países) como no plano externo, ao aliviar a pressão do imperialismo.
 
Tudo isso, é claro, à custa de entregar militantes de esquerda e lutadores populares, reprimir e criminalizar as lutas sociais, atacar a autonomia sindical e aumentar as medidas autoritárias do governo.
 
É necessário acrescentar que o dano político que Chávez causa aos trabalhadores e aos povos latino-americanos é ainda pior, pois justifica sua colaboração com a mesma ideologia utilizada pelo imperialismo, cobrindo suas costas e a hipocrisia de sua política. Por exemplo, a nota do governo sobre a deportação de Pérez Becerra afirmava: “O Governo Bolivariano ratifica assim seu compromisso inquebrantável na luta contra o terrorismo, a delinquência e o crime organizado, em estrito cumprimento dos compromissos e da cooperação internacional, sob os princípios de paz, solidariedade e respeito aos direitos humanos.” O cinismo mais descarado é falar de “paz, solidariedade e respeito aos direitos humanos” quando entrega um refugiado político a um governo criminoso e violador desses mesmos direitos.
 
A traição mais vergonhosa
 
Nós, da LIT, nunca pensamos que Chávez fosse um revolucionário nem sequer um “socialista”, e sempre criticamos seu governo antidemocrático e bonapartista. Então por que dizemos que Chávez trai? Porque sua traição é contra as massas que acreditaram nele todos esses anos. Por isso, seu crime político é profundo.
 
Chávez trai os milhões que viam nele um líder e um governante que enfrentava o imperialismo ianque. Trai as massas colombianas que acreditavam que ele enfrentaria os governos autoritários de Uribe e Santos. Trai centenas de milhares de honestos ativistas de esquerda de todo o mundo que acreditaram sinceramente que Chávez, pela via de um processo revolucionário, conduziria a Venezuela ao socialismo. Referimo-nos, evidentemente, aos sinceros ativistas de esquerda e não aos burocratas corruptos do PSUV e às organizações estalinistas da América Latina e de todo o mundo.
 
Os fatos confirmam: o governo Chávez não tem nada de revolucionário ou socialista
 
Muitos falam de um “giro à direita” de Chávez. É verdade que há um giro político à direita. Mas é porque Chávez abandona seu discurso de esquerda, não porque o Chávez atual seja, em essência, diferente do que sempre foi.
 
Sua política atual não nos surpreende. Ao contrário, confirma o que sempre dissemos: que Chávez, longe de ser um governo dos trabalhadores, revolucionário e socialista, é um governo burguês que teve, às vezes, um discurso nacionalista e anti-imperialista e que tomou algumas atitudes progressivas, como as nacionalizações. Mas sempre sem romper com o sistema capitalista e defendendo sua manutenção. Pior ainda, com um viés marcadamente autoritário contra os trabalhadores e suas organizações.
 
Muitos falam que Chávez está pressionado e teria cedido por “razões de Estado” para permanecer no poder ante as pressões do imperialismo e seu fantoche, o regime colombiano. Pode ser que seja verdade. Mas, em todo caso, são as “razões de Estado” de um líder burguês que quer permanecer no poder em um Estado burguês.
 
Seu objetivo é manter o capitalismo, e suas medidas, por mais progressivas que sejam em algum momento, têm sempre como objetivo manter este sistema. Assim, Chávez segue a mesma trajetória de muitos dirigentes burgueses de países explorados que muitas vezes radicalizam seu discurso antiimperialista, falam de “revolução” e “socialismo”, mas, no final, acabam capitulando ao imperialismo. Nisso, o caminho que Chávez tomou em sua colaboração com Santos se parece cada vez mais com a trajetória de Kadafi, que passou de “revolucionário”, nos anos setenta, a fiel amigo dos imperialismos francês, italiano e inclusive ianque, no século XXI.
 
Chávez pode retificar o seu curso?
 
Alguns apoiadores de Chávez admitem que o presidente se equivocou gravemente. Mas opinam que o caso de Pérez Becerra é um “fato isolado” que não chega a manchar o que seu governo fez de positivo. Por isso, pedem que “retifique” e corrija este erro.
 
Já explicamos extensamente a importância deste episódio, no contexto de uma política geral consciente dirigida ao governo colombiano e o imperialismo. Mas queremos contestar também o tema da “retificação”.
 
Em primeiro lugar, é necessário questionar se isto é possível e, se for, o que Chávez deveria dizer e fazer? Deveria dizer, por exemplo: “Eu me equivoquei e entreguei militantes de esquerda ao governo Santos, colaborei com ele e com o imperialismo, mas me arrependo, peço perdão às massas do mundo e não voltarei a fazer isso”? Imaginar que isso seja possível já seria um delírio. De todo modo, está claro que semelhante autocrítica de um indivíduo que tenha colaborado com os órgãos de repressão não mereceria de ninguém a menor confiança. Porém, é impossível uma mudança real desta natureza de parte do governante de um Estado. Sob determinadas circunstâncias extremas, um indivíduo até pode mudar e eventualmente romper com sua classe. Os governos, ao contrário, sempre têm um caráter de classe e respondem a ele.
 
Decisões como colaborar com os órgãos de repressão do imperialismo e seus fantoches têm a ver com essas determinações de classe. As violações dos princípios democráticos mais elementares são uma mostra de quão longe Chávez pode chegar para se manter no poder e defender o Estado burguês. Não há volta, não há retificação possível. O próprio Chávez dá mostras disso quando, longe de “retificar”, reafirma suas decisões e sua política traidora de entregador.
 
A conclusão é clara: a política, a prática e todo o rumo atual de Chávez e seu governo mostram não só seu profundo caráter de classe, mas sua tendência para a direita.
 
Para que a revolução venezuelana avance é necessário construir uma alternativa independente
 
A grave confusão em que se encontram milhares de ativistas de esquerda tem como origem o fato de identificar o processo revolucionário venezuelano com Chávez e seu governo.
 
O processo revolucionário na Venezuela vive e se alimenta da ação das massas trabalhadoras e populares. São elas as que, desde o “Caracazo”, em 1989, vêm protagonizando os momentos mais importantes da história recente do país. Foram elas que lutaram e derrotaram a oligarquia, o imperialismo e a direita “esquálida” e golpista.
 
Nessa luta heroica, muitas vezes defenderam o próprio Chávez quando este se viu ameaçado pelos setores mais contrarrevolucionários da burguesia. Foi o caso da fracassada tentativa de golpe em 2002; do “lockout” e a paralisação da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.) e o plebiscitoconvocado pela direita.
 
O governo Chávez, cada vez mais, coloca-se contra essas mesmas massas com medidas antioperárias, com ataques sistemáticos à liberdade de organização sindical e às liberdades democráticas em geral. E, agora, com sua capitulação ao governo da Colômbia e ao imperialismo.
 
Esses milhares de ativistas da esquerda latino-americana que apoiam a luta dos trabalhadores e do povo venezuelano estão agora diante de uma disjuntiva. Defender a revolução venezuelana não é o mesmo que defender Chávez e sua burocracia corrupta do PSUV. Hoje, isso significa, ao contrário, diferenciar-se dele, denunciá-lo e combater seu governo. Só assim a revolução poderá avançar.
 
A grande tarefa para os honestos militantes de esquerda, na Venezuela e na América Latina, é construir uma direção política e sindical classista, verdadeiramente revolucionária e socialista. Isto é, independente da burguesia, da oligarquia, do imperialismo, mas também do chavismo. Este é o desafio.
 
Tradução: Érika Andreassy

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