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Há alguns dias, escrevi e publiquei no Facebook uma carta a Valério Arcary, questionando que ele tenha reproduzido uma suposta homenagem a Nahuel Moreno escrita por Ana Cristina Machado, que na verdade era um ataque calunioso baseado na falsificação da história.

Por: Alicia Sagra

Fiz esse questionamento considerando que, quando um dirigente reconhecido, como é o caso de Valério, reproduz um texto calunioso dessa natureza, isso não fica por isso mesmo, tem consequências.

Já estamos diante de uma dessas consequências. Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online, o site do MAIS, em uma publicação no Facebook de 10 de fevereiro, em muito poucas linhas faz um dos ataques mais brutais já feitos contra Nahuel Moreno. Manifesta que sente aversão a ele, a quem qualifica de lgbtfóbico e de bruto com uma moral stalinista. Tudo isso a partir do trabalho que Moreno escreveu em 1969 quando estava preso no Peru, A moral e a atividade revolucionária, onde há uma frase (também citada no texto de Ana Cristina) que coloca o lesbianismo junto aos pederastas como exemplo das perversões sociais e da moral em crise da sociedade capitalista.

Em todo caso, seria um pouco leviano definir tão categoricamente um dirigente só a partir de uma frase, por mais horrível que esta seja. Mais ainda no caso de Moreno, que se caracterizou por enfrentar todo tipo de opressões. Sempre se manifestou em defesa das nações e culturas oprimidas, contra o racismo, a opressão às mulheres. E em relação aos homossexuais, nos anos 1970, na Argentina, o PST, sob a sua direção, foi o único partido que apoiou publicamente as reivindicações do Movimento de Libertação Homossexual (MLH), oferecendo suas sedes para que se reunissem. E isso independentemente da maior ou menor clareza teórica que ele pudesse ter sobre o tema naquele momento.

Mas Moreno, até o último dia de sua vida, preocupou-se em avançar no conhecimento do marxismo, na compreensão da realidade e, a partir daí, em analisar criticamente as suas próprias posições. Assim, avançou na compreensão teórica programática sobre o tema da homossexualidade e, consequente com isso e sem nenhum drama, modificou as posições de 1969, como sempre fazia quando compreendia que tinha cometido um erro.

Jéssica Milaré diz que Moreno nunca se retratou sobre o que ele expressou nessa frase de 1969. Ela é uma jovem militante e pode ser que conheça pouco da obra de Moreno. Não é o caso de Ana Cristina Machado, que em seu texto menciona a longa entrevista de 1986, pouco antes de sua morte, que é considerada seu testamento político, Conversando com Nahuel Moreno. Recentemente, por ocasião do 30º aniversário da morte de Moreno, a LIT-QI fez uma edição especial dessa obra, na qual dá a sua visão sobre o assunto. Quando perguntado o que pensa sobre a homossexualidade, Moreno responde:

Como problema social é muito complexo. Os sexólogos que li opinam que a opressão ao homossexual masculino, que sempre foi muito intensa, começa a se enfraquecer nos últimos anos. Assim como há trinta ou quarenta anos a sociedade rechaçava uma mulher que tinha várias relações amorosas e agora está começando a aceitar, parece que o mesmo acontece com os homossexuais. Existem ainda muitos preconceitos, mas eles vão desaparecendo. Alguns sexólogos italianos reivindicam a homossexualidade feminina: eles dizem que na relação heterossexual a mulher é submetida, enquanto que na homossexual passa a ser sujeito da relação. Há grande amizade e franqueza, as integrantes do casal  falam livremente do que gostam, etc. Eu considero a homossexualidade algo tão normal que me oponho a fazer propaganda. Nesse sentido concordo plenamente com Daniel Guerin, o grande historiador marxista francês – e conhecido homossexual – , autor de um livro no qual reivindica a homossexualidade. Para mim é o melhor que foi escrito sobre o tema. No prefácio à edição japonesa do seu livro, Guerin alerta os homossexuais contra a sua tendência a fazer de sua libertação um fim em si mesmo, e que o grande problema que todo militante deve se colocar é a transformação da sociedade.

(…) Dentro da sociedade lutamos à morte contra a opressão dos homossexuais e todo tipo de opressão: nacional, racial, etc.“.

Pode-se concordar ou discordar dessa visão de Moreno, mas não se pode dizer que a mesma é lgbtfóbica, nem que ele é um bruto que defende a moral stalinista em relação à homossexualidade, como afirma Jéssica Milaré e como o texto de Ana Cristina Machado induz a pensar.

Como se explica essa frase de 1969?

Embora  nunca tenha aparecido uma expressão similar em nenhum de seus escritos anteriores ou posteriores, a frase existiu. A única explicação que se pode dar é que é produto da cultura e do desenvolvimento da ciência da sua época, ou seja, com esta frase Moreno capitulou à cultura homofóbica imperante. Uma cultura homofóbica tão forte que na Inglaterra, um dos países mais avançados do mundo, a homossexualidade era considerada um crime até os anos 1970 e nos países mais “progressivos” deixou de ser considerada uma perversão dos manuais de psiquiatria somente em 1973.

Também é o que explica a atitude preconceituosa de Marx e Engels em relação aos homossexuais, os quais denominavam “pederastas”, como se vê nas cartas trocadas entre eles1; as referências de Lenin às “aberrações da vida sexual anormal ou hipertrofiada2; a menção de Clara Zetkin às “consequências morais da concentração de muitas mulheres em uma fábrica3.

Mas, independentemente das definições mais ou menos atrasadas, que tinham a ver com a época, na política o que sempre se impôs foi o combate a toda opressão. Assim, os marxistas alemães se opuseram à ação judicial contra Oscar Wilde na Inglaterra em 1895; em 1922, o primeiro código penal bolchevique deixa de mencionar a homossexualidade como um crime e a Constituição Soviética “declara uma total ausência de interferência do Estado e da sociedade nos assuntos sexuais, sempre e quando não sejam afetados os interesses de nenhuma outra pessoa“; Clara Zetkin defende os homossexuais perseguidos por Stalin nos anos 1930; Moreno oferece as sedes do seu partido para que o MLH se reúna na década de 1970 na Argentina.

Analisar uma personalidade independentemente da sua época tem pouco a ver com o marxismo. E tem muito pouco a ver com a honestidade intelectual atacar dirigentes por posições do passado, quando estas foram corrigidas e alteradas. Ninguém pensa (exceto o stalinismo) em dizer hoje que Lenin defendia a revolução por etapas e que Trotsky era contra o Partido Bolchevique, porque eles abandonaram essas posições em 1917. Então por que atacar Moreno por uma frase de um documento de 1969, quando na prática ele atuou de outra forma e explicitou sua mudança de posição em um trabalho de 1986, amplamente difundido?

Como eu disse, pode ser que Jéssica Milaré não conheça as últimas posições de Moreno, nem seu posicionamento político em relação ao MLH na década de 1970. Porém, como é que os dirigentes do MAIS, que se reivindicam morenistas, não se preocupam em esclarecer isto a essa jovem companheira?

Qual era a moral defendida por Nahuel Moreno?

É inexplicável que os dirigentes dos MAIS não digam nada quando uma colunista de seu site declara publicamente que o texto de moral de Moreno de 1969 é “uma visão stalinista das pessoas LGBTs, para justificar um julgamento moral sobre as LGBTs dentro da organização revolucionária“.

O texto de Moreno, como toda a nossa corrente sabe, não foi escrito para responder a Stonewall, como diz Jéssica Milaré. Não sei se ele foi escrito antes ou depois de 28 de junho de 1969. Mas tenho certeza que muito dificilmente os ecos desses acontecimentos tenham penetrado as paredes da prisão peruana onde Moreno estava preso, em uma época em que não se contava com os meios de comunicação de hoje em dia.

Esse texto foi escrito para responder a problemas do partido argentino que não tinham nada a ver com a homossexualidade, mas com o desenvolvimento de uma moral que partia da reivindicação do prazer e da liberdade individual, uma moral de “fazer o que tenhamos vontade“, da satisfação das próprias necessidades de cada um, sem pensar nos presos, nos novos companheiros, sem nenhum tipo de regras e normas. Ou seja, uma moral que tinha muito a ver com a moral espontaneísta, da qual se fazia campanha e era levada à pratica por quadros e dirigentes do partido e cujas vítimas eram principalmente as mulheres.

A isso Moreno contrapõe a moral bolche, que tem a referência central na revolução socialista mundial e que em nível partidário se baseia no fato de que não há nada mais importante do que o outro companheiro/a, tanto na ação militante como nas relações pessoais, baseadas na franqueza, na honestidade e no respeito pelo outro/a.

Jéssica Milaré tem, evidentemente, o direito de ser contra esses critérios morais defendidos por Moreno. Mas é preciso lhe esclarecer que esses critérios não têm nada a ver com a moral stalinista, a moral dos privilégios aos dirigentes (em todos os níveis), a moral da mentira, dos amálgamas, da falsificação da história, da calúnia.

Pelo contrário, seu questionamento à moral espontaneísta, à moral do “prazer e da liberdade individual“, tem muito mais a ver com o que Lenin expressou em sua conversa com Clara Zetkin:

Sinto a mesma repugnância tanto por esse respeito hipócrita à moral burguesa quanto por esse constante fuçar na questão sexual. Por mais que esta atitude seja considerada rebelde e revolucionária, no fundo é perfeitamente burguesa. É, na verdade, uma tendência favorita dos intelectuais e dos setores relacionados a eles. No nosso partido, no seio do proletariado militante, com consciência de classe, essas questões não têm lugar.

A mudança de atitude dos jovens diante dos problemas da vida sexual é, obviamente, uma questão ‘de princípio’, e pretende apoiar-se em uma teoria. Muitos chamam a sua atitude de ‘revolucionária’ e ‘comunista’. E honestamente acreditam que é. Para mim, que sou velho, isso não impressiona. E ainda que eu não tenha nada de asceta sombrio, acho que o que eles chamam de ‘nova vida sexual’ dos jovens – e, às vezes, também de homens maduros – não é, com muita frequência, mais do que uma vida sexual puramente burguesa, uma extensão do prostíbulo burguês. Tudo isso não tem nada a ver com a liberdade amorosa, tal como os comunistas a concebemos.

Certamente você conhece a famosa teoria de que, na sociedade comunista, a satisfação do impulso sexual, da necessidade amorosa, é algo tão simples e tão sem importância como ‘beber um copo de água’. Esta teoria do copo de água tornou louca, completamente louca uma parte da nossa juventude, e foi fatal para muitos garotos e muitas garotas. Seus defensores afirmam que é uma teoria marxista (…).

A famosa teoria do copo de água é, em minha opinião, completamente antimarxista e, além disso, antissocial. Na vida sexual, não se reflete apenas a obra da natureza, mas também a obra da cultura, seja de nível elevado ou inferior (…). Porém, ainda mais importante do que tudo isto é o aspecto social. Pois o ato de beber água é, na verdade, um ato individual, e no amor participam dois seres e pode nascer um terceiro, uma nova vida. Neste ato reside um interesse social, um dever para com a coletividade. (…) Como comunista, eu não tenho nenhuma simpatia pela teoria do copo de água, ainda que se apresente com a vistosa etiqueta de ‘emancipação do amor’. Além disso, esta suposta emancipação do amor não é nem comunista nem nova. Como você deve se lembrar, é uma teoria que se difundiu, principalmente, em meados do século passado na literatura sob o nome de ‘liberdade do coração’. Em seguida, a realidade burguesa mostrou que se tratava de libertar não o coração, e sim a carne (…).”4

Deixei passar um tempo antes de responder a este ataque de Jéssica Milaré, esperando algum esclarecimento dos dirigentes do MAIS. Infelizmente, não houve nenhum esclarecimento. Essa ausência torna mais importante darmos esta resposta, já que esse texto não ataca este ou aquele erro de Moreno, mas questiona sua moral, e não se pode permitir que de forma tão irresponsável se tente manchar a moral de um revolucionário, mais ainda quando se trata do nosso principal dirigente e mestre.

Notas

1. Marx e Engels, Obras Completas, cartas de 22 de junho e de 17 de dezembro de 1869, nas quais fazem referência a Jean Baptiste von Schweitzer, que dirigia os lasallistas desde a morte de Lasalle e era conhecido pela sua homossexualidade.

2. Lembranças de Lenin, Clara Zetkin, Biblioteca Virtual, www.omegalfa.es

3. A emancipação feminina e a revolução alemã de 1848, Clara Zetkin.

4. Lembranças de Lenin, Clara Zetkin, Biblioteca Virtual, www.omegalfa.es

Tradução: Lena Souza