Imprimir

Da Revolução de Abril ao Bloco de Esquerda

Escrito por Gil Garcia – MAS - Portugal.

Bookmark and Share

De fato, da Aliança Socialista da Juventude (ASJ), organização de juventude solidária politicamente com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) em 25 de Abril de 1974, até o atual Ruptura/FER passaram 38 anos de combate pelo socialismo. O nosso mérito residiu na audácia de, com uma média de idade não superior aos 18 anos, termos abarcado a causa da luta radical contra o capitalismo.

 

Naquele 25 de Abril, uma revolução perdeu-se não pela responsabilidade desses jovens militantes, mas dos grandes partidos de esquerda, majoritários já à época no seio da classe trabalhadora. O Partido Socialista (PS) e o Partido Comunista Português (PCP) fizeram de tudo menos o caminho do socialismo, apesar de terem pronunciado este nome vezes sem conta.

Dificuldades

No calor dos acontecimentos abertos em Abril de 1974, as grandes diferenças radicavam no rumo a dar ao processo revolucionário e na capacidade de transformar os pequenos grupos de intervenção política, como o PRT, em partidos com influência de massas. Ambas as tarefas nada fáceis.

O período anterior, de ditadura prolongada, não tinha permitido, exceto ao PCP, acumular forças significativas para enfrentar com êxito a urgência de dotar a revolução de uma verdadeira direção revolucionária. Partidos construídos às pressas, com quadros muito jovens e sem experiência política acumulada, não poderiam alterar o rumo dos acontecimentos. E os que já detinham alguma influência e força orgânica, em abono da verdade, não estiveram à altura da situação. E, essencialmente, por razões programáticas, estratégicas e teóricas.

No campo estalinista – PCP e União Democrática Popular (UDP) –, por exemplo, o que procuraram sistematicamente durante o ano de 74/75 foram as alianças com os setores “progressistas” da burguesia para a consolidação da primeira “etapa” da revolução – para uns, a democrática nacional, e para os segundos, a democrática e popular.

Na área do trotskismo, PRT e LCI, cada um a seu modo, cometeram erros e alguns grosseiros. O PRT desvalorizando a ruptura de massas e pela esquerda que significou a formação dos GDUP (Grupos de Dinamização da Unidade Popular) e a candidatura Otelo; e a LCI fazendo seguidismo ao frentismo de vários grupos de extrema-esquerda, dirigidos, de fato, pela estratégia do PCP de apoio ao V Governo provisório de Vasco Gonçalves.

Ausência de direção

A revolução começou a perder-se pela ausência total de uma direção revolucionária para o ascenso de massas registrado. Naturalmente que a todos não foi indiferente o refluxo aberto com o recuo da revolução e o avanço inesperado (para grandes setores) da direita, através da Aliança Democrática (AD), como reflexo da colaboração do PS (em aliança com o CDS de então) na reconstrução do Estado burguês e da estabilidade política no marco do re-equilíbrio da economia de mercado. E com o socialismo na gaveta, como Mário Soares decidiu.

De novo o nosso mérito foi resistir ao abandono, ao situacionismo, à descrença ou à integração social. Foi suficiente? Não, mas preparou a argamassa dos valentes, dos imprescindíveis, como diria Brecht.

A construção de uma alternativa ao capitalismo continua tão necessária quanto outrora e, com esse objetivo, construiu-se tanto o Bloco de Esquerda – formado pela PSR, UDP e Política XXI – quanto a FER (Frente de Esquerda Revolucionária). As polêmicas que nos permitiram militar juntos, mas que também explicam porque o Ruptura/FER foi uma ala específica no Bloco, radicam em muitas lições do processo revolucionário português.

Ameaças

Para a atual direção do BE o decisivo é a força parlamentar, a influência eleitoral no país e não perder laços com setores do PS. Para nós, a inegável importância do peso parlamentar do BE não nos deveria desviar do essencial: construir uma alternativa de base no país, junto à classe trabalhadora.

Um partido com muitos votos, mas sem peso significativo na classe, jamais chegará a qualquer socialismo, mesmo que venha a ter 20% ou 30% dos votos e dezenas de deputados. O socialismo não se constrói no parlamento. Por ele, como aconteceu várias vezes no passado, passam os acordos para desviar o atual ascenso e evitar que cheguemos a um novo 1974.

A grave crise do capitalismo que hoje vivemos torna premente e atual a urgência de uma sociedade socialista. Mais uma vez, um desafio apresenta-se diante de todos nós: a construção de uma ferramenta revolucionária que esteja à altura de um novo Abril. Na compreensão deste desafio, todos os que o apoiarem nos encontrarão como os seus mais fortes aliados.